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Equívocos recheiam duas peças para a infância em Fortaleza

01/09/2017 18:50:00
Dois homens agachados e olhando para cima
Dois homens agachados e olhando para cima

[FOTO1]É difícil para qualquer pesquisador que acompanha a dedicação de tantos grupos Brasil afora, na luta para diminuir os preconceitos que ainda rondam a arte teatral para crianças, se deparar com um caldeirão de equívocos em alguns espetáculos. Foi isto o que aconteceu quando vi duas propostas desta quinta-feira na programação do IV Encontro de Realizadores de Teatro Infantil de Fortaleza, ambas parecendo obras de há muito já ultrapassadas por suas escolhas estéticas e de linguagem. "Zeca e o Mundo", do Grupo Alumiar, e "Miralu e a Luneta Encantada", do Grupo Bandeira das Artes, pecam inicialmente por apostarem em dramaturgias com ranços didáticos e cheias de frases chavões. As direções dos autores Socorro Machado e Fernando Lira, respectivamente, seguiram esta cartilha antiga.

A interpretação dos elencos também não ajuda. E o maior problema seja mesmo a concepção de infância ali presente. Os dois protagonistas revelam trejeitos estereotipados e com uma vocalidade completamente falsa. Aliás, a voz é um problema grave nas duas montagens, recaindo quase sempre para o falsete. "Zeca e o Mundo" se propõe a mergulhar no universo fantasioso de um garoto em meio a brincadeiras, personagens, objetos e histórias retiradas da cultura popular tradicional. Pontuada por inserções de um palhaço amigo, a trama é costurada por algumas frases poéticas que realçam a busca por uma identidade nordestina, mas a inserção de tantas referências deixa tudo muito superficial e clichê.

A obra transita pela brincadeira do Bumba-meu-Boi, depois adentra em sugestões de respeito à Natureza e termina por ressaltar o sentido da família e dos bons sentimentos. Ou seja, uma grande "lição de vida", repleta de receitas para se valorizar o "acarinhar". O resultado é piegas e, pior, força a participação da plateia em variados momentos com recursos de um teatro interativo que se torna invasivo também. Nada aberto ao simbólico, o resultado subestima a imaginação das crianças e passa longe de qualquer sugestão, a começar dos variados elementos dispostos no cenário, muito mais decorativos e subaproveitados (até o título da peça está estampado no telão pintado de fundo). São muitos os detalhes que precisam ser revistos.

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Por sua vez, "Miralu e a Luneta Encantada" não segue um caminho tão diferente. Há muita estereotipia nas personagens – mais voltadas ao humor – e parece que o ritmo não andou bem nesta apresentação. A personagem título da história é uma menina que alimenta o desejo de ver o mundo com outros olhos e, estranhamente, trouxe um tempo dilatado demais para suas falas e ações, empurrando o ritmo da montagem para baixo. Ainda que aposte num tema importante para o debate – as singularidades de cada um –, o texto também se mostra datado, com frases de efeito e regras de conduta já muito desgastadas. Pelo potencial oculto ali, a equipe pode fazer bem mais numa próxima vez, impulsionando mais imaginação e metáforas num futuro enredo.

Afinal, é importante para a criança a possibilidade de interpretar o que vê à sua maneira. Vale o esforço do grupo em produzir trilha sonora original – ainda que com letras tão demodê – e a parceria conseguida com a empresa Instituto de Tradução e Interpretação (ITI), que cedeu para a récita equipamentos de audiodescrição e profissionais dedicados à acessibilidade, entre eles dois tradutores de Libras (linguagem para surdos) que deram um show de sintonia com o espetáculo. É sempre bom ressaltar a importância de receber no teatro crianças com necessidades auditivas, visuais e motoras, e lá estavam várias dos Institutos Hélio Góes e Filippo Smaldone. Esta ação, sim, cativou a todos.

 

Confira outras críticas que foram publicadas ao longo desta semana:

Peças boas como diversão, mas sem dramaturgia

A liberdade de fazer bagunça no palco
 

Por Leidson Ferraz especial para O POVO

Jornalista e pesquisador teatral pernambucano

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