Ângela Mendes: legado de Chico Mendes e críticas à COP30

Filha de Chico Mendes defende legado do pai e critica COP30 na Amazônia

Ela avalia os resultados da conferência, critica a exploração de petróleo na Foz da Amazônia e revela de que forma seu pai enxergaria uma COP na Amazônia
Atualizado às Autor Agência Brasil Tipo Notícia

Ângela Maria Feitosa Mendes tornou-se uma ativista ambiental de referência, tal como seu pai, Chico Mendes. Ele foi assassinado aos 44 anos a mando de fazendeiros em 1988, na casa onde morava em Xapuri, interior do Acre, por sua luta em defesa da floresta e de seus povos. 

Atualmente ela comanda o Comitê Chico Mendes, espaço que reúne ativistas por justiça social que se identificam com a luta do Mártir da Floresta que, se estivesse vivo, completaria 81 anos em dezembro.

O comitê foi criado na noite do assassinato de Chico Mendes, por lideranças políticas e de direitos humanos para exigir que o crime não ficasse impune. 

A reação fez com que, dois anos depois, em dezembro de 1990, a Justiça condenasse os fazendeiros Darly Alves da Silva e seu filho, Darcy Alves Ferreira, a 19 anos de prisão pela morte de Chico Mendes. 

Em vida, o líder seringueiro lutou contra as condições precárias de trabalho de sua categoria, que praticamente vivia em estado de semiescravidão e levantou a voz para denunciar aqueles que financiavam a destruição da floresta amazônica.  

Chico ajudou a criar a Aliança dos Povos da Floresta, em meados dos anos de 1980, reunindo lideranças dos povos indígenas e seringueiros do Brasil que se uniram para reivindicar demarcações de territórios e a criação de reservas extrativistas.

Em uma justa homenagem, seu nome batiza a autarquia responsável pela gestão das Unidades de Conservação federais do país: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

Atualmente, as ações do Comitê se dedicam também à formação de jovens e mulheres que vivem na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre. A inspiração para o trabalho parte de uma carta escrita por Mendes pouco antes de morrer e dedicada aos jovens do futuro. 

Nela o seringueiro comemora a existência de um mundo que superou a exploração e onde resta “somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte”. 

“Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado”, finaliza a carta. 

Confira entrevista com Ângela Mendes, filha de Chico Mendes

Em Belém para participar da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), Ângela Mendes conversou com a Agência Brasil no espaço Chico Mendes, montado no Museu Paraense Emílio Goeldi. 

A iniciativa integra as atividades paralelas à COP30 e foi concebida como um ambiente de aprendizagem, intercâmbio e reflexão sobre a relação entre natureza, cultura e sociedade.

O espaço congrega ainda a Feira de Sociobiodiversidade, com produtos produzidos de maneira sustentável, em diferentes biomas do país. A feira a materializa o princípio defendido por Chico de que a floresta em pé vale muito mais. 

Agência Brasil: Como nasceu o comitê e qual é o seu foco atualmente?  

Ângela Mendes: O comitê Chico Mendes foi criado na noite do assassinato do meu pai, por seus companheiros e companheiras que, sob muita dor, entenderam que era necessário, diante do sentimento de impunidade que reinava naquele período, criar uma forma de mobilizar a sociedade nacional e internacional para exigir do governo brasileiro justiça contra os assassinos do meu pai.

Por outro lado, era necessário que esse mesmo espaço reverberasse, cuidasse dessa memória de luta que ele nos deixou. Nesse sentimento foi criado o Comitê Chico Mendes. 

Agência Brasil: De que forma ele reverbera essa luta? 

Ângela Mendes: A gente imaginou a semana Chico Mendes que acontece exatamente no dia do seu aniversário até a data do seu assassinato. Ele [Chico Mendes] fazia aniversário dia 15 de dezembro e foi assassinado no dia 22, sete dias depois. Então o comitê seguiu realizando as semanas Chico Mendes de forma voluntária, de forma muito orgânica. 

