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Devoção a distância: fiéis acompanham lives em homenagem a padre Cícero

Celebrações virtuais possibilitaram a participação de romeiros que não podem mais viajar a Juazeiro, mas acesso à internet dificultou engajamento do público

Leonardo Maia
14:19 | 20/07/2020
Show com padre Paulo Evangelista foi uma das atrações da programação virtual. (Foto: Reprodução/Youtube)
Show com padre Paulo Evangelista foi uma das atrações da programação virtual. (Foto: Reprodução/Youtube)

Depois de 86 viagens a Juazeiro do Norte, a alagoana Jacivânia Rocha, 41, teve que cancelar sua ida ao município neste mês de julho. Tradicionalmente, esse é o período do ano que reúne mais romeiros na Cidade, devido ao aniversário de morte do religioso, que completa 86 anos nesta segunda-feira, 20.

Em janeiro deste ano, Jacivânia já estava com tudo planejado. Cerca de 100 pessoas a acompanhariam na viagem, que já contava com ônibus contratado e pousada reservada. Os planos, no entanto, tiveram que mudar. Com as restrições de circulação da pandemia do novo coronavírus, não há segurança sanitária para receber os fiéis, e as celebrações passaram para o meio virtual.

Com transmissões ao vivo que começaram na última sexta-feira, 17, a Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores, conhecida entre os romeiros como Mãe das Dores, está promovendo uma programação para tentar “amenizar a saudade daqueles que estão em casa”. Com transmissão de missas, participação de historiadores e visitação de lugares sagrados, os fiéis podem relembrar celebrações de anos anteriores.

O padre Cícero José, reitor da Basílica, ressalta que nada substitui a presença física dos romeiros, mas o momento exige que modificações sejam feitas para que a vida seja preservada. Com 20 mil inscritos no canal do Youtube, o pároco ressaltou que a programação virtual permitiu que a igreja trouxesse pontos de discussão que normalmente não são abordados nas romarias presenciais, devido à falta de tempo.

“É tudo muito novo, mas a resposta foi bastante positiva. É uma forma de não deixar que o romeiro deixe de viver essa experiência que anualmente faz em Juazeiro do Norte. Tivemos a participação das novas comunidades, com todos os cuidados sanitários, e conseguimos promover um encontro virtual entre alguns romeiros”, enfatiza.

A volta da presença massiva dos fiéis na região, quando permitida, é motivo de esperança do bispo da Diocese do Crato, dom Gilberto Pastana. “Essa praça (de Juazeiro) não vai caber todos os romeiros que tradicionalmente vêm ao município e todos aqueles outros que começarão esse compromisso religioso”, projeta.

Tradição que ultrapassa gerações

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“Eu vou ao Juazeiro desde meus 9 meses de idade, quando minha avó me colocou na cacunda (nos ombros) e subiu comigo para ver a estátua do padrinho na colina do Horto”, contou Jacivânia. A devoção pelo padre Cícero na família começou com seu avô, que chegou a conviver com o líder religioso.

“Meu avô conheceu o padrinho pessoalmente. Ele foi um dos romeiros que ajudou na construção da casa da Mãe das Dores (capela em que o padre Cícero celebrava missas)”, orgulha-se Jacivânia. Ela conta que a partir disso a tradição continua na família até hoje, com o nascimento do seu filho. Nascido e batizado na terra do padrinho, o menino já visitou Juazeiro sete vezes — quatro na barriga da mãe e três depois de nascido.

“Meu filho é um presente da Mãe das Dores e de meu padrinho. Na romaria de setembro de 2018, eu pedi a graça de ser mãe e, com a intercessão do padrinho, três meses depois eu estava grávida”, celebra a mulher, que se orgulha por ter sido a primeira romeira voluntária na Basílica que sedia a devoção ao padre Cícero. “Foi a melhor experiência que tive na minha vida, nada melhor do que a gente ajudar uma coisa que a gente acredita e ama”, enfatiza.

José Carlos dos Santos, professor de Filosofia da Universidade Regional do Cariri (Urca), falou da relevância do líder religioso para a história da Cidade e para a devoção dos fiéis, em entrevista à live no canal da Basílica na manhã desta segunda-feira, 20. Ele explicou que, diferente de outros centros que também atraem o turismo religioso, a cidade de Juazeiro em si é quase integralmente sagrada.

Leia Também | A eternidade do Padim, reportagem especial por Cláudio Ribeiro publicada em 2019, lembrando os 85 anos de morte de padre Cícero.

“A gente chama isso de roteiro da fé ou dos passos do Padre Cícero em Juazeiro, que também são os passos do romeiro. Existe toda uma simbologia do sagrado nesse percurso. Em outros lugares de peregrinação você já tem pontos de visitação bem definidos para ir, o que não acontece em Juazeiro”, explicou o professor. “Juazeiro é a construção da grande utopia que o Padre Cícero tinha. Uma cidade viva e próspera, que deve ser justa, humana e fraterna.”

Acesso à internet foi problema para os fiéis

Com parte significativa dos romeiros já idosa, o acesso às transmissões ao vivo não é acessível para a maioria dos fiéis. Jacivância relatou que compartilhou o seu celular, adotando os protocolos de segurança, com dois idosos que moram em sua rua para que também pudessem acompanhar as transmissões.

Ela explicou que, por um lado, a transmissão virtual foi positiva, pois possibilitou que idosos impossibilitados de viajar a Juazeiro em outros anos pudessem acompanhar as celebrações ao vivo. No entanto, ela acredita que a transmissão através de um canal religioso da televisão aberta facilitaria o engajamento do público devoto.

Serviço

Programação Virtual em homenagem aos 86 anos da morte do Padre Cícero, nesta segunda-feira, por meio do canal do Youtube*

14 horas - Cine Padre Cícero

15 horas - Terço da Misericórdia

16 horas - Programa Encontro com Romeiros

17 horas - Celebração Eucarística

20h30min - Show do Chapéu com Fran e Cícera

*Os conteúdos transmitidos anteriormente também estão disponíveis no canal do Youtube da igreja