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Coronavírus
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Manaus vive caos sanitário por casos de Covid-19

Falta pessoal médico, alguns hospitais armazenam corpos em caminhões frigoríficos e os cemitérios começam a abrir valas comuns para atender a uma demanda crescente

18:23 | 22/04/2020
Vista aérea de valas comuns sendo construídas em Manaus, capital do Amazonas
Vista aérea de valas comuns sendo construídas em Manaus, capital do Amazonas (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

A cidade de Manaus vive um caos sanitário provocado pelo novo coronavírus: falta pessoal médico, alguns hospitais armazenam corpos em caminhões frigoríficos e os cemitérios começam a abrir valas comuns para atender a uma demanda crescente.

"É um quadro em vida de um filme de horror. O estado não é de emergência, é de estado de calamidade absoluta", descreve o prefeito da capital do Amazonas, Arthur Virgílio Neto, em entrevista por telefone à AFP.

Em Manaus morriam em média entre 20 e 30 pessoas diariamente, mas este número subiu para mais de cem por dia e colapsou o deficitário sistema de saúde em plena pandemia da COVID-19, que já chega às longínquas comunidades indígenas deste estado de 1,5 milhão de km2.

"Temos pessoas morrendo em casa (...) Morreram, talvez, porque não tiveram assistência" médica, acrescentou o prefeito, que suspeita que "no fundo foi a COVID-19" a causadora destes óbitos. O Amazonas é o quinto estado mais afetado pela pandemia, com 2.479 contágios e 207 mortes até a terça-feira, mas Manaus, com 1,7 milhão de habitantes, registra a maior taxa de mortalidade por COVID-27 das 27 capitais.

O Brasil é o país da América Latina com o maior número de mortes (mais de 2.900) e contágios (mais de 45.000) pelo novo coronavírus. Números que, segundo especialistas, podem ser até 15 vezes maiores e não refletem a realidade devido à falta de testes de detecção para a COVID-19.

Escalada

O aumento dos casos da doença no Manaus empurrou para o abismo as unidades hospitalares, que instalaram câmaras frigoríficas em caminhões para conservar os cadáveres. Nos arredores do hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, referência para casos de coronavírus na capital amazonense, Rita Alencar espera que alguém lhe diga se pode levar o corpo de sua avó para sepultar.

"Ainda não apareceu nenhuma pessoa pra me dar uma satisfação, uma resposta pra tirar minha avó dali pra gente sepultá-la, pra fazer um sepultamento digno. E ela não morreu do COVID", lamenta. No cemitério público Parque Tarumã valas comuns são abertas para enterrar as vítimas de COVID-19; por determinação da Prefeitura, no máximo cinco familiares podem dar um breve e último adeus a seus entes queridos.

"Estamos com um trabalho danado de enterrar pessoas, já temos coveiros nossos doentes, que contraíram coronavírus. Alguns poderão não sair com vida", lamenta o prefeito de Manaus, que pediu mais recursos ao governo federal para dar conta da emergência.

"É uma luta muito grande, muito dura mesmo", afirma. Vídeos que circularam nas redes sociais mostram filas de carros fúnebres esperando a vez para entrar no cemitério. As autoridades locais construíram um hospital de campanha e o governo federal convocou médicos de todo o país para ajudar na crise.

Mas estas medidas para reforçar o sistema chegam tarde demais e a situação é "extremamente preocupante", pois Manaus concentra todas as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do Amazonas e 80% dos médicos especializados, explica o especialista em doenças infecciosas Bernardo Albuquerque, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O auge da pandemia deve ocorrer a partir de maio, mas Manaus já tem 90% de seus leitos de UTI ocupados, faltam equipamentos de proteção para o pessoal de saúde, bem como tomógrafos e medicamentos. "O sistema realmente está centralizado na capital", diz Albuquerque à AFP.

Isso obriga os pacientes graves dos outros 61 municípios do Amazonas, que em muitos casos ficam a dias de navegação da capital, a viajarem para ser atendidos. Só 18 municípios são ligados por estrada a Manaus. "No restante, o acesso é fluvial e hoje muitos poucos têm acesso por via aérea", diz Albuquerque.

E quando os pacientes conseguem viajar a Manaus, chegam "com a situação deplorada e não têm garantia de receber atenção adequada. É uma situação dramática", completa o prefeito.

A questão indígena

O Amazonas concentra a maior população indígena do país, um grupo de risco, historicamente dizimado por vírus vindos de fora. Três indígenas morreram pelo coronavírus e pelo menos 15 dos 31 contagiados estão em Manaus.

O governo federal ofereceu a construção de um hospital de campanha para atendimento aos indígenas, mas as autoridades locais ainda esperam que se concretize. O ministério da Saúde já antecipava em abril que se avizinhava uma catástrofe no Amazonas.

A resposta à situação precisa ocorrer "o mais breve possível", diz Albuquerque. "Se realmente a gente pudesse estalar o dedo e dizer: amanhã está tudo pronto, esse seria o tempo necessário", acrescenta.

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