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Ceará
NOTÍCIA

Tartarugas-de-pente nascem de ninho monitorado desde fevereiro no Beach Park

A engenheira de Pesca e professora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), Caroline Feitosa, conta que a costa marítima do Ceará era tida apenas como área de alimentação da espécie, mas novos trabalhos mostraram que muitas tartarugas desovam em praias do estado

Gabriela Feitosa
12:50 | 14/04/2020

Um ninho de tartarugas-de-pente, monitorado desde fevereiro, nasceu no último domingo, 12, em frente ao Oceani Beach Park Hotel. Cerca de 100 tartaruguinhas alcançaram o mar em poucos minutos. O ninho vem sendo monitorado desde fevereiro, quando a equipe identificou o ponto de desova na praia e o isolou com cordas e placa, a fim de evitar o trânsito de pessoas sob a areia.

A engenheira de Pesca e professora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), Caroline Feitosa, conta que a costa marítima do Ceará era tida apenas como área de alimentação da espécie, mas novos trabalhos mostraram que muitas tartarugas desovam em praias do estado. "A tartaruga-de-pente é comum ao longo de toda a costa brasileira. Ela tem uma área grande de desova no Rio Grande do Norte. Ela precisa de uma faixa de areia ampla e praias calmas para o processo", explica Caroline.

Aqui no Ceará, segundo a professora, boa parte dos ninhos de tartaruga são na Praia de Sabiaguaba, que possui região pouco iluminada e águas calmas. Já a Praia do Futuro, por exemplo, se apresenta como região perigosa para o animal, já que a movimentação de pessoas e veículos afeta a vida natural das tartarugas.
"A tartaruga-de-pente não é a mais abundante, mas desova aqui. A mais abundante é a tartaruga verde que, curiosamente, não desova", ressalta Feitosa.

A espécie é considerada a “mais tropical de todas as tartarugas” e está distribuída entre mares tropicais e, por vezes, subtropicais dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. E está criticamente em perigo. De acordo com a classificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o animal pode alcançar até 110 cm de tamanho e 86kg.


Cada ninho pode ter até 150 ovos, de acordo com a engenheira de Pesca. No entanto, nem todos eclodem e, dos filhotes que nascem, nem todos sobrevivem e chegam à fase de maturidade sexual - o chamado "sucesso reprodutivo". "Muitos filhotes morrem na praia, caminhando na areia", lamenta Caroline. As condições das praias também são fatores decisivos na sobrevivência dessas tartaruguinhas. A areia da praia, bastante afetada com os pneus de veículos, pode dificultar a caminhada das mães e dos filhotes. Esse é só um dos exemplos.


Em relação a isso, a professora garante que a comunidade ambiental tem se mobilizado para garantir que todo esse conhecimento de espécies e outros estudos sejam traduzidos em políticas públicas - que garantam uma vida mais tranquila à vida marinha.


Veja vídeo dos filhotes:


De acordo com a gerente de meio ambiente do Beach Park, Raissa Bisol, os hotéis da rede contam com equipe treinada para o manejo da fauna marinha, incluindo tartarugas e mamíferos. “Geralmente a eclosão dos ovos de tartaruga tipo pente acontece nesse período do ano e leva em torno de 60 dias depois da desova. A equipe ajuda também a direcionar as tartaruguinhas que, por ventura, possam ir para a direção contrária ao mar – às vezes por conta da iluminação que tem na praia. Como o ninho estava localizado bem próximo do Oceani Beach Park Hotel, a equipe ajudou algumas tartaruguinhas a alcançarem o mar.”, conclui Raissa.


"Quanto menos interferência humana, melhor"


Ao O POVO, Caroline Feitosa contou que o período de isolamento social pode favorecer a desova de tartarugas em praias cearenses. "De uma certa forma, é provável de a gente estar passando por um experimento: menos gente pescando, menos impacto de todas as formas", explica Feitosa. Ela acredita que estudos posteriores podem demonstrar como a quarentena tem afetado a dinâmica ambiental do mundo, como a emissão de menos gás carbônico devido pouca movimentação de carros.

"Isso vai ser favorável para as tartarugas, como ter menos tráfego de veículos nas ruas. Os impactos gerados pelo homem estão, de certa forma, atenuado pelo período de quarentena", conclui a pesquisadora.


Confira características gerais da Tartaruga-de-pente. As informações são do Projeto Tamar:


Nome Científico: Eretmochelys imbricata
Nomes comuns: Tartaruga-de-pente ou Tartaruga-legítima
Status internacional: Criticamente em Perigo (classificação da IUCN)
Status no Brasil: Criticamente em Perigo (classificação do MMA)
Distribuição: É considerada a mais tropical de todas as tartarugas marinhas e está distribuída entre mares tropicais e por vezes sub-tropicais dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.
Habitat: Prefere recifes de corais e águas costeiras rasas. Pode ser encontrada, ocasionalmente, em águas profundas.
Tamanho: Até 110 cm de comprimento curvilíneo de carapaça no Brasil.
Peso: Em média 86kg
Casco (carapaça): Quatro placas laterais de cor marrom e amarelada, que se imbricam como telhas e dois pares de escamas pré-frontais.
Cabeça: Relativamente pequena e alongada. O bico se assemelha ao de um falcão. Dois pares de escamas pré-frontais.
Nadadeiras: Anteriores (dianteiras) e posteriores (traseiras) com duas unhas (garras).
Dieta: Esponjas, anêmonas, lulas e camarões; a cabeça e o bico estreitos permitem buscar o alimento nas fendas dos recifes de corais.
Nº de ninhos no Brasil: Aproximadamente 2.200 por temporada.
Curiosidades: Desova no litoral norte da Bahia e Sergipe; e no litoral sul do Rio Grande do Norte.