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Fortaleza tem comércio aberto e ruas movimentadas no que pode ser o último dia útil de lockdown

Ceará deve iniciar flexibilização econômica na próxima segunda-feira, 12. Estado atingiu a marca de 15 mil mortos durante esta semana
20:05 | Abr. 09, 2021
Autor Gabriel Borges
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Tipo Notícia

Com uma movimentação abaixo do normal, mas acima do que se espera para um período de lockdown, Fortaleza passou pelo que pode ser o último dia útil de isolamento rígido, caso o decreto que tem validade até o próximo dia 11 não seja prorrogado pelo governador Camilo Santana (PT).

O intenso fluxo de carros nas avenidas Washington Soares, da Universidade e Abolição serviam de indício da baixa adesão ao atual decreto. Segundo os dados do Mapa Brasileiro da Covid-19, elaborado pela empresa de tecnologia da informação In Loco, o número de pessoas na rua é bem maior do que em 2020.

Em março do último ano, o Ceará chegou a atingir 62,2% de índice de isolamento social. O cenário atual é bem diferente, dos 31 dias do mês de março em 2021, apenas o dia vigésimo primeiro dia superou a marca de 50% de adesão ao isolamento.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice de adesão mínimo para que se tenha sucesso no combate ao vírus é de 70%, número que o Ceará não atingiu em nenhum momento desde o início da pandemia, segundo os dados do Mapa Brasileiro da Covid-19.

Em Fortaleza, o possível último dia útil de lockdown foi desrespeitado em muitos locais. Na rua Sete de Setembro, no bairro Parangaba, não era necessário fazer esforço algum para observar o descumprimento do atual decreto.

Lojas funcionando, barbearias abertas, além de muitas aglomerações em filas de bancos e na porta de um cartório. Mesmo com muitas pessoas utilizando máscaras, o equipamento nem sempre estava posicionado de forma adequada.

Movimentação na Parangaba, em 9 de abril
Movimentação na Parangaba, em 9 de abril (Foto: FABIO LIMA)

"Está horrível, tudo lotado. Não tem nem como falar em lockdown, claramente não está sendo cumprido aqui. É loja, comércio e barraca para todo lado, tudo funcionando. A maioria que anda aqui na rua está sem máscara ou não usa direito", conta Washington Luiz, 29 anos, que trabalha há um ano em um mercadinho na região.

Questionado se os descumprimentos das medidas sanitárias eram frequentes no bairro, Luiz não teve dúvidas. "Todo dia essa rua está assim, cheia. Sempre tem essas filas aí nos bancos. Não acho que mudou muita coisa nesses últimos 30 dias. Eu tenho medo, me preocupo demais. Tenho amigos que estão intubados", relata.

Movimentação no Centro
Movimentação no Centro (Foto: FABIO LIMA)

Em outro ponto da Capital, no Centro, o ambulante Raimundo Sandro, 42, conta que a situação não é diferente nas proximidades da Praça do Ferreira.

Lojas funcionam de forma irregular durante o decreto de isolamento rígido no Ceará
Lojas funcionam de forma irregular durante o decreto de isolamento rígido no Ceará (Foto: Fábio Lima)

"O pessoal não está cumprindo o lockdown, se estivessem cumprindo, não teria esse aumento nos números. Então o lockdown tem que ser mais rígido, não é para funcionar nada, nem ônibus. Lockdown já está dizendo, é para fechar tudo, não era para ter ninguém na rua. Quantas aglomerações não tem dentro dos ônibus?", questiona o ambulante.

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Por outro lado, Sandro cobra que o governo tome medidas que possam melhorar a vida dos trabalhadores. "Nesse lockdown tem muita gente morrendo de fome. Eu tenho três pessoas em casa que são idosos. Tenho que sair na rua para vender e conseguir o pão para dentro de casa, isso aí machuca a gente. Eu queria que o governador olhasse esse lado das pessoas, o auxílio que está aí não vai dar para nada", lamenta.

Distante do Centro, quem passava pela rua Coronel Francisco Pereira, no bairro Messejana, também pôde encontrar problemas na adesão ao lockdown. Isso porque a tradicional feira segue funcionando, mesmo durante o período mais crítico da pandemia no Ceará.

Comércio aquecido em Messejana na sexta-feira, 9 de abril, durante o lockdown
Comércio aquecido em Messejana na sexta-feira, 9 de abril, durante o lockdown (Foto: FABIO LIMA)

Apesar das barracas e dos comerciantes no local, a movimentação de clientes é muito aquém do que poderia ser visto em outras épocas.

