Preconceito racial: crimes crescem pelo 7º ano consecutivo no CE

Número de crimes por preconceito de cor ou raça cresce pelo 7º ano consecutivo no Ceará

Aumento do debate sobre racismo e maior disseminação dos meios de denúncia é um dos motivos para o crescimento

O número de vítimas de crimes por preconceito de cor ou raça cresceu pelo sétimo ano seguido no Ceará. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), 413 denúncias por algum delito do tipo foram feitas no ano passado em território cearense, 10% a mais que em 2024.

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Os dados são coletados pela SSPDS desde 2015 e apontam um salto de 30 casos em 2019 para 413 em 2025. O maior incremento de um ano para o outro foi em 2023, ano em que o crime de injúria racial foi equiparado ao racismo, e quando o Estado registrou 363 vítimas, mais que o dobro das 180 apontadas em 2022.

Número de vítimas de crimes de preconceito por raça ou cor por ano no Ceará

Entre os motivos para esse crescimento, conforme o poder público, estão a maior identificação racial dos moradores do Estado, bem como o aumento do debate sobre o racismo na sociedade.

Para a executiva da Secretaria da Igualdade Racial do Ceará (Seir), Martír Silva, há de se atribuir o dado também ao maior leque de meios para denúncia desses crimes, como a Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrim), criada em 2023.

"Essa sociedade está tendo maior nível de informação do que tinha antes. Do que significa, dos indícios, das características que envolvem um crime de racismo. Então, o que antes, há anos atrás, passava de forma despercebida pelas pessoas, hoje já é perceptível", pontua a secretária.

Apesar do aumento, os dados ainda não são suficientes para mostrar o cenário total dos crimes por preconceito de cor ou raça no Ceará. Isso ocorre devido ao um cenário comum, onde os casos existem, mas não são oficialmente denunciados às autoridades.

Esse foi o caso de João [nome fictício], vítima de injúria racial em dezembro do ano passado, quando ao solicitar um carro por aplicativo, teve a entrada no veículo negada pelo motorista, que bradou frases como "um preto desses", em tom pejorativo.

Sem entender de imediato o que havia acontecido, ao jovem conta não ter realizado um Boletim de Ocorrência (B.O) sobre o caso, assim como na outras vezes em que foi alvo do crime. "É algo tão eu não fico normalmente triste, só fico tipo tentando pensar que passa na cabeça da outra pessoa para ela fazer uma coisa dessas", afirma.

Essa, entretanto, não foi a primeira vez que João se viu frente a agressões e insultos devido a sua cor. Aos 20 anos, ele pontua que já passou por diversas situações como essa e lamenta ter a ciência de que provavelmente esse não foi o último caso.

"[A situação com o motorista] Me fez pensar foi que isso pode acontecer em qualquer canto, sabe? Não é só em cantos específicos, você está a mercê disso, infelizmente. E não tem muito como precaver. Porque é algo que vem da outra pessoa, você só está resistindo", complementa.

Jovens adultos são o grupo que mais denuncia crimes por preconceito de raça ou cor no Ceará

Pessoas na faixa etária de João, de 18 a 23 anos, estão entre as que mais denunciam crimes de preconceito por cor ou raça no Estado, com 12,87% dos casos. Se estendermos o recorte para o público até 35 anos, o percentual sobe para 45% dos relatos de todo o Ceará.

Para os especialistas, esse número não é coincidência. O atual grupo dos jovens adultos são classificados como os que mais tiveram acesso a conteúdo antirracista em seu processo de formação escolar, bem como nos conteúdos consumidos como forma de entretenimento, além das discussões cotidianas.

Para o historiador Douglas Souza, esse público passa também por um momento de autoconhecimento, na forma de reconhecer que as "brincadeiras" que viveu ou presenciou na escola, como chamar colegas de "macaco" ou apelidar alguém no futebol de "Pelé", são formas de racismo.

"Essa geração cresceu com isso na cabeça e foi descobrindo aos poucos com a interação das redes sociais da propagação de propaganda na televisão, que racismo era crime pela Constituição. E aí essa geração quando entende que isso é crime e começa a relembrar as coisas que sofreu, ela tende a reportar mais", relaciona.

