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NOTÍCIA

"Violência sexual não é só estupro", dizem médicas cearenses em apoio ao movimento #Exposed

Médicas do Coletivo Rebento comentam a importância dos relatos como forma de quebrar o ciclo de silêncio, em um problema de violência e de saúde pública

Ismia Kariny
15:37 | 27/06/2020
A Polícia Civil está investigando os casos no Ceará (Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)
A Polícia Civil está investigando os casos no Ceará (Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)

Médicas cearenses, integrantes do Coletivo Rebento, se manifestaram sobre o movimento #Exposed, que desde o início da semana reacende o debate acerca da violência sexual contra as mulheres. Em vídeo publicado nas redes sociais, as profissionais alertam que as agressões morais e físicas contra as mulheres são um grave problema de saúde pública, e pontuam: “Violência sexual não é só estupro”.

As primeiras denúncias em #Exposed começaram a partir da hashtag #ExposedCariri, no Twitter, onde estudantes de Juazeiro do Norte passaram a relatar a violência sofrida e o assédio sexual em instituições de ensino públicas e privadas. Desde então, o movimento tem inspirado meninas e mulheres de outras regiões do Ceará a compartilharem casos de abuso e importunação sexual que sofreram.

A partir da iniciativa de jovens estudantes do Cariri, outras páginas e hashtags foram levantadas nas redes sociais, como espaço para vítimas denunciarem os agressores. Com elas surgiram o #ExposedFortal e #ExposedSobral. Para a ginecologista e obstetra Aline Veras, integrante do Coletivo Rebento, o movimento tem um papel relevante para conscientizar e incentivar outras pessoas, e principalmente mulheres, a quebrar esse ciclo de violência.

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“Eu tenho uma profunda admiração por todas as pessoas que quebraram esse ciclo de silêncio e violência. Muitas mulheres querem quebrar esse ciclo e não sabem como. E, partindo desses exemplos, elas se encorajam e se empoderam”, comenta. Esse movimento, segundo Aline, é um reflexo de uma violência que ainda permanece sendo naturalizada, e que não deve ser olhada com “vista grossa”.

Conforme a ginecologista, fingir que a violência não existe, ou minimizá-la, é compactuar com um sistema que favorece o agressor em detrimento da vítima e perpetua a violência sexual. “É importante que essas meninas sejam protegidas, e que os discursos que desqualificam as suas denúncias sejam prontamente rechaçados, principalmente porque esses discursos, na maioria das vezes, são de cunho moral no sentido de justificar a agressão”, salienta.

Violência sexual é um problema de saúde pública

As agressões morais e físicas contra as mulheres são um grave problema de saúde pública, conforme destacam 23 médicas cearenses, que integram o Coletivo Rebento. Em vídeo publicado nas redes sociais, as profissionais da saúde alertam que nenhum tipo de violência sexual deve ser considerado menos grave.

“Foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2018. Mais da metade das vítimas foram meninas de até 13 anos. Ocorrem em média 180 estupros por dia no Brasil. Isso pelo que se registra. Os números reais são muito maiores”, relatam as médicas no vídeo.

As profissionais de saúde frisam que violência sexual não é só estupro. Cyberbullying, pornografia de vingança, sexting (divulgação de conteúdos eróticos por mensagem), exploração ou aliciamento, coerção sexual, exposição de fotos em aplicativos e assédio sexual são algumas das práticas que vêm sendo denunciadas com a hashtag Exposed.

Essas agressões atentam principalmente contra as mulheres, ao desafiar a autonomia sobre o seu próprio corpo. Segundo a ginecologista Aline Veras, muitos desses crimes têm um intuito claro de agredir moralmente e sexualmente as vítimas.

“Qualquer pessoa tem direito ao seu corpo e de viver a sua sexualidade da maneira que quiser. O fato de a pessoa ter tirado uma fotografia e ter enviado para uma única pessoa, em um momento de construção ou vivência de uma relação, não legitima e justifica a disseminação pública dessas imagens”, sustenta Aline.

De acordo com a ginecologista, toda violência, inclusive a de cunho sexual, é um problema de saúde pública, sobretudo por se manifestar em forma de prejuízos físicos, psicológicos e sociais para as vítimas. “Tem muitas mulheres e meninas sendo atendidas por transtornos mentais comuns, ansiedade, transtornos bipolares ou alimentares, e uma série de outras questões, que na verdade têm uma associação clara com algum tipo de violência sexual sofrida”, detalha.

