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Pacientes com lúpus não são imunes ao novo coronavírus

Especialistas dizem que, apesar da hidroxicloroquina ser eficaz no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos dos pacientes de contrair ou não a Covid-19. O POVO faz parte do Comprova desde 2018 - a coalizão é formada por 28 veículos de imprensa e oito comunidades populares que fazem a checagem de conteúdos duvidosos postados na internet

16:30 | 10/12/2020
 Post na rede social Twitter insinua que pessoas com lúpus não
Post na rede social Twitter insinua que pessoas com lúpus não "desenvolvem" covid-19 (Foto: Reprodução)

É falso que pessoas com lúpus não contraem a Covid-19, como insinua uma publicação no Twitter. O post questiona por que os cientistas e a mídia não estão falando sobre isso, possivelmente relacionando ao fato de que o tratamento para lúpus envolve a hidroxicloroquina, medicamento que, mesmo sem comprovação científica de eficácia contra a Covid-19, ainda é utilizado e defendido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

O Comprova conversou com especialistas que disseram não ser correta a relação de lúpus com a Covid-19 e que, apesar da hidroxicloroquina ser eficaz no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos dos pacientes de contrair ou não o novo coronavírus.

Um estudo, coordenado por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia, e que está em processo de avaliação pelos pares, para ser publicado, aponta que os casos de Covid-19 entre pacientes reumáticos, que usam o medicamento, ocorreram na mesma frequência que em pessoas que não fazem uso da hidroxicloroquina.

O lúpus é uma doença autoimune rara que causa um desequilíbrio do sistema imunológico. A defesa imunológica se vira contra os tecidos do próprio organismo como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro.

A hidroxicloroquina, um dos principais medicamentos utilizados no tratamento da doença, chegou a ter sua eficácia contra os sintomas graves da Covid-19 estudada, mas as pesquisas realizadas em várias partes do mundo sugerem que a droga não tem efeito contra o novo coronavírus.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e diversas entidades médicas do Brasil não recomendam o uso para os pacientes com coronavírus, visto que não há resultados científicos que comprovem a funcionalidade do tratamento.

Como verificamos?

Tentamos contato com a autora da postagem no Twitter, @ValeriaBNews, para conferir as suas fontes a respeito da possível ligação entre os pacientes com lúpus e uma suposta “imunidade” ao novo coronavírus. O perfil não possibilita o envio de mensagens diretas, então enviamos as perguntas pelo perfil da mesma pessoa no Facebook e pelo contato de uma livraria da qual ela é proprietária.

Como não tivemos retorno até o fechamento dessa verificação, analisamos as respostas ao tuíte original e vimos que a suposta conexão entre as duas doenças seria o uso contínuo de hidroxicloroquina – medicamento usado há décadas no tratamento do lúpus.

Buscamos, então, informações de verificações anteriores do Comprova sobre a eficácia do fármaco no tratamento da Covid-19, bem como reportagens sobre o tema. Além disso, entrevistamos, por telefone, o reumatologista, professor da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que nos deu explicações sobre a doença.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a Covid-19 disponíveis no dia 9 de dezembro de 2020.

Verificação

No tuíte verificado, a usuária da rede social insinua que a mídia e os cientistas estariam ocultando a informação de que pacientes com lúpus não desenvolvem a Covid-19 ao contraírem o novo coronavírus. Essa relação não é verdadeira.

Lúpus

O lúpus, segundo o coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Edgard Reis, “é uma doença autoimune, em que o organismo começa a produzir anticorpos e substâncias inflamatórias que vão atacar órgãos e tecidos do próprio corpo”. Geralmente, os “alvos” desses ataques são as articulações, algumas estruturas do sangue, do sistema nervoso central e dos rins, e eles podem ser desencadeados por diversos fatores, como infecções ou desequilíbrios hormonais.

Como a hidroxicloroquina é usada em pacientes com lúpus?

De acordo com o reumatologista Edgard Reis, a hidroxicloroquina é um medicamento utilizado há mais de 50 anos no tratamento de pacientes com lúpus para auxiliar no controle da doença e no controle do sistema imune do paciente.

“Ela atua como um imunomodulador, ela vai ajudar a equilibrar o sistema imune do paciente. A hidroxicloroquina atua em estruturas da célula, que vão alterar o ph da célula e interferir em mecanismos inflamatórios da doença também”, explica o médico. O medicamento bloqueia os receptores de algumas células e diminui a resposta inflamatória.

Que benefícios a hidroxicloroquina traz a esses pacientes?

Há muita segurança dos especialistas em relação aos benefícios que a hidroxicloroquina confere aos pacientes com lúpus. De acordo com Edgard Reis, a medicação diminui a chance de a doença entrar em atividade e a frequência dos sintomas, além de melhorar lesões de pele e sistemas articulares. Também minimiza a evolução de sequelas da doença e o risco de morte do paciente.

“Ou seja, aquele paciente com lúpus que usa a hidroxicloroquina vive por mais tempo do que aquele que não usa”, afirma Reis. A hidroxicloroquina também melhora o perfil de colesterol, propicia uma melhora na glicemia, diminui o risco de trombose e melhora a ação de outros medicamentos. “Ela age com sinergismo com outras medicações. A hidroxicloroquina, junto com outras medicações, ajuda a controlar melhor a doença também. Então, é uma droga muito importante, é uma medicação âncora, uma medicação base no tratamento da doença, a menos que o paciente tenha contraindicações para o seu uso”, completa.

