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Brasil
Memórias de uma vida no crime

Carioca afirma ter participado do sequestro do empresário Abílio Diniz

10:18 | 07/11/2018

Este é o segundo momento da entrevista com Antônio Carlos de Souza Barbosa, o Carioca. Neste trecho ele explica principalmente sua suposta participação no sequestro do empresário Abílio Diniz, ocorrido em 1989. O material segue o formato pergunta-resposta. A conversa é reproduzida quase integralmente. Alguns trechos não compreendidos foram excluídos, mas sem o comprometimento da versão contada. São mantidas incorreções da narrativa, incertezas de tempo, pessoas, lugares ou passagens que tenha ou não participado de fato. A sequência é idêntica à que está na gravação original.

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INÍCIO DA ENTREVISTA:

O POVO – Sobre sua participação no sequestro do empresário Abílio Diniz, por que seu nome não apareceu no processo criminal?

Carioca – Como eu era um militar na época, fui primeiro julgado pela Justiça Federal.

OP – Justiça Militar?

Carioca – É, isso. Quando fui expulso, fui pro Deic. Fiquei na mão do Oscar Matsuo, do Honda e do Batata, que eram os investigadores. Foram os que fizeram a libertação do Abílio Diniz. Eram da Antissequestro, lá em São Paulo. (Nota: O POVO tentou contato com Oscar Matsuo e Honda, hoje aposentados da Polícia Civil, mas não conseguiu localiza-los.)

OP – Você ficou quantos dias preso com eles?

Carioca – Quando eles (sequestradores) foram presos, estavam no cativeiro. Eu tava encarregado de pegar só o dinheiro. Fui pegar ali na (rodovia) Raposo Tavares, na estrada velha de Cotia.

OP – Você pegou quanto em dinheiro? Você que pegou todo o dinheiro?

Carioca – Não, peguei mais ou menos uns 5 milhões de dólares na época. O motorista dele (Abílio Diniz) que fez a entrega pra mim. (Nota: Informações à época apontaram que o sequestro teria sido de 40 milhões de dólares).

OP – Era o combinado?

Carioca – O combinado. Aí quando cheguei no apartamento, na  avenida das Paineiras, em Pinheiros, com as duas malas, questão de mais alguns minutos tive que sair e fui pro quartel. Depois fiquei sabendo que tinham invadido o cativeiro, que a mulher do Juan (um dos sequestradores) tinha sido presa. Por causa de uma nota fiscal da Mesbla – acho que nem tem mais essa loja. Ela tinha comprado um tapete e esquecido a nota fiscal dentro do carro dela, uma Caravan. Ela foi presa e delatou onde estava o cativeiro e foi todo mundo preso. Por que não apareço? Apareço na segunda história. Porque eu fui preso no quartel.

OP – Você servia em qual quartel?

Carioca – Lá na Baixada Santista. No 12º Batalhão, da Aeronáutica. Era Quitaúna. (Nota: Quartéis identificados na região de Quitaúna, em Osasco, pertencem ao Exército - não à Aeronáutica.)

OP – Você estava no serviço militar obrigatório?

Carioca – Não. Faltavam seis meses pra eu sair como oficial. Eu era cadete da Força Aérea Brasileira.

OP – Temporário?

Carioca – Era, temporário. Não era da EPCAr (Escola Preparatória de Cadetes do Ar).

OP – Queria pedir que você falasse mais sobre seu nome não ter aparecido no processo do sequestro do Abílio Diniz.

Carioca – Porque na época o presidente da República era o Figueiredo. Era regime militar (Nota: Na verdade, em 1989, ano do sequestro, o presidente era José Sarney, vice de Tancredo Neves, que falecera em 1985, antes de assumir o mandato, pós-ditadura militar). Então, teve vários tipos de situação que, naquela época, a Justiça Militar varreu pra debaixo do tapete. Por quê? Pra não manchar o nome da corporação. Era uma vergonha muito grande. Colocaram umas camisas. Se você puxar...eu já puxei umas duas vezes (na internet), até aparece eu na foto lá no Deic. Nós fomos obrigados a vestir a camisa do PT, só que o PT não tinha envolvimento nenhum. Não tinha vínculo nenhum com o caso, com nada.

OP – E aquele dia da descoberta do cativeiro foi o da votação do segundo turno da eleição presidencial de 1989.

Carioca – Isso, isso. Que o Ulysses Guimarães fez propaganda na política e tal. Só veio aparecer depois de três pra quatro meses, que eu fui expulso. Fui jogado, como eles falam, nas mãos da Justiça Comum. Aí foi que veio a concluir um novo inquérito, que é a parte dois desse inquérito policial.

