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Berlim 1989: os 30 anos da queda do muro que dividiu o mundo

No dia 9 de novembro de 1989, a extensão de 155 km de concreto caía na cidade de Berlim, Alemanha.

13:48 | 08/11/2019
Para evitar o fluxo de pessoas e um suposto levante armado, a União Soviética decidiu junto à Alemanha Oriental erguer o muro
Para evitar o fluxo de pessoas e um suposto levante armado, a União Soviética decidiu junto à Alemanha Oriental erguer o muro (Foto: AFP)

Há três décadas, um dos símbolos da Guerra Fria, o Muro de Berlim, era derrubado pelas mãos das pessoas que foram separadas por ele. A construção dividiu durante 28 anos Berlim - e de certa forma o mundo - geográfica e politicamente. Quem caminha hoje pelas ruas da capital alemã encontra hoje apenas alguns marcos remanescentes dos 3,6 metros de altura e 155 quilômetros de extensão da parede de concreto.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, lideradas por Inglaterra, França, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). Com o avanço das tensões provindas da Guerra Fria, a Alemanha foi separada novamente, dessa vez em duas partes: Ocidental e Oriental. Berlim por ser uma zona de forte influência foi disputada pelos dois eixos.

O lado ocidental (capitalista) era liderado por Estados Unidos, Inglaterra e França. O Oriental (socialista) era liderado pela União Soviética. Passou a haver levas migratórias de populações tentando ir do lado socialista passou a fugir para o lado capitalista. Entre 1948 e 1961, cerca de 2,7 milhões de pessoas haviam deixado o País.

Para evitar o fluxo de pessoas e um suposto levante armado, a União Soviética decidiu, junto à Alemanha Oriental, erguer o muro. Segundo o historiador e doutorando em educação pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Webster Belmino, "o muro de uma cidade representou o muro no mundo. Entre uma cultura capitalista e um estado totalitário".

O muro se manteve de pé durante os anos que seguiram à Guerra Fria, ao tempo que o questionamento sobre ele aumentava; bem como o questionamento sobre a própria guerra
O muro se manteve de pé durante os anos que seguiram à Guerra Fria, ao tempo que o questionamento sobre ele aumentava; bem como o questionamento sobre a própria guerra (Foto: AFP)

Segundo o historiador, a construção do muro gerou forte repressão pela mídia internacional, pois esteticamente representava uma prisão para o lado oriental. A separação física acabou se tornando uma separação de cunho ideológico. "O mundo estava sendo convidado a decidir por um lado ou outro" explica Webster.

O Muro de Berlim

O fechamento entre as duas regiões aconteceu sem aviso prévio, na madrugada de 13 de agosto de 1961. As pessoas tiveram que decidir em questão de horas onde ficariam, e muitos foram separados da família e dos amigos por décadas.

O muro começou a ser construído naquele 13 de agosto de 1961. Eram 155 quilômetros que separavam Berlim, sendo 43 quilômetros na capital e 112 quilômetros na região metropolitana.

Tinha uma altura de 3,6 metros e espessura de 15 metros. Contava com 14mil soldados, armadilhas com espinhos, cerca elétrica, 186 torres de vigilância, 600 cachorros e a "faixa de morte" - era a área entre o muro externo e o interno, coberta com areia, para que as pegadas das pessoas que tentassem escapar ficassem marcadas no solo, e onde os guardas podiam atirar em qualquer um que tentasse cruzar a fronteira.

Mais de cem mil alemães orientais tentaram fugir. Cerca de 600 deles foram mortos a tiros por soldados ou morriam afogados tentando atravessar algum rio, ou em outros acidentes. Alguns se suicidaram ao serem flagrados na tentativa de fuga.

O prelúdio do fim

O muro se manteve de pé durante os anos de Guerra Fria, ao tempo que o questionamento sobre ele aumentava. Novos movimentos que surgiam tentavam não estar alinhados nem aos EUA ou URSS.

Do lado da URSS, o aparelhamento do Estado voltado para o fortalecimento do exército consumia maior parte dos recursos, o que fez o país entrar em crise econômica. Esse forte aparato bélico retirou dinheiro de áreas fundamentais. "O que a URSS conseguiu fazer que num período curto, saiu de uma nação feudal para uma nação industrial de boas condições de vida, desapareceu", comenta Webster Belmino.

Com o enfraquecimento da URSS todos os países alinhados à ela também se enfraqueceram, dentre eles a Alemanha Oriental. "Até que não havia condições ideológicas e industriais para se manter o muro em pé", afirma Webster.

Mais de cem mil alemães orientais tentaram fugir. Cerca de 600 deles foram mortos a tiros por soldados ou morriam afogados tentando atravessar algum rio
Mais de cem mil alemães orientais tentaram fugir. Cerca de 600 deles foram mortos a tiros por soldados ou morriam afogados tentando atravessar algum rio (Foto: AFP)

A destruição da Cortina de Ferro

Chris Gueffoy foi a última pessoa que morreu ao tentar fugir. No dia 5 de novembro de 1989. Chris e seu amigo Christian Gaudian conseguiram atravessar o chamado muro interior, mas, ao cruzar uma cerca, ativaram o alarme. Os dois conseguiram chegar ao último obstáculo. No entanto, os guardas atiraram, atingindo Chris no coração. Seu companheiro foi preso. O barulho dos tiros chegou a ser ouvido pela mãe de Chris, Karin Gueffoy.

”Junto com meu outro filho Stephan, cruzamos a Avenida Britzer em Treptow para ver o local exato em que Chris havia sido baleado e sangrado até a morte. O lugar, naquele dia, não encontramos.” conta Karin em depoimento ao livro O dia que o muro caiu.

Após três dias da morte de Chris, um mal-entendido ao responder um jornalista antecipou a queda do muro. Günter Schabowski era o porta-voz do governo da Alemanha Oriental, em 9 de novembro de 1989. Ao anunciar a nova lei de mobilidade dos cidadãos, Günter afirmou equivocadamente numa entrevista coletiva que a lei entraria em vigor imediatamente. Correspondentes internacionais correram para dar a notícia, que chegou de fora para dentro da Alemanha Oriental. Multidão se aglomerou no local e não houve alternativa se não permitir a passagem.

O que sobrou do muro

Se antes as pessoas eram separadas pelo muro, hoje podem caminhar livremente sobre as pedras que marcam a sua antiga divisão. Ou mesmo visitar a East Side Gallery, pedaço da construção que foi transformado em galeria de arte a céu aberto, conhecida como o “memorial internacional da liberdade”.

Mais de 40 mil blocos de 1,2 metro de largura e 3,6 metros de altura foram esmagados e convertidos em material para reparar a estrada que liga Berlim ao Mar Báltico. Outra parte foi leiloada pela Limex, uma antiga empresa da RDA. Uma centena de segmentos foram doados a museus e instituições em todo o mundo, como o Museu Imperial da Guerra em Londres, a Biblioteca Ronald Reagan na Califórnia e no Washington Newsmuseum.

Confira o que mudou na cidade de Berlim, entre 1984 e 2018, com e sem o muro: