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Coronavírus
Noticia

Hospital usa jogos de palavras para diminuir ansiedade de pacientes

A iniciativa surgiu a partir de uma equipe multidisciplinar e pode ajudar pacientes de outras unidades. Ideia também poderá virar pesquisa científica

Júlia Duarte
13:45 | 03/05/2021
A equipe se preocupou com o nível de ansiedade dos pacientes internados e decidiu criar atividades envolvendo jogos de palavras (Foto: Arquivo Pessoal)
A equipe se preocupou com o nível de ansiedade dos pacientes internados e decidiu criar atividades envolvendo jogos de palavras (Foto: Arquivo Pessoal)

Passando por mais uma onda de Covid-19, Fortaleza viu nas últimas semanas um alívio, ainda pequeno, no número de casos e internações pela doença. Mesmo assim, já são 19.668  mortes em decorrência da doença até esta quinta-feira, 20. Cada paciente recuperado que deixa o hospital é celebrado. Cada dia importa, e não só a cura física é importante, mas também a recuperação mental. Foi pensando nisso que um grupo de psicólogas residentes do Hospital São José desenvolveu uma série de atividades ocupacionais para os pacientes internados. Uma delas consiste em um caderno de atividades.

No material, são desenvolvidas diversas brincadeiras, como caça-palavras e cruzadinhas, para manter os pacientes  mais dispostos. Isso porque, segundo as responsáveis pelo projeto, Aiala de Melo, Kelly Cristine, Mayara Braga e Eliara Gomes - residentes de Psicologia da Residência Multiprofissional da unidade-, alguns pacientes ficam ansiosos quando internados, seja pela saudade da família, seja pela solidão e o desejo de receber alta.

“Todos nós estamos vivendo um momento difícil, e esse período de internação em isolamento e sem contato com a sua família pode despertar todos os tipos de sentimentos e até mesmo lhe assustar um pouco”, explica o material que é entregue aos pacientes pelo Serviço de Psicologia Hospitalar da unidade, referência no tratamento de doenças infecciosas.

 

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O caderno de atividades é destinado a pacientes em estágio mais leve da doença após uma avaliação da equipe multidisciplinar, que considera se a pessoa pode se mexer, enxergar e compreender bem. A equipe destaca que, como há o atendimento de uma diversidade de pessoas, o nível de escolaridade também é considerado, para que haja uma inclusão. O projeto começou com dois pacientes que estavam bem estabelecidos, mas que ainda não podiam ter alta.

Aiala conta que era possível observar neles um nível de ansiedade muito grande pela alta hospitalar, bem como um sentimento de ócio. “Eles têm uma rotina bem intensa nesses ambientes hospitalares, 24 horas parados, com medicação, procedimentos invasivos”, explica a residente. Com o tempo, os pacientes foram recebendo uma atividade por vez, até que as residentes resolveram projetar os exercícios em uma quantidade maior. E o resultado tem sido positivo, os pacientes apresentam melhoras e conseguem relaxar.

O caderno conta ainda com um espaço em branco para que os pacientes expressem como se sentem. E isso também funciona como método de avaliação e acolhimento, é uma forma de os profissionais conhecerem mais cada um dos internados, para além do que é falado nos atendimentos.

Rotina solitária


“O paciente perde um pouco dessa subjetividade e passa a ser apenas um ‘paciente’, e a psicologia (hospitalar) entra com este olhar de que ali não é só um paciente, mas um sujeito que tem uma história, que tem gostos e vivências”, explica a residente Aiala de Melo. Eles também sentem saudade dos familiares, que não podem visitá-los pessoalmente por causa do risco de infecção. A partir daí, a unidade precisou criar um plano de estratégias baseadas na tecnologia para que os pacientes, até mesmo os que estão intubados, possam escutar as vozes dos familiares.

“A gente usa muito áudios quando o paciente está intubado. Todos os dias nós vamos nos leitos e colocamos para os pacientes ouvirem”, comenta Kelly Cristina. Ela ressalta que isso gera estímulos positivos nos doentes, além de acalmar, pelo menos um pouco, quem precisa acompanhar um ente querido de casa.

Pesquisa científica

“Eles mesmos conseguem avaliar esse processo de diminuição da ansiedade. Um dos pacientes comentou que já fazia cruzadas em casa, quando ele viu essa possibilidade ficou emocionado”, disse Cristina. “É a história de vida dele, a questão da humanização que a psicologia traz muito para esse ambiente hospitalar. Muitas vezes, o paciente é visto apenas como o número do leito, e trazemos esse outro olhar para que ele não perca sua identidade”, reforça Mayara Braga.

A iniciativa deverá ajudar pacientes de outras unidades, isso porque o grupo já entrou com um pedido no Conselho de Ética da unidade para transformar o projeto em pesquisa científica. “A gente tenta aliar a prática à teoria, estamos com o projeto do caça-palavras com a intenção extra de pesquisa”, completa Aiala de Melo. Ela deixa como mensagem a importância da psicologia para o cuidado da saúde mental dentro das unidades hospitalares.