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NOTÍCIA

Pesquisa com pele de tilápia aparece em revista científica internacional

Técnica genuinamente cearense de reconstrução vaginal ajuda mulheres vítimas da síndrome de Rokitansky. O POVO Online conversou com professor responsável pelo estudo

22:19 | 05/07/2019
A equipe responsável pela cirurgia. O professor da UFC Leonardo Bezerra (terceiro da esquerda para direita) desenvolveu a técnica de aplicação da tilápia na reconstrução vaginal
A equipe responsável pela cirurgia. O professor da UFC Leonardo Bezerra (terceiro da esquerda para direita) desenvolveu a técnica de aplicação da tilápia na reconstrução vaginal(Foto: Divulgação)

Pesquisa envolvendo pele de tilápia para reconstrução vaginal aparece pela primeira vez em revista científica internacional. O artigo foi publicado online em abril na Fertility and Sterility. É a primeira referência de abrangência mundial do estudo genuinamente cearense.

Após o uso do material para curar queimados, pesquisa também desenvolvida no Ceará, no Centro de Tratamento de Queimados do Instituto Dr. José Frota (IJF), professores da Universidade Federal do Ceará (UFC) tiveram a ideia de testar o método no tratamento da síndrome de Rokitansky.

Conforme o professor e ginecologista Leonardo Bezerra, pesquisador responsável pelo estudo e um dos autores do artigo, a anomalia se caracteriza por uma ausência do canal vaginal nas vítimas. “(As mulheres que nascem com a síndrome) precisam fazer a reconstrução do canal. No passado, usávamos a pele da própria paciente, incorrendo em procedimento cirúrgico de alta morbidade e com grandes cicatrizes”, explicou.

No entanto, a pesquisa trouxe nova perspectiva para as mulheres acometidas pela anomalia. “Com o uso da pele de tilápia conseguimos fazer um procedimento mais rápido, mais simples, menos invasivo, com resultados excelentes, com menor tempo de internação e com menos complicações”, disse o professor.

Procedimentos cirúrgicos usando o método são realizados desde 2017 na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), da UFC. Até agora, dez mulheres foram operadas. “Já temos pacientes a mais de um ano de seguimento, que inclusive estão com atividade sexual ativa”, disse. As mulheres serão acompanhadas pelas MEAC pelo resto da vida, seguindo o protocolo de pesquisa clínica, segundo o professor.

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Confira entrevista com o professor Leonardo Bezerra:

Professor Leonardo, responsável pelo estudo
Professor Leonardo, responsável pelo estudo (Foto: Divulgação)

Qual o conteúdo do artigo publicado pela revista Fertility and Sterility?

O artigo publicado recentemente na revista Fertility and Sterility consiste na publicação inédita no mundo da técnica da reconstrução vaginal, chamada neovagina, com pele de tilápia. Constitui na primeira referência mundial para uso desta prótese biológica, ou seja, da pele de tilápia, na reconstrução de vagina em meninas acometidas dessa síndrome rara, chamada de síndrome de Rokitansky, que faz com que elas nasçam sem o canal vaginal. A publicação constitui a primeira vez na literatura mundial em que existe o registro de reconstrução vaginal através de um procedimento minimamente invasivo usando pele de tilápia para refazer o canal vaginal.

Desde quando a pesquisa é realizada?

O procedimento cirúrgico vem sendo realizado desde 2017 na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand. Já temos mais de dez meninas operadas com síndrome de Rokitansky, que nasceram com agenesia do canal vaginal e que precisam fazer a reconstrução dessa canal. No passado, usávamos a pele da própria paciente, deste modo, incorrendo em procedimento cirúrgico de alta morbidade e com grandes cicatrizes. Com o uso da pele de tilápia para reconstruir o canal vaginal em substituição da pele da própria paciente, conseguimos fazer um procedimento mais rápido, mais simples, menos invasivo, com resultados excelentes, com menor tempo de internação e com menos complicações, evitando desse modo que a paciente se submeta a grandes procedimentos cirúrgicos. A MEAC é pioneira em todo o mundo na realização desse procedimento através da coordenação da professora Zenilda Vieira Bruno, que é chefe do Setor de Adolescente e professora titular da Universidade Federal do Ceará (UFC). Também estamos realizando cirurgia para procedimento de queimados na UFC, já é de conhecimento popular o uso de pele de tilápia para queimados por pioneirismo do dr. Edmar Maciel, do Instituto Dr. José Frota (IJF). Por conta dessa ideia genial de refazer a pele (humana) com a pele de tilápia que tivemos a ideia de transpor esse experimento para uso em neovagina, substituindo a pele da própria paciente.

Quando ocorreu a publicação na revista?

A publicação ocorreu em abril de 2019. A revista é a de maior impacto na área de fertilidade e ginecologia do mundo. Ela tem acesso vários cientistas, pesquisadores, ginecologistas, cirurgiões, biólogos e embriologistas que trabalham com fertilidade, reprodução humana e ginecologia. Por conta dessa publicação recente, temos contato em fóruns de discussões da revista com esses cientistas do mundo inteiro que fazem questionamentos sobre essa nova técnica. A publicação ainda está online somente porque antes de ser publicada na revista impressa é divulgada no site da revista para só depois ser impressa, mas já é uma divulgação extremamente expressiva. Já estamos em contato com pessoas do mundo interior fazendo questionamentos, perguntas e indagações sobre a nova técnica e discutindo a possibilidade de difundir o procedimento com uso de pele de tilápia para reconstrução vaginal no mundo inteiro.

A pesquisa foi desenvolvida no Ceará?

A pesquisa é genuinamente cearense, feita na UFC, no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), coordenado pelo professor Odorico de Morais. Começamos o trabalho sob inspiração das pesquisas do dr. Edmar Maciel com uso de pele de tilápia para queimados. Todo procedimento, beneficiamento e esterilização da pele de tilápia é feita na UFC. Nós elaboramos a técnica de reconstrução vaginal na MEAC, com as pacientes com síndrome de Rokitansky que procuram nosso serviço a muitos anos já. Essa técnica é originalmente toda nossa, toda cearense, e é uma publicação de um impacto muito grande porque o mundo inteiro vai usar essa nossa publicação como referência para doravante usar a pele de tilápia como alternativa menos invasiva para o tratamento da síndrome.

Como o senhor participou da pesquisa?

Sou o pesquisador principal, professor da UFC, sou ginecologista, cirurgião ginecológico e professor da UFC. A ideia de usar a pele de tilápia inicialmente foi minha, discutindo com o professor Odorico de Moraes, montamos um modelo, obviamente sob auspícios da MEAC e da professora Zenilda Vieira Bruno, conseguimos idealizar, fazer o projeto, projetar a prótese, pensar na cirurgia e elaborar a técnica experimentalmente em dez pacientes. Obviamente, todo o procedimento cirúrgico está sob protocolo de pesquisa, do qual sou pesquisador responsável, e as pacientes estão em seguimento, mas já temos pacientes em mais de um ano de seguimento, que inclusive estão com atividade sexual ativa. Essas pacientes fazem parte do nosso acompanhamento da MEAC e, obviamente, vão ser seguidas pelo resto da vida dentro do nosso protocolo de pesquisa clínica.

Confira o artigo na íntegra

O Povo