Principal fruta exportada pelo Ceará não deve sofrer com decisão da França
Agrícola Famosa, maior exportadora de melão do Brasil e com cultivo em terras cearenses, diz que mercado francês não é alvo da produção de frutas cearense
A decisão da França de suspender a importação de produtos alimentícios da América do Sul que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na Europa não deve afetar a exportação do melão, segundo afirmou Luiz Roberto Barcelos, cofundador da Agrícola Famosa.
O melão é a principal fruta enviada pelo Ceará ao exterior e a Famosa a maior exportadora do produto no Brasil. De janeiro a novembro de 2025, o cultivo dele somou US$ 73,78 milhões em exportações - montante 45,9% superior aos US$ 50,57 milhões exportados em igual período de 2024.
"A França praticamente não compra nada da gente. Então, na Famosa, isso não vai gerar nenhum tipo de impacto para nós", disse ao O POVO. Localizada no município de Icapuí, na divisa com o Rio Grande do Norte, a produção da empresa é enviada via Porto de Fortaleza para o exterior.
Barcelos ainda afirmou que os produtores cearenses de um modo geral não terão os negócios impactados pela decisão da França porque, na lista de frutas citadas pelo país europeu, nenhuma é produzida no Estado.
Questões de logística e de equidade
Diretor da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Barcelos ele acrescenta que os franceses não consomem grandes quantidades de frutas brasileiras e põe a medida francesa em xeque ao dizer que o controle de entrada das frutas brasileiras seria feito pelos próprios franceses apenas nas cargas enviadas por avião.
“Boa parte da fruta que a gente manda para a Europa, que vai via marítima, não vai direto para a França. Passa principalmente pelo Porto de Roterdã e portos espanhóis. Uma vez internados na comunidade europeia, circula livremente lá dentro e não tem como banir ou restringir a entrada de produtos brasileiros após ter entrado em portos que não sejam os deles”, afirma, acrescentando que não entram frutas do Brasil em portos franceses.
Outra questão apontada pelo diretor da Abrafrutas é de que os produtores franceses reclamam por equidade no uso dos agrotóxicos, uma vez que eles não podem usar alguns tipos de produtos utilizados pelos brasileiros.
“A Europa vem usando o princípio da precaução. Então, se a substância pode fazer mal para a abelha, ele é banido. No Brasil, pode usar porque não faz mal à saúde humana e o clima e as abelhas são diferentes também. Então, existe essa diferença do que eles podem usar e nós não. E não faz mal para a saúde humana. Se fizesse, nós também não podíamos usar”, explicou.
O que a França decidiu?
A França anunciou, no último domingo, 4, que suspenderá a importação de produtos alimentícios procedentes da América do Sul que contenham resíduos de substâncias proibidas na Europa e citou a produção de frutas dos países sul-americanos e os agrotóxicos proibidos lá.
"Nos próximos dias será assinado um decreto, a iniciativa da ministra da Agricultura, Annie Genevard, para suspender a importação de produtos que contenham resíduos de substâncias proibidas na Europa: mancozeb, glufosinato, tiofanato-metilo e carbendazim", anunciou o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, no X.
Ele destacou que "abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs da América do Sul ou de outros lugares não serão mais permitidos no território nacional" francês.
O governo do presidente Emmanuel Macron está sob pressão para impedir a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, integrado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
A assinatura do tratado está prevista para 12 de janeiro e os agricultores franceses temem o impacto de uma chegada em massa de carne, arroz, mel ou soja sul-americanos à Europa, vistos como mais competitivos por suas normas de produção, em troca da exportação de veículos e máquinas europeias para o Mercosul.
Autoridades esperam relatório técnico
Contatado pela reportagem, o Ministério da Agricultura indicou que o decreto será publicado na terça-feira (6). Silvio Carlos Ribeiro, secretário executivo do Agronegócio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará, afirmou ao O POVO que está em contato com a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) para uma atuação coordenada.
A ideia, contou, é de esperar a publicação das autoridades francesas para tomar qualquer decisão ou posicionamento a respeito do assunto.
No entanto, a França deverá obter o aval da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia, em um prazo de 10 dias, algo que a ministra espera conseguir na quarta-feira (7) durante sua visita a Bruxelas, segundo a mesma fonte.
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Lecornu enumerou os produtos que já não poderão entrar nem serem comercializados na França, entre eles abacates, mangas, goiabas, cítricos, uvas e maças "da América do Sul ou de outros lugares".
"Uma brigada especializada realizará fiscalizações mais rigorosas para garantir o cumprimento de nossas normas sanitárias", prosseguiu o primeiro-ministro, referindo-se a "uma primeira etapa para proteger nossos setores e nossos consumidores e lutar contra a concorrência desleal, um verdadeiro desafio de justiça e equidade para nossos agricultores".
Com AFP
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