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Fortaleza
NOTÍCIA

Maior youtuber mirim do Brasil, cearense de 7 anos tem mais de 14 milhões de inscritos

Na primeira entrevista para a imprensa, os pais da menina falam sobre a fama, as mudanças na vida da família e os cuidados que procuram ter para garantir a proteção da filha

08:50 | 03/07/2019
Valentina Pontes, a maior youtuber mirim do Brasil
Valentina Pontes, a maior youtuber mirim do Brasil(Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo)

Mais de 14,5 milhões de pessoas foram cativadas pelas brincadeiras compartilhadas em vídeos no Youtube de uma menina de 7 anos acompanhada da mãe, do pai e do irmão de 12 anos. Valentina Pontes, cearense e moradora de um bairro da periferia de Fortaleza, se tornou a maior youtuber mirim do Brasil no ano passado. Ao todo, a audiência do canal da garota, que chega a 3 bilhões de visualizações, é maior do que a de Whindersson Nunes, um dos mais famosos youtubers do País. O POVO Online visitou a casa da família de Valentina para entender os frutos do sucesso e como a rotina mudou após a carreira na internet deslanchar.

A casa da família ainda é localizada no mesmo bairro em que os pais de Valentina, Erlania Pontes e Marcos Barroso, cresceram. Os dois começaram namorar há 22 anos, ainda na adolescência. Antes de começar a postar vídeos, Erlania trabalhava como balconista em uma padaria e Marcos fazia restauração de fotos antigas. Percebendo o interesse da filha em conteúdos infantis da plataforma, o casal resolveu iniciar um canal de novelas encenadas por bonecos.

 

No início, em 2014, apenas os adultos participavam. Tendo gasto os últimos R$ 500 do limite do cartão de crédito daquele mês para comprar os brinquedos, os vídeos eram gravados no celular. “Mesmo quando a gente não tinha nada, a gente sempre foi feliz e levava a vida brincando. Tivemos fé que um dia ia dar certo. E se não desse, se tinha saúde tava tudo bem”, conta Erlania.

Com as novelinhas, logo os dois conseguiram 200 mil inscritos no canal. Nessa época, eles não sabiam como de fato o Youtube funcionava e como a renda da família poderia vir daquela ferramenta. “Nem todo mundo que faz canal tem sucesso. A gente cresceu sem ninguém divulgar a gente, só com a ajuda de Deus”, diz Erlania. O costume de gravar vídeos se estendeu para capturar as brincadeiras que os filhos faziam pela casa, sempre envolvendo também os pais. Foi quando perceberam que Valentina ficava menos tímida na frente da câmera e gostava de aparecer. A partir do momento em que o primeiro vídeo com a menina foi ao ar, a aceitação do público, como diz Marcos, foi gratuita.

“Em menos de 2 meses, batemos 1 milhão de inscritos. Criança é muito sabida. Se eles [Valentina e Victor Gabriel, seu irmão] conseguem se divertir na expressão deles, a gente vai ganhar as outras crianças”, afirma Marcos. O canal só cresce desde então. A família inteira participa fazendo brincadeiras, esquetes e desafios famosos no Youtube. O vídeo mais visto, que bateu a marca de 400 milhões de visualizações neste mês, mostra Valentina e a mãe fingindo que o chão está coberto de lava vulcânica. De acordo com Marcos, o canal agora recebe de 5 a 7 milhões de views por dia, sendo um dos três que mais cresce no Brasil.

Aos poucos, os sonhos que a família tinha foram se realizando. Erlania lembra que o primeiro dinheiro advindo do canal foi todo gasto na cirurgia de reparação de um problema no olho de Valentina, que nasceu com uma ptose palpebral. Ter um carro e uma casa própria, como para a maioria dos brasileiros, também foi um desejo antigo que pôde ser alcançado. A família que antes dividia um único cômodo passou a ter uma casa completa, com direito a piscina e um quarto digno de princesa da Disney para a filha. O cenário dos vídeos é a residência, o que, para eles, deixa tudo mais natural. Mesmo com a fama, os vídeos continuam sendo gravados por Marcos e as ideias de roteiro também partem do casal. Eles não possuem assessores ou procuram a mídia, sendo esta a primeira entrevista da família dada à imprensa.

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CUIDADOS COM A EXPOSIÇÃO E COM O PÚBLICO

As preocupações de Erlania e Marcos agora envolvem lidar com a exposição de seus filhos. Por precaução, Valentina só grava vídeos de legging e meias cobrindo os pés. A escolha tem a ver com as mensagens predatórias deixadas na caixa de comentários. O youtuber Felipe Neto chegou a denunciar uma rede de pedófilos que buscava conteúdo infantil na plataforma. Recentemente, o Youtube desativou os comentários de diversos canais feitos por crianças como uma forma de evitar a prática. Marcos vê como positiva a medida e acha que mostra uma preocupação da empresa com as crianças, ainda que afete o engajamento dos vídeos e a interação com os fãs.

