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A experiência de se perder e se descobrir no Festival Vida&Arte

13:53 | 24/06/2018
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O Festival Vida&Arte é um grande labirinto borgiano no qual convivem espetáculos infantis e apresentações teatrais para maiores de 18 anos, espiritualidade e mundanismo, a família e a algazarra juvenil, o recato das vestes que vão até o mocotó e a nudez no palco e nos corredores. Realizado no Centro de Eventos, é feito pra se perder, o que certamente é o que tem de melhor: levar a descobertas.


 
Lá é possível cruzar no mesmo metro quadrado com a atriz e escritora Bruna Lombardi desfilando incríveis olhos azuis e o Sri Prem Baba entrando num elevador calçando sandália e meias seguido por seus admiradores. Disputar uma partida do RPG Dungeons & Dragons ou parar por 15 minutos e se reabastecer de energias enquanto uma mulher toca a sua testa delicadamente com as pontas dos dedos. Costurar uma mensagem num pedaço de tecido que depois vai se juntar a outros numa grande colcha de retalhos coletiva ou participar de um workshop sobre liderança e o poder da mente positiva. Apreciar a força restauradora do silêncio numa sala acusticamente isolada ou acompanhar uma quadrilha junina tocando forró pé de serra dois andares abaixo.


 
Então não é força de expressão dizer que o FVA é um lugar onde a gente se perde e se surpreende com a diversa. É a mais pura verdade. Pelo menos pra mim, que me perdi e dei de cara com muita coisa incrível.


 
Diverso, o festival, que começou na quinta-feira e segue neste domingo, promove encontros insuspeitados o tempo inteiro. Como o do palhaço Trepinha com o duo de DJs que tocou no espaço Sérvulo Esmeraldo no fim da noite de sábado. No palco, uma mulher despiu-se não apenas dos pudores, mas das roupas também, num lugar de passagem.


 
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Enquanto Alice Caymmi (uma diva suprema) aprendia a vaia cearense e mandava um “taca o pau” num palco todo vermelho decorado com motivos indianos, Milton Nascimento cantava a necessidade da força e da persistência na arena vizinha, que homenageia a escritora Rachel de Queiroz.   
 


 
Mas se engana quem pensa que essa diversidade é somente musical. É gastronômica também. O FVA é um dos poucos lugares onde se pode comer no mesmo espaço uma omelete e um hambúrguer vegano, um cachorro quente ou um pão de queijo, um combo de coxinhas ou uma pizza, um suco verde ou uma cerveja artesanal. Espalhados, os quiosques de alimentos promovem um carnaval do paladar e do olfato, e nunca se sabe ao certo onde termina o cheirinho de ovo frito e o do incenso.


 
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Esses estímulos sensoriais são uma das grandes ideias por trás do evento, cuja programação artística é plural por si só, com shows memoráveis, como o da Liniker na sexta-feira e do próprio Milton no dia seguinte – hoje, a agenda se encerra com Iza, Arnaldo Antunes, João Donato e Selvagens à Procura de Lei. Mas, além da grade fixa, há um sem número de atividades transcorrendo, previstas e imprevistas.


 
Ontem, por exemplo, enquanto um grupo de meninas improvisava uma coreografia de alguma banda sul-coreana num dos amplos saguões do Centro de Eventos e um trio de artistas circenses se equilibrava em pernas de pau ao som de uma sanfona, uma fila gigantesca estendia-se no segundo andar. Pensei em duas hipóteses: ou comida de graça ou alguma youtuber autografando um livro que conta as experiências inenarráveis de uma garota de 15 anos. Nem uma coisa nem outra.


 
Era Eduardo Spohr, jornalista e escritor de literatura fantástica, cuja mesa foi disputada a golpes de sabre de luz – a fila para conferir a palestra de um dos autores brasileiros mais destacados nesse gênero de ficção perdia-se corredor afora.

 
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Outro aspecto muito rico do festival é evidentemente o seu público. De adultos vestindo a melhor roupa a jovens com tênis rasgados, o FVA reúne uma fauna não apenas diferente, mas antagônica. Afinal de contas, o que poderia haver em comum entre adeptos da terapia ayurvédica ou da vivência johrei e os fãs de Game of Thrones se deixando fotografar numa réplica do Trono de Ferro um andar abaixo?


 
Quase nada. Mas lá estavam eles dividindo o mesmo lugar, uns mais barulhentos que outros, como uma grande comunidade cujos laços comuns se baseavam apenas no fato de que participavam de uma celebração.


 
Do incrível estande dedicado especialmente ao ovo (!) até a feirinha de artesanato regional, passando pela sala de meditação tibetana onde sinos repicam de tempos em tempos e o largo onde crianças apanham bicicletas para dar uma voltinha, o FVA é uma grande pororoca – de linguagens, atividades, encontros, cheiros e sons.  É possível entrar lá e sair sem ouvir um pio, alimentando-se unicamente de chia, granola e energia quintessencial.


 
Mas é possível também comer um sanduba de cara, tomar umas quatro ou cinco cervejas apenas de aquecimento, entrar de penetra na área VIP e depois se esgoelar ouvindo a Alice Caymmi. Ou o Odair José. Ou o Milton, que a gente precisa mesmo de força pra tocar a vida. E isso o Festival tem de sobra.
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