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Os africanos que cruzam a América Latina para chegar aos EUA

00:03 | 02/08/2019
Cada vez mais refugiados africanos percorrem vários países latinos em uma fuga que chega a custar até 6.500 dólares. No caminho, sofrem assaltos e são extorquidos por traficantes de pessoas e policiais corruptos.Desde janeiro, Samuel está em fuga para escapar dos aliados do ditador camaronês Paul Biya, que governa o país desde 1982. A viagem o fez percorrer meio mundo – dos porões de tortura do ditador até a cidade mexicana de Tijuana, que faz fronteira com os EUA. "Foi uma odisseia", afirmou o camaronês à DW. Foi uma longa viagem passando pela Nigéria até a Turquia e, de lá, para o Equador. Depois, de ônibus, a cavalo, de barco e a pé pela selva de Darién, localizada entre Colômbia e Panamá. No caminho, assaltantes à espreita roubaram o homem de 42 anos várias vezes, e autoridades corruptas exigiram subornos em todos os lugares, exceto na Costa Rica. A viagem toda custou 6.500 dólares a Samuel, que não quer mencionar seu sobrenome por razões de segurança. "Quando cheguei em Tijuana, em 31 de maio, eu pensei que o pior já tinha acabado e que o resto seria moleza", disse Samuel à DW por telefone. "Em vez disso, estou preso na selva da burocracia", suspira em inglês com uma voz trêmula. Suas economias foram gastas e, em casa, seus três filhos estão à espera de dinheiro para comprar uniformes e cadernos escolares. Samuel pertence à minoria anglófona de Camarões. Ele é contador, trabalhou em um banco e fez uma formação profissional na Coreia do Sul. De lá, ele trouxe inúmeras ideias para o desenvolvimento de seu vilarejo natal no sul do país. Ele participou dos protestos da minoria anglófona contra Biya, que se iniciaram em 2016. Graças a seus contatos internacionais, ele forneceu alimentos, roupas e medicamentos a pessoas deslocadas internamente. Em 5 de janeiro, ele foi detido por militares. Ele só foi libertado porque um dos oficiais era um antigo colega de classe e por sua família pagar um resgate de 1 mil dólares. Samuel então fugiu para a Nigéria, mas não se sentiu seguro porque os governantes locais cooperavam com Biya. "Compatriotas críticos desapareciam constantemente", explicou. Por meio de traficantes de seres humanos, ele comprou uma passagem aérea passando pela Turquia, Panamá e Colômbia com destino ao Equador – um dos poucos países que não exige visto dos camaroneses. Lá, ele foi instruído a comprar uma passagem para Colômbia por uma certa empresa de ônibus. E isso não era fruto do acaso: na hora do embarque, muitos camaroneses já estavam sentados no ônibus. Durante sua odisseia através da América Latina, ele também conheceu refugiados de outros países africanos, bem como migrantes de Cuba e Haiti. Às vezes em grupos pequenos, outros de até 200 homens, eles cruzavam o continente em caravanas. Uma estação resultava em outra e sempre havia um preço a pagar. "Os funcionários públicos nos acompanhavam até mesmo até o próximo balcão da Western Union, onde pegávamos o dinheiro que nossos familiares nos enviavam", conta Samuel. Aqueles que não tinham dinheiro eram detidos – se necessário, durante semanas. "Os nicaraguenses eram os que mais nos exigiam [dinheiro]. Lá tivemos que pagar à polícia 150 dólares pela viagem", afirmou Samuel. "E nem conseguimos um cartão de livre-trânsito." No Panamá e Colômbia, Samuel foi assaltado – primeiro por criminosos, depois por policiais. Ele caminhou pela perigosa selva de Darién em cinco dias, "sempre na trilha de roupas rasgadas que os migrantes na nossa frente tinham pendurado nas árvores como um sinal". Segundo a ativista de direitos humanos Soraya Vásquez, cerca de 2 mil refugiados de Camarões, Eritreia, Etiópia, Gana e Somália estão aguardando na fronteira mexicana por uma audiência com as autoridades de imigração dos EUA para obter asilo político. A lista de espera, porém, chega a milhares de pessoas e é administrada por migrantes da América Central e mantida à noite na estação fronteiriça mexicana. "Os africanos são particularmente desfavorecidos porque não falam a língua e não conhecem os costumes", afirma Vásquez, da organização Families belong together. Samuel faz peregrinações todos os dias ao posto fronteiriço. Seu visto de trânsito, emitido pelas autoridades mexicanas, já expirou há muito tempo. Sem papéis, no entanto, ele não consegue arranjar um emprego para superar o que poderá ser meses de espera. As vagas dos poucos albergues em Tijuana estão preenchidas, especialmente por mulheres que viajam sozinhas e famílias com crianças. As filas nos locais que distribuem refeições gratuitas são longas. Há três semanas, Samuel protestou com outros refugiados africanos em Tijuana. As autoridades prometeram resolver o problema. "Nada aconteceu desde então", reclamou. Os EUA continuam sendo o destino de seus sonhos, mas, entretanto, ele iria até mesmo para o Canadá – mas, naquele país, apesar das garantias oficiais, ainda não foram abertas as portas para os requerentes de asilo. México ou Guatemala – que, de acordo com os planos do presidente americano Donald Trump deveriam receber a maioria dos migrantes – não são uma opção para Samuel. Ele poderia aprender a língua, mas a cultura é muito diferente. Não há trabalho ou existem vagas que pagam mal. O tráfico de drogas e a prostituição estão florescendo – e isso não seria seguro para seus filhos, que ele gostaria de buscar em Camarões. "Eu não sei sobre o futuro. Eu rezo por um milagre", concluiu. ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter Autor: Sandra Weiss (fc)
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