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Festival Solar

Mostra "Terra em Transe" reúne 53 artistas em um panorama da história do Brasil

Principal exposição do Solar traça panorama autêntico da história recente do País, com obras de 53 fotógrafos de diferentes regiões

14:43 | 05/12/2018

Foto: Adenor Gondim/Divulgação

Glauber Rocha filmou as disputas pelo poder em Eldorado, um país perdido na América do Sul. Em seu Terra em transe, lançado na ebulição da ditadura militar, contou das ambições do senador Porfírio, que em segredo detestava seu povo, e das desilusões de um poeta com o antigo protetor. Contou do choque entre conservadores e progressistas, do desencanto com conservadores e progressistas. Contou do poder do dinheiro, do sonho da luta armada e dos que decidiram parar de sonhar.

 

Com curadoria do pernambucano Diógenes Moura, a exposição central do Fotofestival Solar toma emprestado o título da obra de Glauber para promover uma extensa reflexão sobre o abismo, tema do evento. Nesta Terra em transe, 53 fotógrafos de diferentes escolas e estilos retratam um Brasil que guarda semelhanças com a Eldorado do cinema. São os porcos abatidos de Marlene Bérgamo, as multidões enfurecidas de Juca Martins, as mãos algemadas de Wagner Almeida e o museu consumido em chamas de Uanderson Fernandes. Terra em transe exige estômago.

 

"Não aguento mais nada bonitinho. Primeiro porque não existe felicidade, isso é coisa de amador. Segundo porque são essas as imagens que me interessam. Esse é o Brasil real, e não aquele que aparece nas TVs todas as manhãs, de uma mulher falando com um papagaio", vocifera Diógenes, um dos curadores de fotografia mais respeitados do País. O pernambucano buscou suas representações de abismo em diversas regiões, de Roraima ao Rio de Janeiro, e fez pesquisa de campo em seis diferentes cidades. "Acabei encontrando muitos fotógrafos jovens que estão quebrando tudo e que muitas vezes não são conhecidos porque não têm grana, trabalham em pequenos jornais".

 

Diógenes reuniu em Terra em transe o que chama de "uma simbologia crua". "Tem uma coisa de incômodo. Fala de preconceito, violência, vida cotidiana nas metrópoles e fora delas, da questão do corpo, de gênero, chacinas, paixão, amor, ódio. Não é pra você se sentir bem. São imagens bonitas, mas impactantes, que lidam com os abismos de forma muito realista", adianta. Para garantir o desenvolvimento das narrativas de cada artista, cuidou para que esta não fosse uma "exposição de varejo". Ou seja, cada fotógrafo ganhou uma espécie de exposição individual com pelo menos cinco imagens dentro de Terra em transe.

 

É o caso do baiano Adenor Gondim, que chega ao Solar com sua série sobre os cãos de Jacobina, manifestação popular que uma vez ao ano ganha as ruas da pequena cidade do centro norte da Bahia. São homens de olhar sério e grandes chifres, a pele coberta de tinta escura que reflete a luz em uma atmosfera de quase delírio. "A existência dos cãos está ligada à igreja, mas a igreja não quer estar ligada a ela, entende? Eles saem do cemitério, simulam uma guerra com São Miguel, soltam aquelas bolas de fogo. Num dia, os anjos levam as almas pro céu. No outro, os cãos levam pro inferno. No terceiro dia, vai todo mundo encher a cara".

 

A fotografia dos cãos revela mais que a troça de uma micareta. 

 

Acompanhando a manifestação desde o início dos anos 2000, Adenor viu de perto as mudanças que atingiram o festejo ao longo do tempo. "Tem ano que falta patrocínio, e isso é importante, porque é uma festa do povo simples de Jacobina: balconistas, pedreiros, cabeleireiros. A classe média quer tirar uma lasquinha e acaba descaracterizando, com aqueles estudantes malhados. Mas os diabinhos disseram 'aqui não'". Sobre a atualidade das imagens e sua presença na exposição, comenta: "Os cãos são uma síntese desse transe do momento, que tá mais pendendo pro cão do que pra Deus".

 

Quem também exibe trabalho que fala de câmbios operados ao longo do tempo é Lalo de Almeida, que traz ao Solar imagens de sua série sobre os impactos sociais gerados pela construção da usina de Belo Monte. 

 

"Acompanhei todo o processo ao longo de quase dez anos, desde as  audiências públicas, toda a transformação de Altamira, a chegada das dezenas de milhares de trabalhadores, o caos que a cidade virou", conta. A cidade viu sua população saltar de pouco mais de 77 mil habitantes para os atuais 109 mil. O crescimento desordenado ainda ajudou Altamira a ser alçada ao posto de cidade mais violenta do Brasil, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

 

Representando o Sul do País, Mirian Fichtner expõe imagens de sua série Cavalo de santo, um mergulho no universo das religiões afro-gaúchas. As fotografias revelam a explosão estética dos terreiros de batuque (derivação do Candomblé). "É uma religião de alegria, cor, dança, tambor, indumentária, gastronomia. Tudo feito com muito amor e sacrifício. E é impressionante ver como os gaúchos conseguiram preservar a vitalidade de uma religião que nem veio direto, que passou antes pela Bahia, pelo Rio de Janeiro" explica ela, chamando atenção para dados do IBGE que apontam para o Rio Grande do Sul como estado com maior adesão a religiões afro no País. (Jáder Santana)

 

 

Exposição Terra em Transe 

 

Quando: até 31/3/2019

Onde: Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81)

Entrada gratuita

Visita guiada dia 7/12, às 14 horas