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Shows e Espetaculos

Rotas Performativas: "O Tiro no Escuro" e "VNI"

22/03/2018 11:22:00
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O tiro no escuro

No estacionamento do Shopping Benfica três pessoas descem do carro vestidas com perucas coloridas. Um segurança se aproxima e pergunta: - O que está acontecendo? Elas caminham até a entrada da estação Benfica do Metrô, uma começa a derrubar moedas, depois as recolhe, isto acontece inúmeras vezes. Depois ela continua o percurso até a bilheteria, compra o seu bilhete e desce até a plataforma seguida pelas demais. Os seguranças logo se aproximam, olham, param ao lado. Se instaura um ambiente de tensão.

Logo o trem chega, todas entram, a performer com um tubo enorme nas mãos começa a girar e dançar ao som de uma música que parte da caixa de som embutida na roupa. Na estação seguinte dois seguranças se aproximam, travam a porta, param o trem e um deles pede para a performer descer e o acompanhar até a saída. Ela se recusa a sair. Algum dos passageiros pergunta ao segurança qual é o problema, ele diz: - São as regras!

O passageiro pergunta que regras são essas, o segurança: - É proibido tocar músicas no Metrô. A música é desligada imediatamente, mas o segurança insiste que não vai permitir o trem siga adiante enquanto o performer não sair. Mais passageiros perguntam qual é o problema, sendo que a música já foi desligada. - São as regras! , diz ele.

- Se você expulsar ele vai ter que nos expulsar também e ainda devolver o dinheiro da passagem de todos! Não está acontecendo nada de errado, deixa ele se expressar! , disse uma das passageiras. Frente aos questionamentos, o segurança desistiu de negociar e começou a ameaçar: - Vocês apoiam isso? Então não reclamem depois, logo eles começam a te roubar!

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A ideia da performance urbana, segundo o release, era criar um deslocamento de corpos saturados por meio de recurso sonoro: “xingamentos, peidos e quedas como explosões orgânicas, excretadas num caminho ordinário e sem volta”. Mas, após o som ser desligado, o que se viu foi a instauração de uma assembleia pública que discutiu o destino dos performers. Acredito que isso pode ser entendido a partir da ideia de civilidade, inerente aos espaços públicos da cidade, pois é lá que se encontram as possibilidades de forjar laços sociais independentemente da distância social, tendo em vista que a cidade pressupõe a convivência com o desconhecido.

Entretanto, nos dias de hoje, tal conceito se encontra adormecido, como nos elucida a filósofa alemã Hannah. Para ela a sociedade está perdendo o interesse pela vida pública e a individualidade está sobrepujando o social, e o privado o público. Arendt escreveu que o espaço público possibilita o encontro, o debate, a convivência, pois é onde a vida pode ser produzida e reproduzida objetivamente. Sendo assim, a política (no sentido amplo do termo) só poderia surgir na esfera pública, já que a socialização é capaz de promover ordem entre as diferenças.

Uma sociedade livre não ocorre sem o exercício de pensar o mundo em comum e os corpos em deslocamento dos performers instauraram esse debate, com corpos presentes e atuantes.

Sim, nosso corpo faz política!

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VNI

Um apagão assolou a cidade por volta de 15:50 nesta quarta-feira em Fortaleza. Descia o elevador. Breque. Escuridão. Gritos de ajuda e num salto, pulamos para o terceiro andar, descendo as escadas e saindo rumo à Praça Portugal. Nas ruas, uma rotina já meio enviesada, com semáforos desligados e trânsito descompassado. Uma cidade sem energia elétrica faz vazar um certo tipo de controle pela luz. Na avenida Dom Luiz, um performer negro arrasta rolinhos de sacos de lixo amarrados em uma linha, em uma caminhada deslocada de sentido. Em uma sociedade marcada pelo previsível, brechas do possível se abrem para o inesperado.

Poucos olham, poucos se afetam, tudo carece de regras de conduta agenciadas por um inconsciente coletivo que insiste em manter as aparências na avenida Dom Luiz, tão iluminada pelos holofotes ostentados por vitrines e concreto e vitrines e um grande vão marcado pelo estacionamento Manhattan park, que logo poderá ser mais uma vitrine ou concreto ou vitrine ou concreto. Tudo é especulação imobiliária, inclusive o próprio corpo do performer, que agora desamarra sacos pretos ensacando a si mesmo.

Do outro lado da rua olhares curiosos, muitos vindos dos trabalhadores daquela região, aqueles que estão do lado de dentro das vitrines e concretos e vitrines e concretos. “Se fosse no bairro Pirambu seria um homem-bomba, mas aqui nesse local isso só pode ser arte”, disse a funcionária da farmácia. “Esse homem precisava aprender mesmo tocar um piano ou fazer uma arte ao invés de ficar perdendo tempo com esse tipo de coisa”, disse o engravatado que ligeiramente passava. Um pequeno caos se formava no trânsito que se movimentava sem as regras de condução via energia elétrica. Não há sinal de trânsito e nem de celular.

Tudo parece estar suspenso enquanto o performer dança com a cabeça ensacada como se quisesse mesmo se libertar. Aos poucos o saco se rasga e a dança parece fundir corpo e rua. Em um suspiro, mais uma vez, percebo-me na avenida Dom Luiz, assistindo um performer negro se expressar enquanto diversos estados brasileiros vivem um apagão histórico e que ao menos sei a procedência. Estou aonde o vento faz a curva, no intervalo dessas regras todas em uma pausa para contemplação. As luzes se acenderam há pouco...

 

Marcelle Louzada e Pati Bertucci

Artistas e pesquisadoras

 

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