Em 2016, a gente imaginou que, como ele tinha deixado uma carta para os jovens no futuro, a gente pensou em ter essa carta como uma referência, uma inspiração para a gente começar a falar sobre a importância da juventude, sobretudo da juventude dos territórios. 

Para isso, a gente criou o núcleo jovem do comitê, que passou a fazer outras atividades, para além das semanas Chico Mendes, fazer um trabalho dentro das escolas. E a gente começou também a instituir o programa Jovens Protagonistas das reservas extrativistas do Acre, na Resex Chico Mendes, tudo isso procurando mobilizar a juventude para olhar para essa carta. 

E, desde então, a gente segue, inspirados pela carta e por tudo que o meu pai fez. Em 2020 a gente realizou o primeiro Festival Jovens do Futuro, que ocorre no dia 6 de setembro, a data da escrita dessa carta. E a partir desse primeiro Festival Jovens do Futuro, a gente entendeu que essa carta é visionária. 

Agência Brasil: Por quê? 

Ângela Mendes: Porque jovens de mais de 20 países, de forma online, porque naquele período a gente estava com a pandemia [de covid-19] muito forte, participaram [do festival]. Foi um dia todo de lives. E a gente entendeu como, de fato, os jovens do mundo estavam mobilizados nessa luta por um mundo melhor, por justiça social, que ele antevia nessa carta. 

Ela foi um chamamento e a gente percebeu que existia ali um movimento de juventude ao redor do mundo que foi tocada por essa carta, sem ao menos conhecê-la. 

Agência Brasil: E de lá para cá, quais ações foram feitas? 

Ângela Mendes: De lá para cá, a gente se institucionalizou. Há quatro anos temos um CNPJ e entendemos a necessidade de termos mais estrutura para chegar no território com mais impacto e trabalhando forte para potencializar as vozes das juventudes das reservas extrativistas. E agora também voltando muito ao olhar para a questão da mulher. 

Hoje são esses dois públicos. Nossa força criativa está indo para pensar como fortalecer, ainda mais, esses dois públicos que têm um papel tão fundamental na manutenção desses territórios. 

Agência Brasil: Nós vimos agora, nessa primeira semana da COP30, diversos movimentos sociais, os povos da floresta, quebradeiras de coco, quilombolas e indígenas reivindicando maior participação nos espaços de decisão. A mensagem de que só é possível o enfrentamento da crise climática com as populações e os povos foi ouvida? 

Ângela Mendes: Eu entendo que as COPs avançaram muito pouco no que diz respeito aos direitos dessas populações que estão nesses territórios, que também são estratégicos.

Quando uma COP, que fala de justiça climática acontece aqui na Amazônia, a gente olha e vê como existe um desafio muito grande para as populações de floresta, para que essas pessoas, de fato, acessem políticas públicas que lhe garantam viver com dignidade. 

Então, essas populações têm todo direito de fazerem suas reivindicações. Agora, eu não acredito que elas estão sendo ouvidas nesse contexto de COP. Mas ainda é cedo [para afirmar]. Acho que essa semana muita coisa está sendo definida.

A gente ainda vai ter notícias sobre o que de fato saiu como resultado concreto. Eu entendo que todos estamos torcendo muito para que saia um acordo que possibilite o acesso a financiamento climático que possa fortalecer esses povos nos seus territórios. 

Agência Brasil: Com a COP30 entrando na reta final, já dá para fazer um pequeno balanço? Dá para falar nela como a “COP da implementação”, a “COP da verdade”? 

Ângela Mendes: Eu não sei te dizer porque não estou lá nos espaços de negociação. Eu acho que ainda não existem grandes definições sobre o resultado dessa COP. 

