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Brasil
NOTÍCIA

72% dos focos de calor na Amazônia foram registrados em propriedades de médio e grande porte

Os quatro municípios com mais focos de calor também lideram as cidades que mais desmataram em 2019. Os dados são do projeto Cortina de Fumaça, que utiliza informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR)

Júlia Duarte
13:43 | 23/09/2020
Áreas queimadas da floresta amazônica, próximo a Porto Velho, estado de Rondônia, Brasil.   Cidade encabeça lista com mais focos de calor e desmatamento (Foto: CARLOS FABAL / AFP)
Áreas queimadas da floresta amazônica, próximo a Porto Velho, estado de Rondônia, Brasil. Cidade encabeça lista com mais focos de calor e desmatamento (Foto: CARLOS FABAL / AFP)

Propriedades de médio e grande porte concentram a maior parte dos focos de calor registrados nos quatro municípios líderes em fogo e desmatamento em 2019. A análise foi feita com base nos dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que aponta 72% dos focos de calor registrados nesses tipos de propriedades. O restante, 28%, aconteceram em imóveis rurais pequenos (abaixo de 440 hectares). A conclusão é do projeto Cortina de Fumaça, lançado nesta quarta-feira, 23, pela Ambiental Media em parceria com o Pulitzer Center, através do Rainforest Journalism Fund.

Os quatro municípios com mais focos de calor também lideram as cidades que mais desmataram em 2019. São elas: Altamira e São Félix do Xingu, no Pará; Porto Velho, em Rondônia; e Lábrea, no Amazonas, mesmo estado de Apuí, que também aparece nas duas listas, como sexto (focos de calor) e sétimo (desmatamento), segundo o Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inpe).

Tanto o desmatamento quanto os focos de queimadas tiveram aumento. O Sistema Prodes, do Inpe, registra o corte de mais de dez mil quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019, quase o dobro do registrado nos 12 meses anteriores. O cruzamento de dados do Inpe também mostra, unindo os mapas de desmatamento e queimadas, o aumento da ocorrência de focos de calor nas mesmas áreas que sofreram desmatamento. O Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam) apontou que as queimadas associadas ao desmatamento recente respondem por 34% do número de focos de calor por tipo de fogo no bioma Amazônia em 2019.

A crescente ocorrência tem sido registrada também em 2020. Uma nova ferramenta de mapeamento de queimadas desenvolvida pela Nasa, agencia espacial estadunidense, aponta que 54% dos focos de fogo este ano têm origem no desmatamento.

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A pesquisa ressalta justamente esse ponto de encontro entre desmatamento e queimada. "Estes resultados são extremamente relevantes, pois contrapõem a narrativa de representantes do atual governo, que têm sistematicamente responsabilizado os pequenos agricultores das populações tradicionais amazônicas pelos incêndios florestais, versão que não é corroborada pelos dados.[...} nossa ampla apuração demonstra, de maneira clara, que os incêndios recentes na Amazônia guardam profunda relação com a intensificação do desmatamento", afirma os pesquisadores, jornalistas e outros profissionais envolvidos no trabalho.

A análise dos dados desses fenômenos acontecendo em maior concentração em grandes propriedades contraria o que foi apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU na terça-feira, 22. Em relação ao fator de ignição das queimadas, o presidente disse que “o caboclo e o índio queimam seus roçados em área desmatada”. Na realidade, a Polícia Federal investiga cinco fazendeiros responsáveis pelas queimadas no Mato Grosso do Sul.