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No início da alta estação, frequentadores e comerciantes lidam com transtornos das obras na Beira Mar

A dificuldade de acesso ao local e o receio de um mar mais perigoso após aterramento tem afastado frequentadores e diminuído vendas na região
20:17 | Dez. 13, 2019
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Férias: hora de relaxar, tirar o pé da rotina e curtir uma boa praia. A anormalidade dessa definição neste ano tem preocupado desde antigos moradores da Capital até turistas que visitam a cidade pela primeira vez. Os transtornos causados pelas obras de requalificação da Beira Mar têm feito com que visitar o local deixe de ser um programa corriqueiro, mas sim uma decisão cercada de preocupações. Entre elas, a dificuldade de acesso e o receio de um mar mais perigoso após o aterramento de 80 metros.

O POVO percorreu na manhã desta sexta-feira, 13, toda a extensão da praia, desde a Ponte dos Ingleses, na Praia de Iracema, até o Mercado dos Peixes, no Mucuripe. A reportagem conversou com consumidores e comerciantes para entender como está sendo o momento de lazer e o trabalho em meio a máquinas em pleno funcionamento e uma grande quantidade de poeira, recorrente em alguns trechos.

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A maranhense Raimunda Vale, 49, disse que teve uma decepção grande quando chegou à Capital. Ela afirma que não compreende porque uma intervenção como essa está sendo feita nesse período do ano, em que o fluxo de turistas é significativamente maior. "O que falta é ter um pouco mais de cuidado com a praia, o Brasil é visto como uma coisa espetacular em outros países. Você chega e não acredita que isso realmente está acontecendo", lamentou a mulher, que vive na Espanha há 20 anos.

Presente na Praia de Iracema há oito anos vendendo óculos de sol, José Fábio Lima, 44, afirmou nunca ter enfrentado uma diminuição nas vendas tão significativa como a que acontece neste ano. A busca constante do homem é ver onde as pessoas estão frequentando a região, que acaba mudando com o decorrer da obra, de acordo com o comerciante.

”Aos poucos as pessoas estão buscando outros lugares. Há uma grande mudança para a Praia do Futuro, assim como para praias de municípios vizinhos. Nesta época do ano eu vendia uns cinco óculos por dia, hoje a média é apenas um”, reclama José.

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O trecho mais crítico do volume de obras, entre as rua José Vilar e a avenida Desembargador Moreira, tem impossibilitado o trabalho de alguns comerciantes. Adriano Evangelista, 27, tem um ponto de venda de coco próximo ao espigão da rua João Cordeiro e ressalta que a disputa pelos clientes entre os comerciantes tem aumentado. “Além da demanda estar bem abaixo do normal, ainda tem mais gente para vender”, disse. De acordo com Adriano, seu negócio teve redução de 90% do lucro após o início das obras.

Além disso, o número de demissões tem se tornado rotina após o início das intervenções, segundo funcionário de uma barraca, que não quis se identificar. Ele disse que no local em que trabalha o número de empregados caiu 70%, reduzindo de 20 para seis funcionários efetivos. Ele ponderou que, ainda assim, houve um aumento de contratações para empregos temporários neste fim de ano, mas com número bem inferior em relação a anos anteriores.

Segundo a Secretaria Regional II, responsável pela área da Beira Mar, a Prefeitura tem trabalhado para manter o bom relacionamento com os feirantes e comerciantes e do local. Por meio de nota, a Pasta afirma que a obra não trouxe prejuízos para os vendedores e diz que ela trará impacto positivo para o comércio da região, "aumentando a competitividade da economia local proporcionando o fortalecimento e a geração de emprego e renda da cidade".

A pasta informa ainda que, com a obra, comerciantes da Feirinha da Beira Mar receberam novos Termos de Permissão de Uso para a regulamentação devida das atividades profissionais lá realizadas.

As barracas de praia enfrentam uma situação ainda mais delicada em relação à outros negócios. Com o decorrer das obras, a estrutura atual deve ser demolida e os comércios passarão a funcionar provisoriamente em um contêiner, alugado de uma empresa privada pelo poder público. Márcio Magalhães é proprietário de um barraca na praia há 16 anos e ainda não tem muita certeza de como a situação vai ficar. A esperança do homem é que em janeiro, mês mais aguardado do ano pelos comerciantes, a barraca ainda esteja funcionando na estrutura atual.

O perigo do mar e a questão ambiental

A reclamação de que o mar está mais perigoso após o aterramento também foi recorrente entre as pessoas ouvidas pelo O POVO. A preocupação, ainda que esteja vinculada à atividade econômica na região, envolve o aspecto da preservação ambiental.

A dona de casa Fabíula de Oliveira, 39, admitiu ter ficado animada com a obra inicialmente, devido à uma maior fluidez no trânsito, mas ficou decepcionada após saber que isso afetaria a natureza. “A gente já tem nosso espaço, para que mexer ainda mais na estrutura da natureza? Por mais que exista um estudo e uma preparação, o homem está invadindo cada vez mais o lugar que não lhe cabe”, argumenta.

A Prefeitura de Fortaleza afirma que a intervenção está amparada em estudos em parceira com a Universidade Federal do Ceará (UFC), o Instituto de Ciências do Mar (Labomar), com a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e com o Instituto Aquarius. “A obra atende a todos os princípios legais. Desde a escolha do projeto, todos os estudos, toda a questão do licenciamento ambiental, tudo aquilo que era necessário, submetemos ao Ministério Público Federal, que deu entendimento de que a obra poderia acontecer sem impedimentos”, diz nota da Regional II.

Em entrevista à Rádio O POVO CBN em outubro deste ano, o secretário da Regional II, Ferrúcio Feitosa, reforçou a importância da obra para a reurbanização da área e os estudos que foram realizados antes do início das intervenções - acompanhados pelo Ministério Público Federal (MPF).

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As obras, que começaram em agosto de 2018, devem se estender até o mesmo mês de 2020. As intervenções já motivaram um protesto, quando cerca de 20 ativistas ambientais ocuparam o local no início do mês de outubro deste ano. Para além da paralisação das obras, eles solicitaram “estudos conscientes” sobre o impacto ambiental causado pela obra.

Turismo

Conforme a Regional II informou ao O POVO, cerca de 650 mil turistas devem passar por Fortaleza nesta alta estação entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020.

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