De acordo com o professor da Unifesp, essas contraindicações são poucas e não são absolutas, e estão mais ligadas a problemas cardíacos e oculares bastante específicos. Segundo ele, porém, é preciso fazer acompanhamento com um reumatologista, e realizar avaliações periódicas sobre o uso de qualquer medicamento ligado ao tratamento do lúpus.

Pacientes com lúpus têm menos chance de contrair a Covid-19?

Não. Apesar de todos os benefícios da hidroxicloroquina no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos de que esses pacientes contraiam ou não a Covid-19. Os próprios especialistas na área de reumatologia tiveram a curiosidade, no início da pandemia, de saber se a hidroxicloroquina protegeria, de alguma forma, os pacientes que usavam a medicação.

“Lá no começo da Covid-19, a gente tinha essa curiosidade também: será que aqueles pacientes com lúpus, que já usam a hidroxicloroquina, teriam menos risco de contrair a Covid-19? E, contraindo, será que eles teriam uma doença menos grave? Os estudos mostraram que não. Eles têm a mesma chance de contrair a Covid-19 e eles não têm uma doença menos grave pelo uso da hidroxicloroquina. Então, isso está bem claro pra gente na literatura”, afirma Edgard Reis.

O estudo que apontou estes resultados chama-se Mario Pinotti 2 e foi elaborado por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) com mais de 10 mil brasileiros com doenças reumáticas autoimunes – como lúpus, artrite reumatoide e Síndrome de Sjögren – e seus contactantes. O estudo foi feito em nove estados brasileiros e no Distrito Federal, incluindo 97 cidades e com a participação de quase 400 alunos estudantes de medicina voluntários.

Das 10 mil pessoas avaliadas, 5.166 eram pacientes com doenças reumáticas em uso de hidroxicloroquina há mais de 5 anos e 4.423 contactantes domiciliares, ou seja, pessoas que não usam o medicamento, e moram junto com os pacientes reumáticos. Dos participantes, 169 pacientes reumáticos tiveram Covid-19, o equivalente a 4,03% do universo pesquisado. Já entre os contactantes, que serviram de comparação, a proporção de infectados foi de 3,25%, o que representou 124 pessoas.

Os resultados apontam, portanto, que o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina não protegeu e nem evitou formas graves da Covid-19 entre aqueles que usavam a medicação. Os dados sobre a pesquisa foram passados ao Comprova pelo coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que nos explicou que ela ainda não foi publicada, e está em processo de revisão pelos pares.

“A gente conhece ao longo desses anos muito do perfil de segurança da hidroxicloroquina para o lúpus, que é muitas vezes conflitante ou que não é semelhante àquele perfil de segurança dos pacientes de Covid-19, onde a hidroxicloroquina foi testada e não se mostrou eficaz”, afirma Reis.

O que o especialista afirma é que os cenários são diferentes para o uso do medicamento e que até mesmo a dose testada para a Covid-19 é diferente daquela utilizada em pacientes com doenças reumáticas.

“A Covid-19 tem um status inflamatório agudo, que é único da própria doença, que é singular, ou seja, é diferente do status inflamatório crônico que a gente tem em algumas doenças autoimunes. E, muitas vezes, na Covid-19 você tem um uso concomitante com várias outras medicações que podem levar a uma interação medicamentosa que pode propiciar o aparecimento de eventos adversos. A gente sabe dos benefícios da hidroxicloroquina no lúpus, mas sabe que ela não é protetora para Covid-19”, finaliza.

Em uma publicação oficial na internet, assinada por Edgar Reis, a Sociedade Brasileira de Reumatologia orienta os pacientes com doenças reumáticas sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina e alerta que o quadro da Covid-19 é bastante diferente.

O uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 vem sendo apontado como ineficaz há alguns meses. A Opas, braço da Organização Mundial da Saúde na América, não recomenda o uso do medicamento para os pacientes com o novo coronavírus, diante da ausência de resultados científicos que comprovem a eficácia e segurança do tratamento. O Comprova também já demonstrou que não há tratamento prévio para a Covid-19 e que o uso da hidroxicloroquina não é capaz de diminuir a gravidade da doença.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus.

No caso da Covid-19, é imprescindível que as informações sejam claras e possam orientar a população sobre a doença e as formas de minimizar os riscos de contágio. Ao relacionar o uso de um medicamento sem eficácia comprovada a uma suposta “imunidade” à doença, a autora da postagem – que teve quase 5 mil interações no Twitter – desinforma sobre os riscos ligados à infecção e à ausência de tratamento. Com isso, a postagem pode atrapalhar os esforços das autoridades em conter a disseminação da doença.

O Comprova já verificou outros conteúdos que traziam informações falsas sobre a Covid-19 e as formas de prevenção à doença, como a postagem que sugeria que o uso de máscaras poderia provocar o acúmulo de líquido nos pulmões e o vídeo que afirma que as vacinas contra o novo coronavírus são uma tentativa de diminuir a população.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Esta apuração foi feita pelo Band News FM, Amazônia Real e Correio da Bahia. A checagem foi feita posteriormente pelo O POVO, NSC, UOL, Rádio Noroeste, Poder 360 e Estadão.