Fumantes e ex-fumantes: projeto da UFC busca identificar futuras doenças pulmonares
Avaliação é feita por meio de exames e exercícios físicos para detectar sintomas como tosse crônica e fraqueza muscular. A partir daí, são feitos os devidos encaminhamentos
O tabagismo foi responsável por cerca de 161 mil mortes no Brasil em 2020, das quais 37 mil estavam associadas a Doenças Pulmonares Obstrutivas Crônicas (DPOC’s), de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Uma das formas de combater essa mortalidade é a rápida conclusão do diagnóstico por meio da identificação precoce dos sintomas, como busca a Liga Pulmonar da Fisioterapia (LPF), projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Anualmente, a Liga realiza ações voltadas para a detecção e o combate a doenças motivadas pelo vício em tabaco. Neste ano, fumantes e ex-fumantes puderam ter acesso a testes e questionários sobre hábitos, sintomas e como o fumo influencia na saúde de cada um.
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A ação faz parte de uma mobilização global, a Healthy Lungs for Life, realizada pela European Lung Foundation, em alusão ao Dia Mundial da DPOC. Durante o evento, realizado no último dia 14 de novembro, foram feitos testes rápidos com equipamentos de saúde e curtos exercícios físicos, de onde são gerados os dados sobre o quadro de saúde do paciente.
“Apesar de sentir todos esses sintomas, eles não desconfiam que estão doentes e por isso estamos fazendo essa ação. A partir dessa análise a gente consegue atestar se existe algum tipo de distúrbio ventilatório nesta população. Se houver, a gente conseguiria, por exemplo, encaminhar esse paciente para um serviço médico, para que o diagnóstico seja eventualmente fechado”, explica o coordenador da LPF, Magno Formiga.
Feito por profissionais e estudantes no pátio da Faculdade de Medicina da UFC, o atendimento foi oferecido de forma gratuita e beneficiou dezenas de populares, com o acesso a um serviço que pode exigir um maior esforço financeiro na rede privada.
Maria Lopes, 76, já havia realizado outros acompanhamentos em unidades particulares e, em determinada ocasião, teve que pagar mais de R$ 400. “Eu paguei bem, viu? É muito importante [o serviço gratuito] porque está tudo difícil. Para mim que sou uma viúva pensionista, o dinheiro só dá para comprar remédios”, afirma a paciente.
Outro ponto positivo é a agilidade. Sem necessidade de agendamento prévio, a ação beneficiou até quem nem sabia que ela iria ocorrer. Esse foi o caso de Antônio Pinto, 59, que foi à Famed cumprir outras recomendações médicas.
“Eu estava vindo fazer uma coleta de sangue para mostrar para o meu médico que é um hepatologista e, aproveitando o ensejo, eu passei aqui, vi e já estou fazendo o procedimento”, comenta o ex-fumante, que fez uso do tabaco por mais de 25 anos.
Resultados podem auxiliar futuras pesquisas
Para além do auxílio à população, a atividade cumpre alguns objetivos para a pesquisa acadêmica. O principal deles é confirmar a possibilidade de identificar sintomas de futuras doenças relacionadas ao tabagismo, antes mesmo de elas se manifestarem por completo.
“A gente está pretendendo usar esses dados para ver justamente se a avaliação que a gente fez ajuda a identificar realmente a doença, para quem sabe a gente possa replicar a avaliação em outros momentos e identificar esses indivíduos, [para que] eles possam tratar a doença de forma mais precoce”, indica o vice-coordenador da LPF, Rafael Mesquita.
O público atendido também poderá abranger pessoas que foram fumantes passivas durante um longo período.
“Dependendo da quantidade desse fumo passivo, realmente você já imagina que esse paciente pode ter algum dano pulmonar proveniente dessa inalação crônica de gases tóxicos, mesmo que passivamente. Então, a gente pode, sim, tentar abrir essa ação no futuro para outras populações”, completa Formiga.
Como os testes são realizados com fumantes e ex-fumantes
O procedimento é realizado em algumas etapas. A primeira, com resposta de questionário, coleta dados sobre os sintomas que o paciente sente no dia a dia e como eles afetam a rotina. Para agilizar o serviço, o processo é realizado ainda na fila de espera, onde membros da LPF conversavam com os pacientes.
Logo após o questionário, os pacientes são convidados a realizarem exercícios físicos comuns no cotidiano, como sentar e levantar de cadeiras, no intuito de analisar a resposta do corpo a esses estímulos. Por fim, os populares realizam testes como a espirometria, exame que mede a quantidade e a velocidade com que o ar circula nos pulmões ao inspirar e expirar.
Ao final de todo o processo, o paciente passa por uma conversa com profissionais da LPF, que explicam os resultados dos exames e dão algumas recomendações. A depender do resultado, ele pode ser orientado apenas a seguir alguns cuidados que já toma, ou ser encaminhado para serviços de saúde especializados.
Um dos primeiros a finalizar todo o percurso foi Francisco Souza, 66, que comemorou os bons resultados que teve. “Graças a Deus deu legal. Ele disse que não tem perigo, né? Se eu não continuar a fumar. Eu digo ‘Deus me defenda! Não fumo mais de jeito nenhum.”