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Caçadores de odor: o longo caminho para recuperar o olfato após a covid

Na Espanha, pelo menos meio milhão de espanhóis ainda não recuperaram o olfato, conforme dados de uma Clínica do Olfato
09:06 | Out. 28, 2021
Autor AFP
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AFP Jornal
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Tipo Notícia

Às vezes, Encarna Oviedo vai às compras para ver se sente cheiros. Também toma banho mais do que de costume e, quando a filha vem vê-la, imediatamente pergunta: "A casa está cheirando bem?"

 

Ela não sabe por que há mais de um ano perdeu o olfato por Covid-19 e, como milhares de pacientes, ainda luta para recuperá-lo.

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A mulher de 66 anos vive perto de Terrassa, a noroeste de Barcelona, e foi uma das muitas espanholas que contraíram o vírus na agressiva primeira onda de 2020. Com um país assustado e centenas de mortes por dia, ter uma forma leve da doença era sorte e a perda do olfato um pequeno detalhe, também para os médicos saturados.

 

Com o tempo, as vacinas foram ganhando terreno, mas pelo menos meio milhão de espanhóis ainda não recuperaram o olfato, segundo cálculos do Dr. Joaquim Mullol, diretor da Clínica do Olfato do Hospital Clínic de Barcelona, e um dos poucos especialistas que estavam no país antes da pandemia.

 

"A perda do olfato ocorre em aproximadamente 70% dos pacientes com Covid", explica. A maioria se recupera totalmente nas semanas seguintes, mas um quarto ainda tem problemas.

 

"De muitos nunca saberemos, porque não consultam o médico", aponta.

 

A notícia também não é muito animadora para quem vai ao especialista com expectativa de recuperação rápida: o único tratamento que tem mostrado alguma eficácia é o treinamento olfativo.

 

Reabilitação 

 

O aumento de casos provocados pela pandemia levou o Hospital Mutua Terrassa, a 30 quilômetros de Barcelona, a criar uma Unidade de Olfato em fevereiro, como aconteceu em muitos centros.

 

Desde então, cerca de 90 pacientes passaram por lá, a maioria com Covid persistente. Após uma primeira avaliação médica, iniciam uma reabilitação na qual, uma vez por semana, durante quatro meses, vão ao centro para identificar odores com um terapeuta.

 

No final, voltam a consultar o otorrinolaringologista e fazem novo exame para ver a evolução.

 

"Mel, baunilha, chocolate ou canela?", pergunta o médico a Encarna enquanto lhe entrega um dos 48 cilindros aromáticos não identificados que compõem um dos testes.

 

"Baunilha?", fala pouco convencida.

 

Cristina Valdivia também foi infectada com covid naquele confuso mês de março de 2020. Ela teve uma forma leve da doença e perdeu o olfato por três meses. Até que, de repente, voltou a sentir cheiros, mas mal.

 

"Comecei a sentir o cheiro constante de queimado, como se meu nariz estivesse enfiado em uma frigideira", lembra a mulher de 47 anos de sua casa em Barcelona.

 

Após meses de angústia, e a passagem por vários otorrinolaringologistas até chegar ao Hospital Clínic, explicaram-lhe que sofria de parosmia, uma percepção distorcida do olfato.

 

A boa notícia é que esse tipo de reconexão errônea geralmente ocorre em pacientes que estão em processo de recuperação e a má notícia é que não há outra ajuda além da reabilitação e paciência.

 

Duas vezes por dia, Cristina abre sua mala com seis latas de diferentes aromas e fica cerca de 20 segundos concentrada inalando cada uma para tentar regenerar suas conexões olfativas.

 

Alguns, como os cítricos, parecem estar aparecendo, mas outros são especialmente resistentes.

 

"O café é horrível, é uma mistura de gasolina, algo podre...", diz.

 

Desconectados 

 

Muitas vezes o mais discreto dos sentidos, a vida sem olfato é mais complicada do que parece.

 

"No começo foi horrível. Passava os dias chorando", lembra Cristina, que ainda não sente o cheiro do filho e cuja vida se alterou até no mais íntimo: "Por exemplo, abraço minha sogra, minha mãe e o cheiro é horrível (...) É difícil administrar isso", descreve.

 

Paciente com fibromialgia, que foi obrigada a parar de trabalhar por muito tempo, seus anos de terapia a ajudaram a suportar um processo em que se sente muito sozinha.

 

"Com o olfato sentimos tudo o que comemos, o que bebemos. Interagimos com o exterior", explica o Dr. Mullol.

 

"Além disso, sentimos cheiros de coisas nocivas que podem ser perigosas, como gases, comida estragada. Tudo isso se perde e a pessoa se desconecta do mundo", alerta sobre alguns pacientes que podem sofrer depressão ou emagrecimento abrupto.

 

Cansada de não sentir o gosto da comida, Encarna diz que ultimamente tem menos vontade de comer, mas não perde a esperança de que isso acabe logo.

 

"Vamos ver se eu levanto um dia de manhã e, olha, já estou sentindo cheiros", suspira.


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