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Bolsonaro diz que cloroquina pode ser inútil contra Covid-19: "Pelo menos não matei ninguém"

"E aí, vão continuar me chamando de genocida?", ironizou o presidente ao criticar aqueles contrários à recomendação do remédio, que não tem comprovação científica de eficácia

Leonardo Igor
11:10 | 05/02/2021
Durante parte do primeiro semestre de 2020, o presidente deu declarações minimizando a Covid-19, chegando a aparecer em público com uma caixa de cloroquina (Foto: MATEUS BONOMI/AGIF/AE)
Durante parte do primeiro semestre de 2020, o presidente deu declarações minimizando a Covid-19, chegando a aparecer em público com uma caixa de cloroquina (Foto: MATEUS BONOMI/AGIF/AE)

Ao lado do diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a defender em live na quinta-feira, 4, as reiteradas recomendações que tem dado desde o início da pandemia para o uso de hidroxicloroquina, um remédio utilizado contra malária, no combate à Covid-19.

Segundo o mandatário, embora não haja comprovação científica da eficácia do medicamento contra a doença causada pelo coronavírus, ele estaria sendo “omisso” se não o recomendasse. “Pode ser que lá na frente se fale ‘a chance é zero, era um placebo’. Tudo bem. Paciência, me desculpe. Pelo menos não matei ninguém”, afirmou.

Assista o vídeo:

 

 

Ao longo da live, o presidente disparou contra seu ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a quem se referiu como “garoto propaganda da Globo”, por ser contrário ao chamado “tratamento precoce” da Covid-19 defendido por Bolsonaro. Este suposto tratamento, baseado na profilaxia com hidroxicloroquina e outros medicamentos, não é reconhecido pela ciência. “A pergunta que eu faço: se não faz mal, por que não tomar?”, questionou.

Ainda assim, Bolsonaro afirmou conhecer 200 pessoas curadas da Covid-19 por causa da hidroxicloroquina. “No meu prédio mais de 200 pessoas pegaram Covid. Não sei se a maioria ou minoria, mas lá falava-se do tratamento e ninguém foi para o hospital”, contou. As declarações do presidente vieram no mesmo dia em que levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostrou uma disparada na compra de medicamentos sem eficácia comprovada contra Covid-19 em 2020 no Brasil.

A venda da hidroxicloroquina mais que dobrou no Brasil de 2019 para 2 milhões em 2020. Já a de ivermectina, um antiparasitário também apregoado pelo presidente como útil no “tratamento precoce” da Covid-19, teve uma alta maior que seis vezes no total de vendas. Ainda nesta quinta-feira, a farmacêutica alemã Merck, que produz a ivermectina, publicou um comunicado alertando contra o uso indiscriminado do remédio e apontando que “não há base científica” para seu uso contra Covid-19.

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Quando uma substância é desenvolvida e aprovada, seu registro indica uma finalidade terapêutica, isto é, em que situação e para qual quadro clínico ele pode ser utilizada. Essa aprovação é dada pelas agências reguladoras dos países, como a Anvisa no Brasil. Prescrever a substância para um uso que não o descrito na bula é fazer um uso off-label do medicamento.

Sobre isso, o diretor da Anvisa, Antônio Barra Torres, presente na live, afirmou que a prescrição off-label é de inteira responsabilidade dos médicos e que não compete à agência se debruçar sobre a questão. Bolsonaro ainda criticou aqueles que são contrários à recomendação do remédio, indicando que, no futuro, eles poderiam ser “responsabilizados”. “Agora, se porventura, se mostrar eficácia na frente, você que criticou, parte da imprensa, vai ser responsabilizada. Pelo menos moralmente. E aí, vão continuar me chamando de genocida?”, ironizou.