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Coronavírus
NOTÍCIA

Veja como são os ensaios clínicos das vacinas contra a Covid-19

Os participantes se inscrevem como voluntários e, se aceitos, recebem duas doses com intervalo de três semanas, enquanto são monitorados regularmente.

08:24 | 19/11/2020
Ensaios clínicos pra testar as vacinas são conduzidos com dezenas de milhares de voluntários (Foto: JUSTIN TALLIS / AFP)
Ensaios clínicos pra testar as vacinas são conduzidos com dezenas de milhares de voluntários (Foto: JUSTIN TALLIS / AFP)

Para testar a eficácia e segurança das vacinas experimentais contra a Covid-19, os ensaios clínicos são conduzidos com dezenas de milhares de voluntários, geralmente divididos ao meio entre um grupo que recebe placebo e um grupo tratado.

Este é o caso dos ensaios da Pfizer/BioNTech e da Moderna, que relataram recentemente uma eficácia muito elevada de suas vacinas.

O grupo norte-americano Pfizer conduz e financia o ensaio clínico de sua própria vacina em 44.000 pessoas nos Estados Unidos, no Brasil, na Alemanha, na África do Sul e na Turquia.

Os participantes se inscrevem como voluntários e, se aceitos, recebem duas doses com intervalo de três semanas, enquanto são monitorados regularmente.

A Moderna está conduzindo seu teste em parceria com o National Institutes of Health (NIH), a maior organização pública de pesquisa dos Estados Unidos, que co-financia o estudo e desenvolveu a vacina em conjunto, também em duas doses, com intervalo de quatro semanas. O ensaio clínico acontece apenas nos Estados Unidos, com 30.000 voluntários.

Não. A enfermeira que aplica a injeção também não sabe. O placebo é um soro fisiológico simples (solução salina), sem nenhum efeito terapêutico.

Todos os voluntários nos ensaios continuam suas vidas normalmente: após as injeções, eles vão para casa, trabalham, estudam e vivem como todos, com as mesmas recomendações de cuidado, confinamento e uso de máscara que o resto da população.

Com o tempo, vários participantes pegarão Covid-19 espontaneamente. Isso se saberá porque eles devem relatar periodicamente seus sintomas aos pesquisadores e quaisquer casos suspeitos serão diagnosticados.

Se a vacina for eficaz, o número de casos no grupo de participantes que recebeu a vacina real será menor do que na outra metade, que recebeu apenas o placebo. O objetivo é que a diferença seja significativa o suficiente para descartar que seja fruto do acaso.

Métodos estatísticos entram em ação para atingir um nível predeterminado de certeza. Uma eficácia de 100% significaria que não houve casos entre os vacinados e houve vários no grupo de placebo.

É preciso lembrar que o objetivo principal da vacina não é prevenir o contágio pelo coronavírus, mas sim evitar que as pessoas desenvolvam a doença causada pelo vírus, ou seja, a Covid-19.

Será considerado particularmente eficaz se, além disso, prevenir formas graves de Covid-19.

A ideia é que, se uma vacina prevenir o adoecimento, a meta de saúde pública será alcançada, mesmo que as formas assintomáticas continuem a se espalhar.

Não. Observa-se simplesmente se, "na vida real", há uma diferença na incidência de Covid-19 entre as pessoas que foram vacinadas e as que não foram.

Como a doença não tem uma cura 100% eficaz, seria antiético infectar pessoas deliberadamente com o coronavírus, embora alguns pesquisadores tenham proposto fazer isso em pessoas jovens e saudáveis.

Se 10.000 pessoas vacinadas fossem acompanhadas e 100 adoecessem com Covid-19, como saberíamos o grau de eficácia da vacina? Poderia ser que sem a vacina houvesse o mesmo número de pacientes, ou duas, ou dez vezes mais.

A única forma de determinar a eficácia é comparar o grupo vacinado com um número equivalente de pessoas não vacinadas, ou seja, com um grupo placebo.

Com uma amostra muito grande de dezenas de milhares de pessoas, representativas da população, é quase certo que os dois grupos terão a mesma diversidade de perfis e comportamentos, o que permite a sua comparação.

Na verdade, não há razão para que todos os jovens adultos de um grupo, por exemplo, se recusem a usar máscara, assim como não há razão para que os do outro grupo façam isso. Principalmente porque cada um deles não sabe se recebeu o placebo ou a vacina.

Não são as empresas que analisam os dados diretamente, mas os comitês de especialistas independentes, muitas vezes chamados de "conselho de monitoramento de dados e segurança" (DSMB), e cujos membros permanecem anônimos para que fiquem protegidos de qualquer pressão política.

No caso da Pfizer, esse comitê é composto por cinco pessoas. No caso da Moderna, AstraZeneca/Oxford e Johnson & Johnson, os National Institutes of Health criaram um comitê único de especialistas independentes, com 10 a 15 membros, de acordo com a Kaiser Health News.

Em intervalos regulares previstos nos protocolos do ensaio, esses comitês analisam os dados coletados para ver a quais grupos os participantes pertencem.

Eles podem então informar o fabricante no caso de resultados conclusivos, e o fabricante pode usar os dados para solicitar ou não uma autorização de introdução no mercado.

Além da eficácia, os comitês monitoram de perto a segurança. Eles analisam a gravidade e a frequência dos efeitos colaterais, o que determinará se o produto deve ser autorizado ou não.

A Pfizer relatou a observação de 170 casos de Covid-19 em sete dias após a segunda dose, o que parece pequeno em comparação com o número total de participantes (44.000).

Estatisticamente, esse resultado é suficiente. Na verdade, 162 casos foram encontrados no grupo placebo e apenas 8 no grupo vacinado. A diferença é tão grande que é extremamente improvável que seja um acaso.

A eficácia calculada de 95% significa que as pessoas vacinadas tinham 95% menos probabilidade de contrair Covid-19 em comparação às pessoas não vacinadas.

Este é o grande dilema ético. Geralmente, quando um medicamento ou vacina é eficaz, os participantes que receberam o placebo são informados de que receberam o placebo e o produto real lhes é oferecido.

Em todo caso, nada impede que os participantes com dúvidas possam ir a um posto de saúde, de forma independente, se vacinar.

O problema é que os ensaios devem durar dois anos ou mais, a fim de determinar a duração da proteção conferida pela vacina e estar atentos ao aparecimento de efeitos colaterais de longo prazo.

No momento, as autoridades sanitárias, questionadas pelos fabricantes, não fizeram recomendação para solucionar o problema.