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Festival Solar reúne artistas cearenses na mostra "Miragem"

29 fotógrafos lançam um olhar cearense para os dramas brasileiros e propõem novas formas de enxergar o real

14:54 | 05/12/2018

Foto: Lucas Dilacerda/Divulgação

Os 29 fotógrafos que integram a exposição Miragem compartilham um elemento comum. Suas imagens são "fragmentos recolhidos por quem tentou olhar mais de uma vez aquilo que viu". Cearenses ou residentes no Ceará, os artistas selecionados para esta exibição olharam com insistência. Como as experiências infantis de ilusão de ótica - quando um ponto preto fixado pelo olhar se espalha pela parede branca -, suas fotografias revelam detalhes que passam despercebidos pela visão viciada pelo ordinário.

 

"A ideia era reunir a interpretação que os cearenses têm do presente, e a ideia da miragem se aproxima muito do espelho, da fotografia enquanto espelho do real. Mas todo espelho é um real invertido", provoca a jornalista e fotógrafa Iana Soares, curadora da exposição e responsável pela convocatória, lançada no fim de outubro. O chamado buscava projetos que refletissem "sobre questões políticas e poéticas" e que revelassem "as relações humanas em diferentes cenários sociais, culturais e tecnológicos".

 

Os quase 30 nomes selecionados traçam um panorama rico da produção fotográfica cearense. São diferentes faixas etárias, distintas influências estéticas e variáveis tempos de atuação profissional na fotografia. "Há esse tom de diversidade, mas estão todos olhando para fenômenos sociais da atualidade: questões de gênero, intimidade, relacionamentos abusivos, direitos humanos, trabalho escravo, o desastre de Mariana...", explica Iana.

Apesar da ligação com assuntos que frequentam os jornais e geram debates nas redes sociais, não há, segundo a curadora, a intenção de reduzir impressões. "Apesar de abordarem temas que não se descolam da realidade, não é pretensão dos artistas afirmar o real. São pessoas que estão pensando o tempo em que vivem. É uma fotografia cearense que não tem a marca de um território, mas que trata de questões que reverberam local e nacionalmente".

 

Alguns dos trabalhos selecionados partem de capturas essencialmente pessoais para falar de temas que tocam o universal. É o caso da fotógrafa Dayane Araújo, que apresenta na exposição uma seleção de imagens de sua série Conto a inquietação de cada gota que me percorre como infiltração. O título em primeira pessoa revela a intenção da artista: falar de sua experiência. "São fotos que trazem o ordinário, o íntimo, a família, as relações que tanto dizem sobre a gente, que vamos construindo a vida inteira e que, no final das contas, acabam nos salvando, impedindo que a gente perca a sanidade", explica.

 

Fotografando a sobreposição de chapas de raio-x contra elementos que  compõem seu cotidiano, Dayane levanta reflexões sobre como somos moldados por essas pequenas infiltrações que se alastram. "Somos paisagens. O corpo humano vira paisagem", diz a autora, que viu na fotografia uma forma de contornar os lapsos de memória que rodeiam sua família e que tanto a assustam. "Fui guardando essas imagens e me deparei com um arquivo, percebi que havia uma insistência que dizia muito sobre mim, sobre o quanto sou afetada por tudo isso".

 

Por outro lado, fotógrafos como Matheus Dias fazem o caminho oposto. Suas lentes capturam instantes públicos que são levados, pela interferência que realiza nas imagens, para a esfera da reflexão pessoal. Na série Arrevesado, Matheus multiplica fotografias para, em seguida, transformá-las em uma só. "São até três sobreposições em campos diferentes, que eu recorto em vários pedaços e vou remontando, posicionando as pessoas em lugares diferentes", explica.

 

A técnica empregada pelo artista reforça as ideias de controle e fraude que quer transmitir. "Falo sobre caos urbano e social, sobre essa velocidade. E sobre como isso pode ser usado para manipular aquelas pessoas que, nas fotos, aparecem em momentos de lazer e curtição". O fotógrafo amplia a discussão de seu trabalho para os disfarces que escondem as reais intenções do poder: "A tropa está no poder agora. Maquiada, mas está. O que eles fazem é trabalhar esse caos e trazer a imagem para a normalidade". (Jáder Santana)

 

Exposição Miragem 

 

Quando: até 3/2/2019

Onde: Multigaleria do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Entrada gratuita