OP – Onde está seu inquérito?

Carioca – Ele se encontra no fórum lá de São Paulo, na Barra Funda. (Nota: Assessoria do fórum não localizou nenhum processo associando Antônio Carlos de Souza Barbosa como réu e Abílio Diniz como vítima.)

OP – Você respondeu a um IPM (inquérito policial militar) na Aeronáutica?

Carioca – Fui expulso. Na época, esse caso teve muita repercussão. Eu fui acusado de outro sequestro na época. Foi um sequestro que causou uma polêmica muito grande porque fazia uns oito ou nove meses que tinha acabado o grupo Sendero Luminoso. Os dois que estavam comigo lá, o chileno e o argentino, eles tinham envolvimento diretamente com esse grupo.

OP – Você lembra dos personagens do caso? Nomes?

Carioca – Eu lembro, mas não gosto mais de citar os nomes dessas pessoas. Inclusive tem dois deles lá na (penitenciária) federal. Inclusive até me arrependi depois, de estar citando. Porque é uma entrevista comigo, mas já que está querendo um esclarecimento, pra não ficar um ponto de interrogação, eu vim pra esclarecer. Porque são pessoas que, falando um português mais claro, são completamente milionárias e, se quiserem jogar um míssil numa cadeia dessas, elas têm condições financeiras pra fazer. Então não queria nem mexer com essas pessoas. Porque hoje eu tô noutro mundo. Tô aqui pra esclarecer, mas não quero citar o nome deles.

OP – Você falou que a mulher do Juan havia deixado uma nota fiscal, mas na época foi mostrado que os policiais descobriram o cartão de uma oficina.

Carioca – Mas era uma nota fiscal mesmo, não era o cartão de uma funilaria. É porque ela foi no carro dela numa oficina mecânica e, através da nota fiscal da Mesbla, foi onde que a polícia encontrou.

OP – No carro dela?

Carioca – É.

OP – No carro usado no sequestro, quando os policiais desmontam o veículo, foi encontrado o cartão da oficina. Porque o carro tinha virado uma ambulância.

Carioca – É, isso. Virou ambulância, a Caravan. A nota tava no carro dela. Naquela época, ditadura, a Dops (Departamento de Ordem Política e Social) ainda estava em ação.  Quando levavam um homem pra Dops, pra um cavalete, uma pendura, pra um chamado pau de estrada, você dava até sua mãe. Quer dizer, uma mulher numa situação daquela ali, por mais que ela tivesse envolvimento diretamente com um grupo de sequestradores, ela não ia aguentar uma pendura, um cavalete. Ali, não vou dizer que ela delatou. Simplesmente na base da tortura, eles convenceram ela a falar onde que tava o cativeiro. Tinha uma filhinha dela lá, eles fizeram pressão, aí ela abriu.

OP – Você comentou na conversa anterior sobre o desvio de munição e armamento. Esse material foi comprado pelo grupo de sequestradores?

Carioca – Não é que teve um desvio. Foram algumas vezes que teve retirada de munição. Pra você ser um repórter, tem que estudar. Então, pra mim chegar nessa quadrilha eu tinha que fazer por onde. Eu tinha que mostrar lealdade a eles. Qual era essa lealdade? Eles chegavam pra mim e diziam “tô precisando de umas balas”, antes de praticar qualquer tipo de delito com eles. Aí ia lá e arrumava umas balas pra eles. 

OP – Qual era o calibre?

Carioca – 45. Na época era só o fuzil FAL, era a Beretta.

OP – Você lembra que quantidade chegou a retirar?

Carioca – Cheguei a pegar umas duas caixas de bala.

OP – Você disse que chegou também a pegar fuzil.

Carioca – Era o FAL 762.

OP – Você tirou quantos?

Carioca – Cheguei a pegar uns dois.

OP – Eles usaram os fuzis?

Carioca – Não usaram, não. Porque eles já tinham umas armas, praquela época, evoluídas, modernas. 

OP – Mas eles não usaram esses fuzis no sequestro?

Carioca – Os fuzis não. A munição, sim. Porque era munição de 45 e 762. 

OP – Você conviveu com o Rosélio (Raimundo Rosélio Costa Freire, à época o único brasileiro, entre os dez condenados pelo caso)?

Carioca – (Balança a cabeça confirmando)

OP – Mas teve amizade com ele só durante o sequestro?

Carioca – Foi assim. Eu conheci eles num grupo, tipo num churrasco. A gente fez amizade, na época eu era novo. Tinha uns pensamentos acima da minha capacidade, o dinheiro pra mim era tudo. Fiz aquele laço de amizade...

