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Coronavírus
NOTÍCIA

Entenda o que é Síndrome de Guillain-Barré, doença observada em alguns infectados por Covid-19

A doença autoimune é rara e não necessariamente aumentará junto com a Covid-19; até o momento, ela só está sendo mais observada pelo alto número de casos mundiais

Catalina Leite
13:11 | 19/05/2020

O mundo já registra 4.696.849 casos confirmados de Covid-19, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualizados às 4h56min desta terça-feira, 19. Assim, a pandemia do novo coronavírus mobiliza profissionais de saúde e pesquisadores de 188 países e regiões que, com a quantidade de casos a analisar, conseguem identificar mais facilmente manifestações raras, geralmente despercebidas em doenças controladas.

Uma dessas é a Síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que ataca os nervos. Ela foi relacionada à Covid-19 pela primeira vez em uma idosa chinesa de 61 anos, no dia 23 de janeiro deste ano, que estava em Wuhan durante o surto de Sars-Cov-2. Ela sentia “fraqueza aguda nas duas pernas e fadiga severa”, que progrediram em apenas um dia, descrevem médicos chineses em artigo publicado no dia 1º de abril na revista científica The Lancet Neurology

Já no dia 17 de abril, médicos italianos publicaram artigo no periódico científico New England Journal of Medicine, descrevendo a Síndrome de Guillain-Barré em cinco pacientes positivos para Covid-19. Eles foram atendidos em três hospitais diferentes da Itália, que admitiram cerca de mil a 1,2 mil pessoas com o novo coronavírus dos dias 28 de fevereiro a 21 de março.

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Apesar dos casos descritos, é importante ressaltar que isso não significa uma relação direta entre o aumento da síndrome e a Covid-19. O neurologista infantil André Luiz Pessoa reforça que até gripes comuns podem provocar a doença rara, mas não estão realmente interligados. “O Sars-Cov-2 muito provavelmente não aumenta a Guillain-Barré. Temos muitos artigos [descritivos] publicados, mas isso não diz muito”, afirma.

O que é e o que causa?

A maioria dos casos ocorre após infecções agudas causadas por vírus, bactérias e até parasitas. O neurologista André Luiz Pessoa menciona a relação que a síndrome teve com as arboviroses zika vírus e chikungunya, pelas quais registrou-se, sim, aumento da doença autoimune. Ainda assim, é considerada pelo Ministério da Saúde como uma doença rara, já que a incidência anual é de 1-4 casos por 100 mil habitantes.

A síndrome é uma espécie de resposta imunológica confusa a agentes infecciosos. “Você pega uma virose, por exemplo, e o teu sistema imunológico vai defender [o corpo]. Mas ele acaba confundindo o vírus com o anticorpo, que geralmente parece com a proteína do nervo periférico”, explica o neurologista. Por isso, além de afetar o vírus, o sistema também ataca o próprio indivíduo ao atingir a bainha de mielina que reveste os nervos periféricos (que conectam a cabeça ao cérebro e a medula espinhal ao resto do corpo).

A bainha de mielina é uma camada de gordura que envolve e protege o corpo dos nervos. Quando ela é destruída, no caso da Guillain-Barré, desenvolvem-se sintomas de fraqueza muscular e coceira, queimação ou dormência que costumeiramente começam nas pernas e vão subindo.

Essa fraqueza pode atingir o tronco, braços, pescoço e afetar músculos da face, provocando perdas motoras e até paralisia. Inclusive, quando os músculos da respiração e da face são afetados, os pacientes necessitam de ventilação mecânica para o tratamento da insuficiência respiratória. “Esse quadro pode ser muito grave, porque além da fraqueza você tem insuficiência respiratória, dificuldade para deglutir, pode ter alterações da pressão arterial e outras complicações neurológicas”, alerta André.

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Tratamento

A doença autoimune costuma evoluir rapidamente e, após o pico, regredir devagar. Conforme o neurologista, a Guillain-Barré geralmente precisa entrar em estabilidade dentro de 30 dias. Após esse período, a doença é provavelmente crônica e deixará sequelas.

O tratamento envolve ou o uso de imunoglobulina ou plasmaférese, uma técnica que permite filtrar o plasma do sangue do paciente. Além disso, a fisioterapia é fundamental para a recuperação das partes respiratórias, de postura e fala.