"Para chegar um cliente aqui é só por acaso mesmo, está fraco. No fim do ano passado, as vendas melhoraram, mas nesse ano foi fraco. O outro auxílio ajudava mais, esse está difícil. Aqui é muito movimentado, mas agora fica assim. As pessoas deveriam deixar as lojas abertas, podendo entrar duas ou três pessoas. Eu acho que o pior é no meio da rua, em bar e em festa", desabafa Juarez Almeida, 61, que trabalha na feira há quatro anos.

Comércio aquecido em Messejana na sexta-feira, 9 de abril, durante o lockdown
Comércio aquecido em Messejana na sexta-feira, 9 de abril, durante o lockdown (Foto: FABIO LIMA)

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Juarez diz entender a gravidade do atual momento e teme a doença, mas explica que não tem outra opção para conseguir seu sustento.

"Eu sei que é um momento complicado, mas a gente vive só disso aqui. Eu não tenho como ganhar dinheiro com outra coisa. Esse auxílio está terrível, não serve para pagar quase nada. Se eu não tiver aqui, não dá para pagar as contas, que já estão atrasadas. Eu tenho muito medo, trabalho porque preciso. Eu já tenho mais de 60 e fico nesse sufoco de morrer por uma coisa ou por outra", relata.

Movimento na Beira Mar, em 9 de abril, fim de lockdown
Movimento na Beira Mar, em 9 de abril, fim de lockdown (Foto: FABIO LIMA)

Já na orla de Fortaleza, o calçadão da Beira-Mar era um retrato quase fiel ao que se espera de um lockdown. O sol escaldante e a temperatura superior a 30°C ajudavam a manter as pessoas distantes do calçadão. Na areia da praia, poucos eram os que se arriscavam a contrair o vírus em troca de um dia de sol e mar.

O ambiente ermo traz prejuízos para o vendedor de lanches José Milton Félix, 71, que trabalha há mais de 30 anos na orla. Porém, o momento difícil é compreendido após Milton ter vencido a luta contra o vírus.

"Você está vendo aí como é que tá, né? Não tem ninguém. Nesse último mês, depois que foi fechado, tudo ficou assim. Eu já peguei a doença, passei 17 dias no Hospital de Campanha do Presidente Vargas. Eu concordo com os cuidados, com a parte de usar máscara e que evitem multidão. Eu mesmo ando sempre com máscara, uma máscara reserva e álcool em gel. Eu tenho medo porque eu senti na pele, eu sei que não é fácil", relata.

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Movimento na Beira Mar
Movimento na Beira Mar (Foto: FABIO LIMA)

Dados divulgados pelo Google apontam redução da circulação de pessoas no Ceará

O "Relatório de mobilidade da comunidade", do Google, realizou um levantamento da movimentação de pessoas no Ceará entre os dias 21 de fevereiro de 2021 e 4 de abril deste ano. Segundo os dados apresentados pelo balanço, houve queda de movimentação em quase todos os setores.

No Ceará, o setor de varejo e lazer, que cobre áreas como shoppings e restaurantes, teve queda de 64%. O número elevado só não supera a redução apresentada em espaços públicos como praças e praias, que apresentou uma queda de 67%, segundo o relatório.

O único aumento de movimentação no Estado ficou restrito à categoria "residência", com um aumento de 11% durante o período. Os terminais de transporte público apresentaram uma redução de 48% em sua movimentação, assim como os locais de trabalho, com uma queda de 13%.

A menor redução no Ceará, segundo o relatório, foi no setor de mercados e farmácias com uma queda de 3%.

Fortaleza também seguiu a mesma tendência de queda dos números gerais do Estado. O setor de varejo e lazer teve uma redução de 70% na movimentação, já os parques e as praias apresentaram uma queda de 72% na Capital. O setor residencial foi o único que cresceu em movimentação, com 13% de aumento.

Dentre os cinco maiores municípios do Estado, Juazeiro do Norte foi o que apresentou maior queda em um setor. A movimentação caiu 90% nos parques da cidade. A categoria foi a que também apresentou maior redução em Sobral, com uma queda de 83% na circulação de pessoas nesses locais.

Caucaia e Maracanaú, segundo o relatório, apresentaram aumento no setor de mercados e farmácias com 13% e 5%, respectivamente, dentre as cinco maiores cidades do Ceará.

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