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Economia
Opiniao

A economia da retomada e da recuperação em tempos de Covid-19

Em artigo enviado ao O POVO, o economista e presidente da Apimec Nordeste, Célio Fernando, fala sobre as diferentes crise e restrições à retomada das atividades e recuperação econômica do Brasil

11:07 | 27/04/2020
Célio Fernando é economista e presidente da Apimec Nordeste
Célio Fernando é economista e presidente da Apimec Nordeste (Foto: Divulgação)

A expectativa subjacente ao regime democrático representativo pressupõe que as ações do Estado sejam oriundas da vontade do povo. Como consequência, a política deveria definir e gerir as relações entre os poderes em prol da sociedade. No entanto, a partir de um olhar histórico, percebe-se que grupos de interesse, em seu mais baixo nível de moralidade e ética, utilizam como meio o fisiologismo político-partidário a partir da oferta indiscriminada de cargos e outras vantagens, muitas vezes a margem da lei, que favorece a poucos em detrimento de toda a sociedade.

A deformação causada pelos grupos de interesse transforma o Estado aglutinador e executor da vontade pública em um Leviatã Hobbesiano a serviço da busca pela riqueza ou o poder, governado pela insaciabilidade do homem.

O cenário atual está conflagrado por uma crise sanitária de escala global com repercussões gravíssimas na economia. Entretanto, no Brasil governado por grupos de interesse, disputas ideológicas e oligarquias, tem-se instalada uma crise política de graves repercussões que já causou a demissão de dois ministros do primeiro escalão, o ministro da Saúde e o ministro da Justiça e Segurança Pública. Nesse momento, os detentores do poder político deveriam estar preocupados em como dar partida num processo de retomada da economia e da vida em sociedade.

Respeito aos protocolos sanitários

Saliente-se que a retomada é necessária, e deve respeitar os melhores protocolos sanitários. O poder público precisa se reorganizar em torno de um alinhamento com o setor privado. Um processo de redefinição de prioridades é necessário. As reformas estruturais: administrativa e tributária devem ter maior celeridade. No entanto, é preciso evitar que estas obtenham tratamento semelhante ao dispensado ao Plano Mansueto, que se propunha a oferecer uma nova ordem para estados e municípios e foi completamente desfigurado e desvirtuado pelo Congresso.

Na esteira dos contrapontos, de forma tático-estratégica, os militares, seguindo a batuta do interventor do Rio, agora ministro da Casa Civil, que lidera o Plano Pró-Brasil. Um plano de recuperação da economia com características intervencionistas e com investimento público, de inspiração keynesiana, tem um orçamento estimado entre R$ 280 a R$ 300 bilhões, em que R$ 250 bilhões adviriam de concessões e entre R$ 30 a R$ 50 bilhões do tesouro e, aparentemente, sem aval da área econômica. Recuperação prevista para uma década. Algo distinto do que defino como retomada, onde ter-se-ia um plano de conciliação sanitária a atividade econômica, base essencial para reiniciar a economia.

A retomada deve ser cirúrgica. Já é possível aprender com os erros e acertos a partir de alguns estados que saíram na frente na execução de seus planos. Entretanto, a recuperação necessita de mais tempo, ocorre em longo prazo e expõe muitas feridas de um sistema deformado, cheio de vícios e indisciplinado nas bases técnicas, científicas, e em palavras de ordem e progresso.

Processo de readaptação das empresas

As empresas precisam de uma readaptação, que não é configurada unicamente pela variável mão-de-obra. Transformação digital, intensificação da inovação, maior flexibilidade na gestão de pessoas, palavras-chave há muito discutidas em fóruns de negócios agora tiveram sua implementação acelerada em virtude da Covid-19.

A possibilidade de pandemias e seus impactos figuram há muitos anos nos relatórios de Risco Global do Fórum Econômico Mundial e em estudos da OMS. Entretanto, talvez em virtude do grande nível de incerteza a respeito de seus impactos, assim como pela predominância de uma visão de curto prazo, tais alertas foram ignorados pelos estados e pelo mercado.

É preciso aprender com os próprios erros e para isso é necessário revisitar os conceitos clássicos com lentes menos opacas e pensamentos menos obtusos, urge considerar múltiplas-dimensões. O novo olhar deve ter um alcance ampliado, é preciso considerar mais direções. A visão deve ser idealizada com o máximo de horizonte possível. A criatividade e inovação passam a ser pilares fundamentais na adaptação à nova realidade.

Recuperação da saúde econômica

Por exemplo, um município é único com seu IDH, sistema de saúde disponível, vocação, cultura, sistema produtivo, infraestrutura sanitária existente, fontes de receitas, demografia, densidade e sua macrorregião de influência no comércio e serviços. Isso deve definir o escopo no plano de retomada e a capacidade de resiliência de uma localidade ou cidade.

Em metrópoles, as mesmas variáveis devem ser consideradas com cortes por bairros ou regiões, aumentando a complexidade das restrições de isolamentos, de contenções e da forma de abertura das atividades econômicas. A retomada bem feita abre uma maior probabilidade de sucesso para a recuperação da economia.

Podemos melhor visualizar por meio da seguinte analogia: fomos para a UTI, ocorreram os procedimentos, o paciente espera a transferência para a recuperação pós-UTI, passa por uma reabilitação, vai para casa, tem uma alimentação e exercícios de diversas ordens e depois pode retomar as atividades. Se as recomendações forem seguidas com disciplina, o paciente, que é a sociedade, volta com todas as forças para suas atividades.

A economia segue seu curso e a recuperação se torna possível ao longo do tempo. A saúde nos ensina como recuperar a saúde econômica. Precisamos higienizar, no sentido também metafórico para o quadro político-institucional. E, assim, não sofrermos o risco da reincidência. Devemos estar atentos aos efeitos colaterais de longo prazo em decisões pontuais, sob o manto perverso da praticidade. No curto prazo parece resolvido, no longo prazo os efeitos podem ser incontroláveis.

O contexto e o momento vividos para serem superados vão precisar de bússolas-planos, de retomada e de recuperação. A base dos Planos deve ser construída com muita criatividade e inovação, pensamento sistêmico e bem aprofundado, sem perder a agilidade e respeito às novas ideias.

Célio Fernando

Economista e presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) no Nordeste