O que posso dizer é que foi uma COP diferente, onde os movimentos, as organizações de base se mobilizaram, se articularam e fizeram muita coisa, deram seus gritos. A gente teve o Porongaço, que foi um movimento de populações extrativistas com mais de mil participantes. A gente teve a Marcha Mundial pelo Clima, que também reuniu mais de 70 mil pessoas, segundo as notícias. A gente teve a marcha dos povos indígenas e todos esses espaços paralelos de debate.  

Muita coisa rolou em torno da COP que fez com que as autoridades que estão lá debatendo as soluções tenham percebido que na Amazônia existe muita resistência. E existe também muita produção de soluções para essa crise climática que a gente está vivendo. Acho que o que fica de entendimento é que as soluções para essa crise climática precisam incluir quem está no território 

Agência Brasil: Voltando a esse debate de que as soluções têm que partir da escuta dos territórios, você acha que com a entrega da carta da Cúpula dos Povos, os próximos eventos como esse vão ter um espaço maior para esses movimentos? 

Ângela Mendes: Acho que essa COP teve algo de inovador, que foram os processos que o governo brasileiro implementou, os espaços de diálogo, o balanço ético global, o papel também dos enviados, que são pessoas que fazem essa ponte da sociedade civil com a cúpula, com os negociadores. Eu acho que são importantes iniciativas que aproximam os povos dos territórios dessa alta cúpula dos líderes. 

Acho que a produção dos documentos também traz uma certa força. Porém, há uma disputa que acontece ali. Por exemplo, de uma manifestação de um grupo de indígenas que foram ocupar a Blue Zone e foram tratados de forma violenta, como invasores. Mas, e os lobistas que estão presentes em todas as COPs, que estão em grande número, que têm dinheiro para pagar suas passagens, estadia nos melhores hotéis, para fazer com que essa indústria dos combustíveis fósseis não perca espaço? 

Tanto é que a gente vai ter esse licenciamento para a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Então, ainda é um desafio muito grande a gente lutar contra o lobby dessas indústrias dos combustíveis fósseis.

Os movimentos e povos se organizaram, fizeram todo esforço, fizeram suas pré-COPs, formaram suas lideranças no território sobre o que é e a importância dessa COP. Vão produzir documentos, vão produzir demandas. Se alguém vai ouvir, não sei, não me pergunte. 

Agência Brasil: Você tem falado sobre a necessidade de alianças para enfrentamento dessa crise ambiental. O que precisa ser feito, na sua avaliação? 

Ângela Mendes: Eu vejo de forma muito clara. O meu pai deixa esse exemplo, junto com as lideranças indígenas que formaram a aliança original na década de 80, para avançar nas conquistas de políticas públicas, sobretudo de território. 

Eu acho que cada parte, cada segmento da sociedade pode contribuir para as soluções. A aliança com as academias ela é superimportante. A academia produz conhecimento, pesquisa e a gente sabe: os cientistas dizem que ainda há muito a ser pesquisado na Amazônia que pode vir a trazer uma inovação tecnológica para esse lugar, a partir dos conhecimentos também de quem está nesse lugar. É a sociobioeconomia. 

Os bancos podem também deixar de financiar apenas o agronegócio, o setor da mineração e entender que é importante também que abram linhas de financiamento para os pequenos empreendedores. A gente sabe a relação deles com agronegócio, com quem tem capital e para oferecer garantias ao banco. Isso [a relação] não vai mudar, mas que o banco repense a sua relação também com os pequenos. 

As grandes indústrias, a indústria farmacêutica, a indústria cosmética têm uma capacidade grande de fortalecer os territórios também.

Em vez de ficar explorando as comunidades, retirando as matérias-primas dos seus produtos, pagando um preço insignificante, indo beneficiar em outros lugares e vender por um preço absurdo, poderia muito bem repensar isso e incluir as comunidades nesse processo.

Formar juventude para fazer essa manipulação, construir estruturas locais para fortalecer. Porque, veja bem, se um dia que essa floresta acabar, de onde eles vão retirar o muru-muru? Onde eles vão retirar o ipê branco, o pau-rosa para produzir os seus produtos? 

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