Se nos jovens a informação ajuda a impulsionar as denúncias, entre os idosos a falta desse conhecimento dificulta que situações de racismo e injúria racial sejam percebidas e denunciadas de imediato. Para Silva, pessoas com mais de 60 anos também são possíveis agentes de denúncia desses crimes, mas devido às décadas de normalização das condutas que viveram, essa identificação é mais complicada.

"Elas estão numa faixa geracional de percepção de informações e de percepção da realidade de uma forma mais dinâmica. Eu não quero dizer com isso que as pessoas mais velhas estão sem capacidade de entender, mas ela já vem, vamos dizer assim, de uma informação sobre as relações étnico-raciais anteriores, já consolidadas, que não tem tanta percepção imediata sobre o racismo", conclui a secretária.

Combate aos crimes de preconceito exige mais investimento do poder público

Parte desse conhecimento gerado em crianças, jovens e adultos é formado por projetos antirracistas nas escolas, ambientes de trabalho e convívio em sociedade. Essas iniciativas têm como um de seus principais fomentadores o poder público, mediante ações em ambientes como escolas, praças e parques.

Para que essas ações existam é preciso estruturação, e para que exista estruturação, é preciso dinheiro. Souza explica que um dos principais avanços recentes do Ceará no combate ao racismo foi a criação da Seir, mas que ainda é necessário um maior investimento para que a pasta possa potencializar suas ações de valorização laboral, cultural e educacional dos diferentes povos.

"A Seir é super importante, pioneira em várias questões, mas é uma secretária que se você vai pegar o orçamento dela, ela não consegue fazer muita coisa sozinha. Ela sempre tem que fazer atividades com outras secretarias que têm recurso. Então, como é que eu pego uma secretaria de igualdade racial, uma secretaria da governo do estado do Ceará e deixo ela esvaziada em relação a recurso?", questiona o também membro do movimento Fortaleza Negra.

O POVO fez um levantamento sobre os valores investidos em cada secretaria de Estado do Ceará durante o ano de 2025. Entre as 29 pastas analisadas Foram excluídas as pastas vinculadas a secretarias como superintendências e controladorias , a Seir aparece como a segunda de menor orçamento, com menos de R$ 500 mil gastos em 2025. 

Veja quanto cada secretaria do Ceará gastou em 2025

Questionada sobre o valor executado pela Seir durante o ano passado, Silva reconheceu que a quantia é pequena, entretanto, ponderou que o orçamento de outras pastas, como saúde e educação, possuem percentual destinado para ações em parceria com a Igualdade Racial, a fim de trabalhar a valorização do povo negro em seus ambientes.

"Todas essas secretarias têm orçamento voltado para ações transversais da questão étnico-racial. Esse orçamento sempre é executado em articulação com a Seir. É bem verdade que tem secretarias com aporte orçamentário muito maior, mas essas são secretarias historicamente estruturadas para prestar serviços públicos de natureza essencial. A grande vitória é que esses serviços dialogam com a perspectiva da igualdade racial", conclui a secretária executiva.

Outro desfalque do combate a esses crimes no Estado é a identificação das pessoas que sofrem os delitos. Segundo dados da SSPDS, 75,27% das pessoas que relatam os casos nas delegacias não informam sua cor ou raça.

Segundo a Seir, isso ocorre devido ao alto número de registros de B.Os eletrônicos, onde a pessoa pode ou não informar características étnico-raciais, bem como ao "esquecimento" dos policiais na hora de coletar as informações nas delegacias.

"Um dos grandes desafios da gente é criar de uma forma consolidada de recepção de dados da autodeclaração. A pessoa pode chegar lá, fazer uma denúncia e ser uma pessoa preta ou uma pessoa parda, que realmente sofreu o racismo, mas ela não deu essa resposta. Isso não invalida a denúncia [...] muitas dessas denúncias elas podem ser feitas na delegacia eletrônica. Embora lá tenha a informação sobre o pertencimento étnico racial, a pessoa simplesmente pode não ter respondido", explica. 

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