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Festival Vida & Arte
Entrevista

"A internet se tornou um veículo de intolerância", diz Arnaldo Antunes no Festival Vida&Arte

Arnaldo Antunes faz show no encerramento do Festival Vida&Arte. Ingressos custam R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira).

16:32 | 24/06/2018
Arnaldo Antunes no palco do Espaço Demócrito Dummar
Arnaldo Antunes no palco do Espaço Demócrito Dummar (Foto: Mateus Dantas / O POVO)
Interessa a Arnaldo Antunes o atrito. É assim que nasce RSTUVXZ, seu mais recente álbum. Lançado em maio último, o disco tem como título opcional "Rock Samba", destacando uma ruptura muito característica do seu trabalho. O cantor é um dos headliners do Festival Vida&Arte 2018, que encerra neste domingo, 24, no Centro de Eventos do Ceará. Ingressos custam R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira).
 
O artista participou de entrevista aberta na tarde deste domingo, 24, na sala Demócrito Dummar, em bate-papo com os jornalistas Marcos Sampaio e Renato Abê. Ele ainda fará show no palco Rachel de Queiroz, às 20h30min deste domingo. 
"Gosto de transitar entre os territórios. É um sintoma da nossa época, muitos artistas que conheço também fazem esse trânsito. Tem momentos em que (a composição) parte de um conceito, e esse disco é um deles", explica. "Parti da vontade de atritar o samba e o rock, mas não misturar. Apontando para os contrastes e as afinidades". Dentre as afinidades, ambos os gêneros vieram da vivência negra. 
"Tem o fato de, desde criança, eu ter ouvido rock e música popular. Sempre fui um ouvinte eclético, mas, para mim, é tudo a mesma coisa", diz. Ele destaca que a intenção desde o início foi alternar o samba e rock, ao invés de fazer blocos de músicas. "Tem vinhetas, que é um trabalho do Curumim, que às vezes dá uma rasteira. Dá uma costurada no disco todo. Tem uma coesão sonora que é um pouco da leitura que a gente faz dentro da diversidade que cada gênero tem", aponta o cantor de 57 anos. As vinhetas citadas por Arnaldo são trabalho do produtor Curumim, que também acompanha o ex-Titãs no palco. 
Cabeça Dinossauro
Terceiro álbum de estúdio da banda Titãs, Cabeça Dinossauro completou, em junho último, 32 anos. Pautado no punk rock e no pós punk, o disco tem críticas diretas às grandes instituições da sociedade, a exemplo da Igreja e da família. Para o artista, é difícil comparar a época do lançamento com o atual momento.
Arnaldo com os jornalistas Marcos Sampaio e Renato Abê, que conduziram a entrevista aberta
Os jornalistas Marcos Sampaio e Renato Abê conduziram a entrevista aberta (Foto: Mateus Dantas / O POVO)
“É outra época, mas tem uma atualidade. Foi importante para sua época com um discurso muito contundente contra muitas instituições”, lembra. “Continua valendo por muitos olhares, mas é um discurso daquele tempo. Não é meu único discurso contestatório. No meu disco anterior (Ja É, 2015), tem também um discurso contestatório”. Arnaldo fala de “Óbitos”, sexta faixa do álbum Já É. “Eles não pegam em armas / Só em canetas e papéis / Mas matam mais com suas leis / Que atiradores cruéis”, diz a letra.
Ainda assim, conta Arnaldo, o tempo atual é também de intolerância. “Sempre achei que a internet seria muito libertadora, mas pelo contrário. Se tornou um veículo de muita intolerância. As pessoas se reunindo em gueto contra as outras. É um retrocesso”, lamenta. “Sempre é bom reafirmar a riqueza com a convivência. Riquezas são diferenças”.

RUBENS RODRIGUES