Criar conteúdos ainda é um desafio diário que envolve cuidado com as temáticas e mensagens transmitidas para milhões de crianças. Marcos conta que seguir tendências, por mais que gere muitas visualizações, nem sempre é o caminho escolhido por eles. Em um episódio recente, os vídeos que ensinavam “como irritar a família por um dia” estavam fazendo sucesso na plataforma. “Por que eu vou ensinar isso? Com o conteúdo, queira ou não, a gente tá ensinando alguma coisa”, diz Erlania. A decisão foi por reverter a lógica e publicar dicas de como agradar as mães. O vídeo teve mais de 1,2 milhão de espectadores.

Outra coisa que notaram é como os vídeos acabam incentivando crianças a comer doces de forma exacerbada. Para driblar isso, Marcos criou o personagem fixo Capitão Abestado, que tem como superpoder ficar mais forte toda vez que come frutas. Além disso, os vídeos buscam ensinar cores, números e palavras básicas em inglês. Isso rendeu à família um contrato com a mesma editora que fez o livro-revista de Felipe Neto para criar um material que ensine a língua inglesa para crianças. O livro será lançado no dia 10 de agosto em Fortaleza, com sessão de autógrafos no shopping RioMar. Depois, os quatro seguirão para turnê passando pela Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

ORGULHO DE SER DO NORDESTE

O crescimento do canal a partir do final de 2018 chamou atenção de marcas de todo o Brasil. No entanto, o tratamento não foi o mesmo no início. Mesmo já tendo mais inscritos do que a maioria dos canais infantis nacionais, quando descobriam de onde a família de Valentina vinha, as propostas eram desconversadas ou esquecidas. “Muitas empresas chegavam para a gente e queriam trabalhar com a Valentina. Perguntavam ‘vocês são de onde?’; quando a gente respondia, eles não diziam mais nada”, relembra Erlania. Isso não abalou o casal, que após o sucesso não tem planos de se mudar de Fortaleza.

Marcos se mostra orgulhoso de suas raízes e afirma que agora já existem marcas voltando atrás e os procurando novamente. “De vez em quando, no nosso canal, sai um “arriégua” um “que diabo é isso?”, é normal. É o jeito que a gente fala mesmo”, comenta. O canal agora tem parcerias com Mattel, Candide e Estrela, as principais marcas de brinquedos do mercado, porém não é sempre que decidem fazer vídeos patrocinados. “Se a gente quisesse, tinham muitos, mas é muito complicado ficar exagerando. É muito nocivo passar essa ideia de comprar, comprar, comprar”.

Valentina Pontes tem 7 anos e milhões de seguidores
Valentina Pontes tem 7 anos e milhões de seguidores (Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo)

Internet na infância. O que conversar com crianças que querem ser youtubers?

Por consumir o conteúdo de youtubers mirins, cada vez mais crianças têm o desejo de fazer vídeos para a plataforma. Essa vontade, para especialistas, deve ser olhada com cuidado pelos pais. A motivação das crianças pode ser desde se comunicar, expressar sentimentos e criatividade, até ter por trás peso de competição e necessidade de ser popular. Considerar os possíveis benefícios e malefícios que a exposição nas redes pode trazer se torna fundamental.

“Nessa perspectiva de riscos, a gente tem que refletir também sobre a lógica comercial, que muitas vezes está por trás de canais infantis no Youtube. Isso deve ser discutido e problematizado para que o direito da criança à proteção seja preservado e ao mesmo tempo seja legitimado a sua capacidade de expressão e direito à participação em produções midiáticas”, afirma a doutora em comunicação Pâmela Saunders Uchôa. Ela estuda os discursos de caráter publicitário nos conteúdos produzidos por e para crianças na plataforma.

Pâmela explica que os meios de comunicação são importantes ferramentas para a socialização de crianças, no entanto deve ser sempre respeitado o fato de que elas são sujeitos em formação. Os benefícios de fazer vídeos devem ser levados em conta, como fortalecer a autoestima e a compreensão do mundo em que vivem, mas a competição que faz parte do funcionamento da ferramenta também são aspectos que merecem atenção.

Para a psicopedagoga Carolina Campos Negreiros, é preciso que a criança desenvolva maneiras de lidar com a frustração de talvez não ter um canal de sucesso, com a concorrência e com os comentários negativos. “Os pais têm de se perguntar se seus filhos estão preparados para lidar com isso. Que tipo de cobrança essa criança vai fazer para si? As expectativas podem muitas vezes não ser alcançadas”, explica.

Valentina Pontes com seus pais e seu irmão: cuidado da família
Valentina Pontes com seus pais e seu irmão: cuidado da família (Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo)

VALENTINA E A FAMA

Erlania Pontes e Marcos Barroso, pais de Valentina Pontes, a maior youtuber mirim do Brasil, explicam que as conversas sobre o que representa sua fama são constantes. A garota de 7 anos é reconhecida na rua, no shopping e até seus colegas de classe da nova escola precisaram de um tempo para entender que a youtuber é uma criança normal, segundo os pais. “Eu estou trabalhando isso na mente dela. Digo que ela é a maior agora, mas vão vir outras ‘Valentinas’. É a maior, mas não vai ser para sempre”, diz Marcos. A menina não tem acesso às redes sociais, quem administra tudo é sua mãe. Erlania afirma também que os filhos em nenhum momento ganham tratamento especial. “O não é importante. A gente foi ensinado assim e a gente passa pra eles”.

Alexia Vieira