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Futebol
Opiniao

Plano de vacinar jogadores mostra que o mundo perdeu o desafio civilizatório da pandemia

Atuando como estado paralelo, Conmebol articula compra de 50 mil imunizantes da CoronaVac para destinar a seleções e atletas de clubes em competições internacionais

André Bloc
18:08 | 13/04/2021
Alejandro Domínguez, o atual presidente da Conmebol  (Foto: Norberto Duarte/AFP)
Alejandro Domínguez, o atual presidente da Conmebol (Foto: Norberto Duarte/AFP)

A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) articulou, junto à empresa chinesa Sinovac, a doação de remessa de 50 mil vacinas para seleções e clubes que disputam competições continentais. Esse é o fato, é o ponto de partida para uma série de perguntas sem respostas.

E a primeira delas é de quem foi a ideia de priorizar jogadores de futebol — com histórico de atleta, diriam os levianos — em meio a uma pandemia que virtualmente parou o mundo?

Enquanto o mundo discute retomada e pausas nos planos de normalidade, o Brasil se acostumou a 4 mil mortos por dia. Eu mesmo perdi um tio, como milhões de brasileiros. Nesse contexto, o escárnio fica ainda mais escancarado. Existem idosos sem vacina. Existem pessoas com comorbidades. Professores, de quem depende o futuro de cada criança. Policiais, que, em tese, se expõem diariamente ao risco pela segurança (sanitária e social) da população. Até eu existo, conformado com o fim da fila que a saúde me permite. Mais de 350 mil pessoas só no Brasil não viveram o suficiente para serem imunizados.

Durante toda a pandemia, o futebol parece que tentou impor a força financeira à revelia do ridículo. O que mais justifica as dezenas de mudanças de jogos, marcações e remarcações de voos interestaduais, para que duas dezenas de jogadores tentassem marcar um gol? O Ferroviário ia jogar com o Porto Velho em Rondônia, um esforço hercúleo durante a crise sanitária para uma partida única. Governo de lá proibiu, jogo foi para Goiânia (GO). Os dois times chegam ao Centro-Oeste e a partida é vetada. E lá se vão viagem de volta e novo trajeto de ida, desta vez para Volta Redonda (RJ). Opa, não pode? Então vamos para a capital fluminense. Não deu? Então se manda para Duque de Caxias. Quantos trajetos absolutamente inúteis o elenco dos dois times precisaram fazer?

Clubes e jogadores são só parte dessa cadeia produtiva. Precisam acatar, tal qual empresas tentam sobreviver com pouco ou nenhum apoio de entes governamentais. Se a condição para jogar for a vacina, ninguém tem como rejeitar — ainda que seja moralmente questionável.

Ainda falta muito para o tal plano da Conmebol fazer sentido. Tanto na prática quanto figurativamente. A articulação envolve, inclusive, doação do Governo do Uruguai, o que faz zero sentido num país que ainda tem 75% da população a ainda ser vacinada. Para além disso, existem protocolos que obrigam doação de doses ao Sistema Único de Saúde (SUS) — com ajustes à realidade de cada país —, existem predicados sobre jogo limpo entre equipes (um time de vacinados ganha quase um doping em relação aos rivais). Eu apelaria para o bom senso, mas esse barco já partiu. 

O que a questão atual escancara é que parece que todo mundo está buscando um privilégio para chamar de seu. Vivemos uma escassez de vacinas. Uma dose para pessoa x é uma chance e menos para y. É um desafio civilizatório de abnegação. Perdemos esse jogo faz muito tempo.