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Brasil
NOTÍCIA

Mulheres e pessoas pretas ou pardas são maioria entre usuários da atenção primária à saúde

Pesquisa do IBGE traz dados sociodemográficos, avaliação do serviço público, além de outras informações sobre o público atendido nas unidades básicas

Lais Oliveira
10:50 | 21/10/2020
A intervenção, que teve investimento de R$ 86 mil, contemplou uma área de 300 m² da estrutura física da unidade. (Foto: Divulgação/SMS)
A intervenção, que teve investimento de R$ 86 mil, contemplou uma área de 300 m² da estrutura física da unidade. (Foto: Divulgação/SMS)

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) revelou que 69,9% das pessoas adultas que procuraram alguma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Unidade de Saúde Familiar (USF) no Brasil, em 2019, foram mulheres. Desses usuários, 60,9% eram pretos ou pardos.

As informações foram divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 21. Além de dados sociodemográficos, a pesquisa traz avaliação do serviço público, as doenças mais relatadas pelos usuários, entre outras informações.

Atenção Primária à Saúde (APS) é a principal porta de entrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e centro de comunicação das Redes de Atenção à Saúde. Segundo a PNS 2019, 17,3 milhões (10,7%) de pessoas de 18 anos ou mais de idade procuraram algum serviço da atenção primária nos últimos seis meses anteriores à data da entrevista, cujo atendimento não fora o primeiro realizado com o mesmo médico.

 

Na análise da professora Magda Almeida, mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC), culturalmente as mulheres são condicionadas a adotar mais cuidados com a saúde, sua e da família. Ao contrário do que acontece com os homens, 30,1% do público a procurar esse tipo de atendimento, conforme o IBGE.

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“Isso faz com que a relação das mulheres com os serviços de saúde seja algo mais natural. A masculinidade socialmente construída entende a procura do homem à serviços de saúde como sinal de fragilidade, fazendo com que os mesmos os procurem tardiamente", observa.

A docente do Departamento de Saúde Comunitária, do curso de Medicina da UFC, também ressalta que a cultura dos cuidados preventivos está mais enraizada no gênero feminino.

 

Todo esse cenário contribui para que as mulheres sejam as principais utilizadoras dos serviços de atenção primária. “E ao mesmo tempo traz o desafio para os serviços e profissionais da atenção primária de envolver a população masculina na busca de cuidados”, completa Magda.

A pesquisa entrevistou brasileiros adultos que se consultaram pelo menos duas vezes com o mesmo médico, nos últimos seis meses antes da realização da entrevista, em uma UBS ou USF.

O IBGE considerou essas pessoas adequadas para responder sobre os atributos da pesquisa, “uma vez que já tinham familiaridade com o serviço de saúde prestado naquela determinada unidade de saúde, sendo, assim, capazes de avaliar os atributos da Atenção Primária à Saúde com certa razoabilidade.”

Hipertensão, diabetes e depressão 

 

Entre os usuários dos serviços básicos de saúde, as doenças mais relatadas foram a hipertensão arterial, declarada por 39,2% dos adultos entrevistados, seguida por diabetes (15,9%), depressão (15,3%), doença do coração (7,9%), asma (5,9%), e doença crônica de pulmão (2,1%).

“Esses dados reiteram o papel da APS na prestação dos cuidados continuados que se observa principalmente nas doenças crônicas transmissíveis e não transmissíveis”, acrescenta Magda Almeida.

Em linhas gerais, o IBGE aponta que os adultos que declararam ter alguma morbidade tendiam a atribuir um escore geral mais elevado aos serviços, quando comparados ao conjunto sem a respectiva morbidade.

Na avaliação de Magda, o maior desafio ainda é realizar o cuidado interdisciplinar e a prevenção dessas doenças. A especialista acredita que existe muito foco nos medicamentos e cuidados médicos.

Porém, as doenças crônicas não transmissíveis dependem muito de determinantes sociais da saúde, como acesso à alimentação equilibrada e saudável e à prática de atividade física.

Nota para atendimento

 

O escore geral da Atenção Primária à Saúde obtido no Brasil, em 2019, foi 5,9, considerando uma escala que vai de 0 a 10. O escore geral tem como ponto de corte o escore 6,6. Um resultado abaixo de 6,6 significa baixa classificação e revela serviços com baixa presença dos referidos atributos da APS.

São avaliados critérios como acesso de primeiro contato, longitudinalidade, coordenação, integralidade, orientação familiar, e orientação comunitária, além de outros componentes.

Características socioeconômicas dos usuários

 

Segundo os resultados encontrados na pesquisa do IBGE, a utilização dos serviços de saúde público por pessoas acima de 18 anos pode ter relação com a condição de ocupação e os níveis de rendimento.

Isso porque no País, entre os usuários dos serviços de Atenção Primária à Saúde, 64,7% tinham rendimento domiciliar per capita inferior a um salário mínimo à época, e 32,4% inseriram-se na faixa de 1 a 3 salários mínimos.

Do mesmo modo, sobre a condição de ocupação, isto é, o fato de a pessoa estar ou não trabalhando, parece influenciar também o uso desses serviços. A maioria dos usuários brasileiros era, no momento da entrevista, formada de pessoas não ocupadas (53,8%).

Para professora Magda Almeida, os números reforçam que o uso da atenção primária à saúde ainda é feito principalmente pela população dependente do SUS, o que causa um distanciamento da classe média e alta desse contexto, reduzindo a cobertura universal.

 Atenção Primária à Saúde no Brasil

 

110 milhões de pessoas no Brasil Cadastradas na Atenção Primária à Saúde, conforme o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab) até abril/2020;

17,3 milhões de pessoas no Brasil de 18 anos ou mais que utilizaram algum serviço de Atenção Primária de Saúde (APS) nos seis meses anteriores à pesquisa e mais de um atendimento médico;

60,9% pretos e pardos das pessoas de 18 anos ou mais de idade que utilizaram algum serviço da Atenção Primária de Saúde, nos últimos seis meses antes da data da entrevista;

94,4% das pessoas adultas que fizeram uso dos serviços da APS não tinha plano de saúde, 5,6% tinha plano.