Investigação busca identificar quem baleou torcedor do Fortaleza no Jangurussu
Adolfo Lima de Abreu está internado após ser atingido na cabeça. Ele foi autuado por porte ilegal de arma, mas familiares e amigos rebatem acusação
Familiares e amigos do torcedor do Fortaleza Esporte Clube baleado na última quinta-feira, 22, cobram esclarecimentos sobre as circunstâncias do fato, ocorrido por volta das 23 horas no bairro Jangurussu, em Fortaleza. Eles também questionam a versão apresentada pela Polícia Militar do Ceará (PM-CE) que aponta que Adolfo Lima de Abreu, de 28 anos, estava armado.
Quase uma semana após o episódio, Adolfo continua internado no Instituto Dr. José Frota (IJF). Ele foi atingido por dois disparos na cabeça. Conforme familiares dele, que conversaram com O POVO sob condição de anonimato, os médicos tiraram-no do coma induzido e aguardam a sua reação.
A Polícia Militar informou que realizava a escolta de um ônibus que transportava torcedores do Fortaleza que haviam ido até o estádio Domingão, em Horizonte (Região Metropolitana de Fortaleza), acompanhar o jogo com o time da casa.
De acordo com a PM-CE, em determinado momento, um grupo começou a arremessar pedras e outros objetos contra o veículo. Essa multidão foi dispersada, mas, adiante, ocupantes de um carro teriam efetuado disparos de arma de fogo em direção ao coletivo e a PM revidou.
“Durante as diligências, um homem de 28 anos foi encontrado ferido”, afirma a nota da corporação. “Com o suspeito foi apreendido um revólver calibre .38 com cinco munições, sendo três deflagradas”.
Adolfo foi socorrido ao IJF e, mesmo tendo sido hospitalizado, foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. Em audiência de custódia realizada na sexta-feira, 23, a prisão dele foi relaxada, porém.
“Examinando os autos, verifico que as condições pessoais do autuado são favoráveis, pois primário, de bons antecedentes e com endereço certo, sendo esta a primeira vez que, em tese, incursiona no mundo do crime”, afirmou na decisão a juíza Adriana da Cruz Dantas.
A versão da PM foi questionada tanto pela Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), quanto pela Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatog). Além do armamento apresentado como pertencente a Adolfo, as notas das agremiações questionam o desvio feito pela PM da escolta que acompanhava os torcedores.
De acordo com as manifestações, a rota planejada inicialmente previa o trajeto pela BR-116, mas o percurso seguiu pela alça do 4º Anel Viário.
“O desvio ocorreu mesmo após o alerta das lideranças sobre a possibilidade de emboscada na localidade, o que infelizmente se confirmou, gerando uma situação de total insegurança”, afirmou a Anatog.
Conforme um torcedor do Fortaleza que foi até Horizonte e que teve acesso aos relatos de pessoas que estavam no momento do confronto, um grupo de torcedores do Ceará realizou uma espécie de emboscada no comboio, que era composto pelo ônibus e também por carros e motos.
Adolfo, que trafegava em uma motocicleta, teria seguido em direção ao Jangurussu para fugir da confusão, afirma o torcedor ouvido por O POVO, que pediu para não ter a identidade divulgada.
A moto dele foi encontrada na avenida Catolé, enquanto Adolfo foi encontrado, já baleado, na rua Edinalda Santos. Cápsulas de calibre 9mm foram encontradas no local.
As fontes ouvidas por O POVO afirmam que torcedores que presenciaram a confusão acusam a PM de ter efetuado os disparos contra Adolfo. Além dele, nenhum suspeito foi preso nas diligências efetuadas pela Polícia por ocasião da ocorrência.
As pessoas que conversaram com O POVO reiteram que Adolfo não tem antecedentes criminais e que não tem envolvimento com atividades delituosas. Inclusive, ele trabalha como motorista por aplicativo.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que a tentativa de homicídio que vitimou Adolfo é investigada pela 20ª Delegacia de Polícia Civil de Fortaleza (antigo 30º Distrito Policial). Até o momento, não há indiciados.
O POVO também entrou em contato com a Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública (CGD) para saber se algum procedimento foi instaurado pela pasta, mas não teve resposta até a publicação desta matéria.
Torcedores prestam solidariedade a Adolfo
Integrantes da TUF prestaram solidariedade a Adolfo durante a partida em que o Fortaleza venceu o Floresta por 1 a 0 na segunda-feira, 26, pelo Campeonato Cearense, no estádio Presidente Vargas. Faixas com os dizeres “Quem baleou Adolfo?” foram estendidas pelos torcedores.
Episódios em que outros torcedores da organizada foram baleados também foram citados. São os casos de Jullian de Sousa Cavalcante, o “Sobralzin”, de 21 anos, morto em 2016, no bairro Siqueira; e Gustavo Anderson Araújo Silva, o “Dim”, de 19 anos, morto também em 2016 na Messejana.
Em ambos os casos, os torcedores foram baleados durante confrontos entre torcidas e também houve relatos de que as Forças de Segurança atiraram contra as vítimas. Nem no caso de Jullian, nem no caso de Gustavo Anderson foi esclarecido quem foram os responsáveis pelas mortes.
No caso de Jullian, o inquérito ainda segue em andamento, enquanto o inquérito que investiga a morte de Gustavo Anderson foi arquivado.