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NOTÍCIA

Próximo ao Dia da Mulher, entenda o que é sororidade e dororidade

Termo passou por adaptações e conquista cada vez mais mulheres na sociedade; dororidade, a prática da sororidade por mulheres negras, vem sendo estudado por acadêmicos

16:58 | 06/03/2020
Tapa-mamilos foi hit no Carnaval. Mulheres reivindicam corpos livres
Tapa-mamilos foi hit no Carnaval. Mulheres reivindicam corpos livres (Foto: FÁBIO LIMA/O POVO)

Você já ouviu falar em sororidade? Apesar de não existir um período específico em que o termo ficou conhecido no Brasil, as buscas pelo termo no Google aumentaram cerca de 450% em apenas cinco anos. A sororidade consiste em ser fraterna com outras mulheres, com o objetivo de reforçar a união entre elas e de combater estereótipos machistas. Na sociedade brasileira, o termo vem passando por diversas modificações e cada vez trazendo mais adeptas à prática. A palavra, inclusive, chegou a ser citada no BBB20 por Manu Gavassi, ao justificar seu voto para o Paredão em um homem, Felipe Prior.

Historicamente, o termo surgiu da segunda onda do feminismo durante a década de 60, no qual as mulheres passaram a compor de forma mais ampla os debates sobre desigualdades de gênero, como explica a doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Eliana Coelho. O termo logo estabeleceu uma relação de combate aos micromachismos, que consistem em pequenas atitudes que, por serem perpetuadas diariamente, passam a fazer parte do nosso cotidiano. "A ideia de irmandade entre as mulheres veio para contrapor a ideia de fraternidade entre os homens e somar na luta contra os micromachismos”, fala.

A Sororidade tem origem latina no termo soror, cujo significado é “irmã”, em latim. O termo ainda não é dicionarizado, mas é muito utilizado pelo feminismo, movimento social que luta por direitos iguais para homens e para mulheres. Em diversas situações é possível perceber como a vivência de uma mulher na sociedade ainda não é a mesma que um homem. Casos de feminicídio, homicídio em razão da condição do sexo feminino, é uma das violências que ainda são reforçadas pela questão de gênero. Assédios também não são casos incomuns, chegando a aparecer em rede nacional no mesmo reality show que trouxe a sororidade em pauta.

LEIA MAIS: Feminicídio é a única categoria entre mortes violentas com aumento em 2019 no Ceará

É diante das situações de violência que a sororidade deve entrar em prática. Eliana, que atualmente estuda o ativismo de mulheres em redes sociais, aponta que a solidariedade está presente nas plataformas. "Muitas mulheres utilizam as plataformas digitais como zonas de denúncias, onde relatam suas violências e gera uma ampla discussão sobre o fato”. Movimentos como o da hashtag #MeuPrimeiroAssédio são exemplos da prática do termo entre as mulheres. Na campanha, mulheres compartilharam entre si no Twitter a primeira vez que sofreram assédio por parte de algum homem. “É nesse compartilhar de experiências que acontece a sororidade”, explica a socióloga.

No entanto, a solidariedade entre mulheres não significa necessariamente que todas as mulheres sejam isentas de críticas. “É importante que a irmandade entre mulheres não seja vista como uma utopia”, explica a coordenadora do núcleo de estudos e pesquisa sobre gênero, idade e família (Negif), Celina Sales. Utopia pois não é algo distante da nossa realidade, como mostram as práticas em campanhas nas redes sociais. No entanto, para a coordenadora, é necessário pôr em prática a sororidade e adaptá-la às diversas problemáticas sociais que se aglutinam com o machismo. “É importante que muitas mulheres estejam juntas nas lutas e nas discussões dos assuntos para garantir novos direitos”, afirma a coordenadora.

DORORIDADE TAMBÉM VEM CONQUISTANDO ADEPTAS

A dororidade consiste na prática da sororidade por mulheres negras. O machismo contra essas mulheres é acentuado com o racismo, diferente da vivência que mulheres brancas, por exemplo, poderiam vir a ter. O termo foi criado em meados de 2018 por Vilma Piedade, pós-graduada em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) em um livro.

Na obra, a autora questiona a ideia da sororidade enquanto exercício de irmandade entre todas as mulheres, sendo necessário levar em conta que a dor das mulheres negras é agravada pelo racismo e, dessa forma, o feminismo precisa de ferramentas que explicitem tais diferenças e garantam a continuação das lutas.

"O termo vem para dialogar e não para anular a sororidade", afirmou a autora durante entrevista do lançamento. “Não é que a dor das pretas seja maior. Dor é dor, e ponto. Dói muito ser mulher atacada pelo machismo, e dói muito ser mulher atacada pelo racismo.”

No ano de lançamento do livro, a palavra “dororidade” registrou um aumento de 360% em buscas do Google. No entanto, quando comparada no período de cinco anos, o conceito não teve o mesmo aumento de buscas da palavra “sororidade”.

O termo vem sendo debatido em pesquisas acadêmicas e em grupos antirracistas, como expõe a mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Izabel Accioly. “A dororidade se refere não apenas sobre a dor compartilhada por quem sofre as violências do machismo e do racismo, mas também da cumplicidade que nós mulheres negras compartilhamos”.

A pesquisadora afirma que diante do compartilhamento das vivências entre essas mulheres, é possível lutar por questões que são especialmente difíceis para as mulheres negras, como o feminicídio. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, 88,8% das vítimas foram assassinadas por seus companheiros ou ex-companheiros e 66,5% dos crimes aconteceram nas residências das vítimas. No perfil das vítimas, 61% são mulheres negras e 70,7% cursaram até o ensino fundamental.

“Precisamos entender que nós mulheres não somos todas iguais. Somos diversas e precisamos compreender e respeitar as nossas diferenças e os diversos modos de ser feministas. A dororidade nos aproxima e nos fortalece”, afirma Izabel.