Torcedor cego do Fortaleza narra jogos do clube e faz "profecia" de título na Sul-Americana
Em suas narrações, uma nova perspectiva foi dada aos torcedores do Fortaleza que acompanham as jornadas esportivas
Um pequeno rádio à pilha, o microfone na casa de um grande amigo e uma camisa do Fortaleza são os companheiros inseparáveis de Edmílson Barbosa, narrador de 27 anos que faz parte do portal “Fala Tricolor”. Encantado pelas frequências radiofônicas desde mais novo, quando acompanhava o escrete vermelho-azul-branco por vozes marcantes da crônica esportiva cearense, Edmílson encontrou uma forma de unir suas duas paixões.
Em suas narrações, uma nova perspectiva foi dada aos torcedores do Fortaleza que acompanham as jornadas esportivas. Edmílson é uma pessoa com deficiência visual – nasceu sem a visão de um olho e perdeu a do outro após um ocorrido aos 11 anos de idade –, que escuta outras rádios e transforma o que escuta na sua própria forma de passar emoção, que em grande parte das vezes envolve sua irreverência característica, novos bordões que tenta emplacar e até mesmo cômicas imitações.
É + que streaming. É arte, cultura e história.
Mesmo sendo fã de carteirinha e impressionando a todos ao descrever boa parte da programação local de diferentes rádios, não somente a esportiva, Edmílson admite que não sonhava em ser narrador durante sua infância no bairro Panamericano. Pelo contrário, a situação foi uma surpresa positiva para ele, que agora participa de todos os jogos do Fortaleza e ainda realiza lives diárias no portal.
“Falo sempre que sou encantado pela rádio, daqueles que passam o dia ouvindo, mas eu nunca quis ser narrador. Nunca pensei, apenas admirava os profissionais. A gente precisava de um para transmitir os jogos. Muitos canais da mídia alternativa do Fortaleza passaram a transmitir jogos e a gente tinha que tentar também. Aceitei o desafio”, contou.
Na frequência em que pulsa o peito
Um domingo de jogo do Brasileirão, uma emoção diferente a cada rodada que passa, mas um sentimento comum de nostalgia pelas rodadas que se acompanha na infância. Quando jovem, aos oito anos, Edmílson já tinha forte relação com o rádio. Segundo ele, desde aquela época, mesmo que ainda pudesse assistir, não tinha TV à cabo para acompanhar o Fortaleza, por isso, sempre teve mais envolvimento com antenas, frequências e pilhas.
Hoje, o adulto segue com o sentimento da criança pelo objeto que transmite as “frequências na batida do coração”, como brincou dizendo, e pelo futebol.
Em mais um domingo de Brasileirão, quando o jogo estava marcado às 18h30min, Edmilson chegou à casa de seu amigo Charles logo cedo. Viveu mais um dia de Brasil. A simplicidade nos detalhes, um “não repara na bagunça”, uma saborosa feijoada no almoço e debates empolgantes com seu colega até o momento da transmissão.
Seu amigo, Charles Bandeira, que não perde a oportunidade ao dizer o quanto o público gosta de Edmílson, criou o portal Fala Tricolor há dois anos por puro amor ao esporte e, principalmente, ao Fortaleza. Segundo ele, muitas vezes acaba pagando para trabalhar, mas que não deixa aquilo de lado, pois gosta muito e "funciona como uma terapia". As transmissões foram idealizadas um ano depois da criação.
“O Portal Fala Tricolor é uma família, o idealizador Charles Bandeira é como um irmão para mim há muito tempo. É uma bancada recheada de grandes tricolores. A convivência é a melhor possível. A gente ainda não é muito conhecido, mas esperamos que a galera da torcida do Fortaleza conheça nosso trabalho, que é muito bacana”, disse Edmílson.
“Pude juntar as paixões e tudo mudou quando tive uma oportunidade em um canal de torcida: ‘A voz da fiel’ do Emanuel Magalhães. Depois, o Charles Bandeira criou o canal [Fala Tricolor] e eu participava das lives comentando jogos do Fortaleza”, completou.