Debate sobre a violência sexual deve considerar questões de raça e classe

O Movimento Exposed permitiu o rompimento do ciclo de silêncio sobre a violência sexual, e obrigou instituições de ensino, autoridades e familiares a discutir e pensar sobre questão da agressão física e moral contra mulheres. No entanto, no entendimento da obstetra Liduina Rocha, o debate ainda se pauta distante das questões de raça e classe.

“Quem fez a denúncia sofre violência de gênero, mas tem percepção, na maioria das vezes, do lugar do privilégio. Chama a minha atenção que a voz que foi ouvida foi das meninas e mulheres das escolas privadas mais caras da Cidade”, comenta Liduína. Para a obstetra, persiste a situação de invisibilidade das mulheres encarceradas, negras, e com orientação homoafetiva.

Tal desigualdade também é percebida pela ginecologista Aline Veras. Ela concorda que a violência não afeta esses grupos de forma igualitária. “Ela [a violência] afeta a todas as mulheres. Mas essa comoção só conseguiu espaço porque atingiu a uma camada privilegiada da sociedade”, acrescenta. Conforme a ginecologista, as mulheres de classe e raça menos privilegiada têm seus discursos deslegitimados de forma veemente.

“O que não se torna público, não pode ser cuidado”

O Movimento Exposed tem um papel de canalizar a “possibilidade” de revelação da violência, segundo o entendimento de Débora Britto, coordenadora do programa Superando Barreiras, que acolhe mulheres vítimas de violência. Ela explica que aquilo que “não se torna público, não pode ser cuidado”. “Alguns teóricos dizem que a gente tem três fases só para esse momento de revelação. O primeiro é o auto revelar-se, que é quando você percebe que foi vítima de violência sexual”, comenta.

Esse processo de auto revelação consiste no reconhecimento da vítima como alguém que viveu a situação de violência sexual. “Muitas vezes a gente precisa desse espelhamento, para refletir e compreender que em algum momento também foi violentado”, esclarece. A segunda fase é a escolha do confidente, a pessoa para qual a vítima vai relatar a agressão que vivenciou. “Muitas dessa meninas escolheram a mídia social, um lugar público, que alcança muitas vozes”, frisa Débora.

A coordenadora do Superando Barreiras pontua que, nessa decisão das vítimas de escolher uma mídia social para relatar seus casos, cabem muitas reflexões. “Qual é a reflexão que essas famílias precisam fazer, quando elas percebem que essa meninas falaram publicamente que foram vítimas de uma violência? É importante refletir por quê elas escolheram revelar uma experiência traumática para o mundo, e não para um pai ou uma mãe”, pondera.

Já a terceira fase desse processo de revelação, é lidar com o próprio ato de expôr a violência sofrida, detalha Débora. “Quais são os desfechos positivos e negativos? A gente precisa pensar como vai ser a repercussão para cada uma dessas mulheres, ao se revelar publicamente. Não é simplesmente sobre o tema, é sobre o sujeito, a menina que sofreu”.

Além da comoção, é importante refletir sobre o que será feito a partir desses relatos, conforme ressalta Débora. “Se a gente se comove, mas não promove uma ação de cuidado; não aciona o sistema jurídico e de proteção social; não responsabiliza os criminosos ou faz a denúncia; e não busca o cuidado de saúde para superar e ressignificar essa vivência traumática, então você vai gerar comoção, mas não vai canalizar a energia do movimento para que se diminua a violência contra a mulher”, frisa Débora.

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Para isso, o debate deve se guiar também para ampliar a visão das mulheres sobre os seus direitos, principalmente àqueles referentes à sexualidade. “A partir do momento que elas compreendem os direitos que elas têm, podem entender que nesse processo há uma violação, e quais são as responsabilidades e limites, ou o que é ou não correto”, explica Débora.

Assim, é necessário educar as mulheres para a sexualidade a partir de um diálogo livre, sem tabus; e concentrar esforços para que os sistemas familiares venham acolher e cuidar das vítimas, segundo a conclusão da coordenadora do Superando Barreiras. De acordo com Débora, o movimento Exposed também tem um papel importante para a construção da autonomia e amadurecimento das vítimas que sofreram violência sexual.