OP – Você conheceu ele nesse churrasco?

Carioca – O Rosélio, conheci lá em Itapecerica da Serra, numa reunião que teve. Lá no Sítio do Vovô. Era uma mansão que eles tinham alugado, tinha piscina e tudo. Foi no dia que eu realmente conheci todo o grupo, conheci como que era o fundamento deles no Brasil. 

OP – Quando você soube que haveria o sequestro do Abílio Diniz?

Carioca – Foi no momento dessa reunião aí, nesse dia do churrasco. Aí eles falaram “ei, você dirige ambulância?”. Colocamos ambulância, o carro da funerária, que era pra parar na avenida Paulista quando o Abílio Diniz viesse com o carro, o motorista dele, e os seguranças viessem atrás, pra nós pegar ele lá. Aí foi onde que surgiu as ideias já partidas deles. Eles já tinham esse plano faziam alguns meses. 

OP – Você pensou em não topar?

Carioca – Eu perguntei mais alguns detalhes. Como que ia ser, se ia precisar matar alguém, essas coisas. 

OP – Ele te prometeram quanto em dinheiro?

Carioca – Eu vou falar pro senhor. Eles me deram, logo no começo, como a gente usa na nossa linguagem, um cala boca. Me deram 15 mil dólares na época. Pra mim era um monte de dinheiro naquela época. Porque você ia naquela época com um saco de dinheiro comprar um quilo de feijão. Então 15 mil dólares foi muito mais. Aquilo ali já foi uma lavagem cerebral na minha mente.

OP – Você só recebeu esse valor?

Carioca – Isso foi uma lavagem cerebral pra eu participar. “Pega esse dinheiro pra você, vê o que precisa, compra um carro e tal”. 

OP – Depois te deram mais?

Carioca – Não, foram esses US$ 15 mil. Só que a minha participação era que eu conhecia muito a região. E quando a negociação diretamente com a esposa do homem lá, era só pra eu receber o dinheiro. Coloquei na Raposo Tavares uma linha de mais ou menos mil metros, uma mancha de cal na rodovia. Teve uma reportagem sobre essa mancha, que era onde a Mercedes do motorista dele parava, largou as maletas, eu descia numa XLX 250 cilindradas. Peguei as duas maletas, coloquei na moto, subi e fui embora. 

OP – Teve envolvimento de mais gente que também não apareceu na história?

Carioca - Não, aí eu já vou ficar...(risos)

OP – Quem levou você para o churrasco em Itapecerica da Serra?

Carioca – Quem me levou lá foi o Juan, o chileno. Cheguei lá, tava todo mundo, foi onde que conheci o grupo. 

OP – Você conheceu o chileno onde?

Carioca – Eu conheci ele num rodízio de carne. Tava eu e uma namorada minha, nós conversando num rodízio, aí mulher sempre faz amizade mais fácil com outra mulher. Foram no banheiro passar o batom, quando voltaram já foi na amizade. 

OP – Quando você chegou nessa churrascaria, já sabia que grupo era esse?

Carioca – Eu sabia, isso não posso esconder. Que eles eram um grupo, que umas duas ou três vezes eu fui levar...não vou dizer o quê, mas eram umas situações pra levar lá na Casa de Detenção, o Carandiru. Eles tinham muito envolvimento com os presos. Tanto que quando fui preso, tive apoio muito grande. Quando cheguei lá, na época muito novo, tive apoio grande por causa deles. Foram me resgatar lá no Pavilhão 2, chamado Divineia na Casa de Detenção, pra ir direto pro Pavilhão 9. Porque naquela época tinha que ser o cara, pra não dizer bandido, pra ir morar naquele meio.

OP – Você morou junto com o Rosélio no Carandiru?

Carioca – Moramos juntos. Quando houve a greve de 40 dias pra o cearense ser trazido pro Ceará, a gente fez lá no COC (Cadeia de Custódia, em São Paulo). 40 dias de greve de fome. Veio pessoal dos direitos humanos, da ONU. Ele veio para o Ceará, os outros foram para seus países, e eu fiquei lá em São Paulo cumprindo pena. 

OP – Só reafirmando: essa foi sua primeira prisão, pelo sequestro do Abílio Diniz?

Carioca – Minha primeira? Foi.

OP – Todo militar aparece num registro social e, numa consulta que fizemos junto ao serviço militar, seus dados consultados não aparecerão lá como ex-militar. Você lembra de mais alguma informação sobre esse tempo?

