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Fortaleza
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Inspetora afirma que criminoso sabia de interceptação telefônica e citou nome para afastá-la do combate ao tráfico no Bom Jardim

"Não existe áudio em conversa com esse bandido, o que existe é uma vitória como policial que combateu forte o tráfico de drogas naquele local", diz policial

10:03 | 13/11/2019

A inspetora da Polícia Civil, Vitória Régia Holanda da Silva, divulgou um vídeo sobre a abertura do processo administrativo na Controladoria Geral de Disciplina (CGD), que a investiga como suspeita de receber pagamento de facções criminosas. Vitória afirma que o criminoso Francisco Márcio Teixeira Perdigão sabia que estava em uma interceptação telefônica e citou o nome da inspetora, que era chefe de investigação da delegacia responsável pelo Bom Jardim, para prejudicar os trabalhos da Polícia Civil em relação ao tráfico de drogas.

Vitória afirma que os áudios da interceptação em que Perdigão conversa com outro criminoso são de 2015 e contextualiza a situação. Na época, a inspetora era chefe de investigação e, neste período, foram realizadas diversas prisões relacionadas ao tráfico. Baseada em relatórios, ela afirma que mapeou o local por comunidades e seguiu fazendo trabalho de investigação. Entre 2013 e 2015, Vitória afirma que prendeu chefes do tráfico da comunidade do Urubu, chefes do tráfico da comunidade do Alto da Paz, e inclusive o chefe do tráfico da favela da Luminosa, a qual pertence Perdigão, responsável por mencioná-la na interceptação telefônica, que também foi preso.

Vitória ainda afirma que as prisões dos chefes do tráfico das comunidades do Miguel Arraes e Leonel Brizola também foram presos. Ela ainda  faz alusão ao comentário do preso de que ela não faria prisões mediante pagamento de facções citando as inúmeras prisões que fez.

"Existia um trabalho com muito afinco e com rigor em relação ao combate ao tráfico de drogas", relata. Em 2015, a inspetora relata que foi o período de entrada das facções no Ceará e que, anteriormente, o Bom Jardim possuía guetos e bairros que eram inimigos um do outro, mas que com a chegadas das facções o trabalho da Polícia Civil, especificamente do 32º DP, que cuidava da área do Bom Jardim, seguia incomodando os criminosos. E que esse incômodo fez com que o líder da facção citasse Vitória como responsável por receber dinheiro da organização. A inspetora relata que há informação, dentro de outro processo, de que o criminoso sabia que era interceptado.

"Eu tenho 13 anos de Polícia, tenho mais de 150 prisões realizadas e o respeito dos moradores do Conjunto Ceará, do Bom Jardim, Granja Portugal e Genibaú. Dentro do bairro Genibaú pedimos a prisão do maior traficante do Genibaú, pedimos prisão de traficantes e mais 11 pessoas envolvidas em duplo-homicídio, tenho prisões que são relevantes não apenas por vaidade policial, são prisões revelantes que tem uma família por trás que foi vítima, e tenho a gratidão dessas pessoas que até hoje me mandam mensagens dizendo do trabalho que a gente realizou", relata.

Vitória lembra ainda, diante da afirmativa do criminoso de que ela não realizaria prisões, das ações na favela do Urubu, onde realizou a prisão de um traficante que matou cinco pessoas em 15 dias. "Esse bandido pode falar o que quiser, não existe áudio em conversa com esse bandido, o que existe é uma vitória como policial que combateu o tráfico de drogas naquele local, a única que perde é a sociedade", afirma.

Vitória afirma que não foi ouvida e que o criminoso fez ameaças a ela e à família. "Falaram que iam cortar a minha cabeça. Não tenho mais a mesma vida", lamenta a policial civil. A inspetora ressalta que quer ser ouvida para se defender.

Caso Dandara

Vitória foi uma das responsáveis pela resolução do crime contra a travesti Dandara dos Santos. O crime teve repercussão internacional pela brutalidade como aconteceu. O caso foi filmado. Dandara foi espancada, apedrejada e atingida com dois tiros. Além de atuar no caso, a policial era amiga pessoal de Dandara. A inspetora escreveu um livro sobre Dandara.

Interceptação telefônica: CGD determina abertura de processo administrativo 

A portaria da Controladoria Geral de Disciplina (CGD) publicada nesta quinta-feira, 7, determina a abertura de um processo administrativo para apurar a conduta da inspetora da Polícia Civil, Vitória Régia Holanda da Silva, que teve o nome citado em conversas de integrantes de uma facção criminosa. Essas conversas foram interceptadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Ceará.

Conforme os autos, as conversas interceptadas de Francisco Márcio Teixeira Perdigão fizeram com que o Ministério Público afirmasse que o criminoso possuía uma rede de apoio formada por colaboradores e que teria participação de policiais. Nas conversas interceptadas entre 12 de maio e 17 de junho de 2016, aparecem afirmações sobre pagamentos em dinheiro a policiais para garantir o narcotráfico na região de atuação do 32º Distrito Policial.

Vitória é citada como uma das supostas beneficiadas e é chamada de delegada e as afirmações dos criminosos são de que a inspetora teria exigido R$ 5 mil para não prender em flagrante um traficante chamado Fabio da Silva, conhecido como Padiola, quando atuava no 12º Distrito Policial. A inspetora foi afastada das funções e foi realizado o cumprimento de mandado de busca e apreensão de celulares, tablets, notebooks e documentos físicos e digitais.