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Trump diz que Irã 'parece estar recuando' após ataques com mísseis

Em discurso à Nação televisionado da Casa Branca, Trump enfatizou que "não se perderam vidas americanas ou iraquianas" com os mísseis lançados sobre duas bases militares no Iraque

20:06 | 08/01/2020
3 de janeiro de 2020, O presidente dos estados Unidos, Donald Trump, faz declaração sobre os ataques. (Foto: JIM WATSON / AFP)
3 de janeiro de 2020, O presidente dos estados Unidos, Donald Trump, faz declaração sobre os ataques. (Foto: JIM WATSON / AFP) (Foto: JIM WATSON / AFP)

O presidente americano, Donald Trump, disse nesta quarta-feira (8) que o Irã "parece estar recuando" após os ataques contra interesses americanos no Iraque em represália à morte de um importante general iraniano, indicando que Washington não planeja lançar uma nova resposta militar.

Em discurso à Nação televisionado da Casa Branca, Trump enfatizou que "não se perderam vidas americanas ou iraquianas" com os mísseis lançados sobre duas bases militares no Iraque, que abrigam tropas da coalizão internacional que luta contra o que restou do grupo extremista Estado Islâmico.

Embora tenha prometido impor "de imediato" sanções econômicas adicionais contra o Irã, Trump recebeu com satisfação os sinais de que Teerã "parece estar recuando" no confronto do olho por olho, dente por dente.

"Os Estados Unidos estão prontos para abraçar a paz com todos os que a buscam", disse, ao concluir sua fala, dirigindo-se diretamente aos iranianos.

No entanto, o presidente, que enfrenta tanto um processo de impeachment no Congresso como uma difícil reeleição em novembro, vangloriou-se da decisão de ordenar o assassinato do máximo general iraniano, Qassem Soleimani, na sexta-feira passada.

Soleimani, um herói nacional no Irã, foi, segundo Trump, "o principal terrorista do mundo" e "deveria ter sido liquidado há muito tempo".

Embora o mandatário tenha encerrado sua mensagem com um apelo à paz, iniciou-a dizendo sem rodeios que nunca permitiria ao Irã dotar-se de uma arma nuclear.

Em seguida, pediu a seus aliados europeus e outras potências mundiais que sigam o exemplo dos Estados Unidos e deixem o que resta do Plano de Ação Integral Conjunto de 2015, o pacto internacional que visa a limitar as ambições nucleares iranianas.

O ataque de terça-feira contra as bases de Ain al-Asad e Erbil, no Iraque, marcou um novo passo na intensificação do confronto entre Washington e Teerã e elevou os preços do petróleo, embora a cotação da commodity tenha caído após as declarações de Trump.

O petróleo fechou em queda de 4,9% em Nova York, depois que, aos olhos do mercado, o presidente americano afastou o risco de um aumento das tensões no Oriente Médio.

O barril de 'light sweet crude' (WTI) para entrega em fevereiro perdeu 3,09 dólares e fechou a US$ 59,61. Em Londres, momentos antes do fechamento, o barril de Brent do Mar do Norte com entrega em março recuava 4,5%, a US$ 65,21.

O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, qualificou a ofensiva como "uma bofetada" para os Estados Unidos, mas disse que a vingança está por vir após o assassinato de Soleimani, chefe do braço de operações estrangeiras dos Guardiões da Revolução, exército ideológico da República Islâmica.

"Ocorreu um incidente importante. A questão da vingança é outro tema", disse Khamenei em um discurso transmitido ao vivo pela TV estatal.

O gabinete do primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, afirmou que havia recebido "uma mensagem verbal oficial" do Irã, informando-o que um ataque com míssil contra as forças americanas era iminente.

"O Iraque rejeita qualquer violação de sua soberania e ataques em seu território", destacou o comunicado, sem condenar especificamente os ataques com mísseis.

O presidente iraquiano, Barham Saleh, denunciou o ataque e disse repudiar as tentativas de transformar o Iraque em um "campo de batalha para bandos em guerra".

O Exército iraquiano anunciou não ter sofrido baixas nos 22 ataques com mísseis, a maioria contra a base de Ain Al-Asad.

Lançado pela primeira vez por forças dentro do Irã, o ataque foi muito incomum em um país que costuma disfarçar suas investidas contra interesses americanos usando forças xiitas.

"Os mísseis balísticos lançados abertamente do Irã contra alvos americanos são uma nova fase", disse Phillip Smyth, especialista em milícias xiitas.

Mas o ataque de Teerã, que ocorreu pouco depois do enterro de Soleimani após um funeral acompanhado por uma multidão, parece ter sido mais simbólico do que outra coisa.

Os Guardiões da Revolução advertiram que qualquer contra-ataque americano se depararia com uma "resposta ainda mais esmagadora" e ameaçaram atacar os "governos aliados" de Israel e Estados Unidos.

No entanto, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif, pareceu indicar que Teerã está satisfeito no momento. "O Irã adotou e concluiu medidas proporcionais em defesa própria", declarou no Twitter.

A resposta militar iraniana à morte de Soleimani gerou condenação mundial e também da Otan. A União Europeia a qualificou de "escalada". O Reino Unido, a França e a Alemanha denunciaram o ato com firmeza.

A aparente desescalada não tira a pressão sobre os 5.200 efetivos americanos estacionados no Iraque, onde o Irã tem estreitos vínculos com poderosas milícias xiitas.

E os aliados iranianos no Iraque disseram que ainda têm a intenção de vingar o ataque americano de sexta-feira e que o comandante paramilitar iraquiano Abu Mahdi al Muhandis foi assassinado junto com Soleimani.

Muhandis era chefe adjunto da milícia pró-iraniana Hashed al Shaabi, uma rede militar incorporada no Estado iraquiano, cujas facções são respaldadas por Teerã.

O Parlamento iraquiano pediu a expulsão das tropas americanas a partir da operação da semana passada.

Em meio à crescente tensão na região, um Boeing 737 da Ukraine International Airlines caiu nesta quarta-feira após decolar do aeroporto de Teerã em direção a Kiev, matando as 176 pessoas a bordo.

Não há indícios imediatos de nenhum vínculo com os ataques iranianos, mas outras companhias aéreas, como Air France, Royal Dutch Airlines e Lufthansa anunciaram que vão suspender seus voos sobre os espaços aéreos iraniano e iraquiano como precaução.

O regulador de aviação dos Estados Unidos proibiu os voos civis sobre Iraque, Irã e o Golfo, argumentando para uma potencial "identificação errônea" dos aviões.