Carioca – Você vai ver tudo isso aí em Embu das Artes, interior de São Paulo. (Nota: Carioca chega a dizer que seu nome de guerra era Souza, mas não foi informação suficiente para a confirmação).

OP – Depois que o Rosélio foi transferido, esse grupo lhe deixou de lado?

Carioca – Não. Eles foram transferidos depois da greve de 40 dias. Eu fiquei na penitenciária de São Paulo. Nossa greve de fome causou polêmica e eles alcançaram o objetivo deles. Não sei pra onde o cearense veio aqui (Nota: xadrez da Polícia Federal) porque naquela época não tinha a comunicação que tem hoje. Pelo zapzap, a gente sabe onde a pessoa tá. Antigamente, pra se ter um telefone tinha que ser rico. Eles foram transferidos, mas nós mantinha contato. Através de advogado. Depois o Juan fugiu da Argentina, veio para o Brasil, foi preso. Encontrei ele lá em Presidente Bernardes (SP).

OP – Qual foi sua pena na Justiça Comum, pelo caso do sequestro do Abílio Diniz?

Carioca – 16 anos, oito meses e 27 dias, só que depois caiu (foi reformada).

MAIS SOBRE O CASO GEGÊ/PACA

(Foto: Aurélio Alves/O POVO)
 

OP – A informação do Salve para matar Gegê e Paca foi disparado ainda em outubro?

Carioca – Em outubro eu tava lá na (penitenciária) federal, em Porto Velho. Foi quando surgiu a informação. 

OP – Chegou pra hierarquia da facção?

Carioca – É, chegou pra todo mundo lá, a situação do Gegê do Mangue. Porque eu tinha saído com ele.

OP – Em fevereiro (de 2017)?

Carioca – É. Tava em W2 (penitenciária Presidente Wenceslau 2). Ele saiu na quarta-feira, na sexta eu ganhei a liberdade também. Ele tava sendo acusado pela morte do juiz em Presidente Prudente.

OP – Vocês se encontraram do lado de fora?

Carioca – Não.

OP – Você nunca mais o viu desde então?

Carioca – Depois disso, nunca mais vi não. Apesar de ser poucos dias também. Fiquei na zona sul, em São Paulo, depois vim aqui pra Fortaleza.

ARREPENDIMENTO PELA VIDA NO CRIME?

OP – Você se arrepende do que fez e acabou vivendo?

Carioca – Falar pro senhor, com toda sinceridade, me arrependo muito. De verdade mesmo. Tanto que hoje já procurei outro caminho. Eu respeito todas as facções que têm aí, mas eu não quero mais essa vida. Tanto que eu tô ali na rua dos irmãos, rua 3 (no IPPOO 2), já no objetivo de uma mudança de vida. Porque em outubro vou fazer 51 anos. Quer dizer, vivi a maior parte da minha vida dentro de uma cadeia. Indo pra 32 anos eu dentro de um presídio. Todas as penitenciárias do estado de São Paulo eu passei.  Porque eu não conhecia um amor verdadeiro, que é o de Jesus Cristo. Conhecia o amor do mundo, que era matar, roubar, destruir. Só tinha pensamento nisso.

OP – Era a adrenalina?

Carioca – A adrenalina é passageira. Na hora você tá ali contando uns quatro, cinco malotes de dinheiro, aí você tá feliz. Mas quando perde tudo e vem parar aqui dentro, você olha...

OP – Seus parceiros estão sempre atrás de lhe chamar de novo?

Carioca – Aqui mesmo já me chamaram, “vem pra cá”, mas eu tô me isolando na rua 3. “Vou mandar advogado”, mas eu não quero mais não. Tô fora disso aí.

OP - Você conseguiu se desligar da Sintonia Geral do PCC?

Carioca – Eu não me desliguei. É que no Primeiro Comando da Capital tem umas normas. Quando você sai do crime e vem pra uma igreja, como eu vim pra rua dos irmãos, fica uma “obs” e um ponto de interrogação na minha vida. Fico na observação. Eles vão analisar se realmente eu tô ali servindo a Deus. Mas se surgir qualquer tipo de situação com meu nome, eu envolvido com o crime novamente, com certeza eu sou decretado no automático. Só que não me desliguei ainda completamente deles. Porque pra isso eu tenho que sair do Olavo 2, pegar um zapzap desses, entrar em contato com eles e falar que pra mim chega. E por enquanto ainda consta.

OP – Mas você continua...

Carioca – Dando ordem? Não, não. Tô fora de tudo. O crime pra mim hoje já era. Quem quiser continua, continue. Eu tô fora.

CLáUDIO RIBEIRO | DEMITRI TúLIO

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