Referências e bordões: “tem festa”, mas é tricolor
Costumeiramente, em suas transmissões, Edmílson costuma ouvir a Rádio O POVO CBN e cultiva grande carinho pelos narradores Alessandro Oliveira e Luiê Góis, frequentes nas transmissões. Para ele, a técnica de rádio deles é um grande diferencial que lhe inspira e, por isso, também toma como referência.
“Eu escuto a Rádio O POVO CBN, gosto muito de ouvir as narrações do Liuê e do Alessandro. Eles tem uma maneira de narrar e eu passo a minha. O Alessandro usa o bordão ‘tem festa’ no gol, eu já não faço isso, vou no ‘gol’ mesmo e estico com ‘é do Tricolor de Aço’, sempre uso o ‘de torcedor para torcedor’ pois é o que somos”, detalhou.
“Eu lancei uma coisa também, um bordão. Eu gosto muito do jogador Kervin Andrade, do Fortaleza. Então sempre falo ‘toca no Kervin que é gol’. Quero sempre criar um novo bordão, ainda estou encontrando os meus”, continuou.
Ele entende que o bordão faz parte do narrador. Com isso, tem buscado novos e nunca deixa de fazer suas singularidades. Entre o público que acompanha, as imitações dele são o sucesso do portal. Desde o saudoso Alan Neto, o Trem Bala, até o zagueiro Titi do Fortaleza são lembrados por ele em suas brincadeiras durante os programas.
Início com dificuldades, mas promissor
Como dito pelo mesmo, ele não tinha o sonho de ser narrador, mas topou o desafio e tem gostado bastante da experiência. Ao longo das narrações, tem aprendido com as falhas, as próprias tentativas, conselhos de amigos e até mesmo com os comentários.
“Confesso que eu não gostei muito da minha primeira narração. Com o tempo eu fui melhorando um pouco. Ainda não é uma coisa espetacular, mas graças a Deus vem dando certo. Está com menos de um ano que a gente tá com esse projeto. De narração em narração a gente vai aprendendo e melhorando as coisas. Cada narração é um aprendizado”, contou.
Sobre a rotina de narração, Edmílson conta que é desafiador, mas que gosta da velocidade em que tem que trabalhar, da adrenalina e da emoção que tem conseguido passar.
“Eu tenho que ser sempre rápido: eu estou ouvindo outro narrador, então eu tenho que passar, com emoção, para quem tá acompanhando nossa live, o que está acontecendo no jogo. Eu não copio o que o outro narrador está falando, coloco no meu estilo, gosto de ser bem divertido também”, relatou.
Em torno da ética que busca em sua narração, tenta sempre ser respeitoso com os adversários, mas diz que não se pode esperar parcialidade, pois narra para aos torcedores do Tricolor, com a emoção transbordando de seu peito à garganta.
“Eu puxo a sardinha para o Fortaleza. Se for um Clássico-Rei, eu não vou gritar o gol do Ceará com muita emoção. Sempre respeitando o adversário, mas tenho que fazer da minha maneira. Sempre falo que o futebol é a maior paixão brasileira. Com todo respeito às outras modalidades, mas o futebol é fora de série. Estamos em um país pentacampeão do mundo, então não é para menos. Envolve uma série de sentimentos. Transmito eles da minha forma”, explicou.
Sonho de narrar o título tricolor na Copa Sul-Americana
Após o escrete vermelho-azul-e-branco ser derrotado nas penalidades na final da Copa Sul-Americana de 2023, quando enfrentou a LDU, Edmílson enfrentou a frustração passada por todos os torcedores do Fortaleza naquele momento. Para 2024, o narrador sonha com um final diferente, que já tem desenhado em sua mente e às vezes passeia até em seus sonhos.
Para ele, o herói tricolor será um personagem já marcante na história do Fortaleza: o capitão Tinga. Em sua “profecia”, como brinca ao se referir, imagina um cenário difícil. Em sua narração prévia, que simulou para a reportagem do O POVO, Edmílson desenhou um cenário de 0 a 0 até que Tinga marca o único gol do jogo e depois ergue a taça para o Leão do Pici.
Em sua imaginação, não coloca um adversário, sonha apenas com a camisa tricolor em campo e saindo campeã. Contudo, fala que teria um “gostinho a mais” em uma revanche ante equipe equatoriana.
Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente