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Festival Solar

Exposição "Vento Solar" tensiona os limites entre fato e ficção

Reunindo obras de quatro fotógrafos, exposição levanta reflexão sobre limites entre fato e ficção

14:38 | 05/12/2018
Foto: Vanja Bucan/Divulgação

O universo fotográfico da eslovena Vanja Bucan é marcado pelas interseções entre homem e natureza. Mas não se trata da interferência pragmática documentada por jornais e portais de notícias - ou pelo menos, não é essa a intervenção que ocupa o primeiro plano de suas imagens. Nas fotografias de Vanja, aparecem mãos, pés e cabeças que rasgam ao meio os pôsteres de plantas, folhas e galhos, em uma comunicação que é violenta e íntima em medidas parecidas.

 

Já a sul-africana Nobukho Nqaba espalha em suas imagens os padrões de estampas de suas unomgcanas, grandes bolsas de viagem carregadas geralmente por imigrantes em trânsito. As fotografias que produz e protagoniza sugerem essa realidade sem necessariamente explicitá-las. A mensagem é subliminar: as padronagens não estão só na montanha de bolsas que soterram a personagem, mas também em seus sapatos, em suas paredes, nas camas, nas mesas de cabeceira e nas bancadas de cozinha.

 

Dissipar os limites entre real e metáfora , entre fato e ficção, é a proposta da exposição Vento solar, que tem curadoria da portuguesa Angela Berlinde e se ancora na afirmação de que "a fotografia, desde o início, nunca foi inocente". 

 

São quatro fotógrafos de diferentes nacionalidades - além de Vanja e Nobukho, o espanhol Joan Fontcuberta e a polonesa Weronika Gesiscka - que reúnem em sua produção a intenção de questionar a relação entre o que se vê o que se acredita.

 

"A exposição dá a conhecer a fotografia a partir da simulação, ficção ou encenação. Trata-se de uma exposição ao ar livre, concebida sob a luz intensa do Ceará, e se apresenta como uma caixa de ferramentas de análise da imagem e dos seus jogos ilusórios", explica Berlinde. A experimentação se prestaria, segundo a curadora, a refletir sobre a confiabilidade do visual em um contexto de turbulência política e social no País, assim como sobre as implicações das chamadas pós-verdades "com as quais somos forçados a lidar hoje e que podem ser confusas e enganosas".

 

Os universos fantásticos criados pelos quatro fotógrafos falam ainda do poder da imagem, convidando o público à reflexão. "Eles revelam como a fotografia pode cativar e iludir, atirando o espectador para os desafios de olhar criticamente para o mundo, balanço tão difícil de fazer nos dias de hoje", conclui a curadora, que ainda coloca a experimentação desses artistas na elaboração de narrativas culturais contemporâneas que são fundamentais "para a construção de novas ordens e estruturas artísticas". (Jáder Santana)

 

Exposição Vento Solar 

 

Quanto: por tempo indeterminado

Onde: Praça Almirante Saldanha e nas ruas do entorno do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Gratuito

 

Bate pronto

O POVO - Unomgcana é sobre viajar, sobre migrações pessoais, sobre adaptação. Como surgiu a ideia para essa série?

 

Nobukho Nqaba - Unomgcana ou umaskhenkethe é o nome de uma bolsa de carregar que é geralmente associada aos imigrantes. Eu sempre estive interessada na ideia da viagem, no que as pessoas usam para carregar seus pertences e no sentido da palavra "lar" para elas. No começo do projeto, entrevistei comerciantes da Cidade do Cabo e eles me contaram suas histórias. Percebi que quase todo mundo estava usando a umaskhenkethe para transportar seus pertences e que todos tinham uma história para contar sobre a bolsa. Quando eu descompactei todos esses nomes e simbolismos, vi que todos revelam algo sobre sua portadora.

 

O POVO - Real e sonho estão juntos em seu trabalho, resultado em imagens que estão no meio dos dois extremos. O que é a "verdade" de sua fotografia?

 

Nobukho Nqaba - É difícil distinguir o que é a verdade, porque o mundo é subjetivo dependendo das experiências de cada um. Todo mundo tem uma história para contar, e essas histórias são suas verdades. Eu gosto das palavras que você usou, "real" e "sonho". Eu acho que, de certa maneira, pode-se dizer que a realidade do mundo em que vivemos agora é que estamos diante de pessoas que estão empenhadas em rotular os outros, de colocá-las em caixas que são alienantes. Isso é muito visível na forma como imigrantes são tratados, e isso cria um alto nível de ansiedade que se manifesta na violência contra eles. O sonho que eu tenho é de um mundo onde todos sejamos vistos como humanos, onde as localizações geográficas não importam, onde nós apoiamos e construímos com os outros ao invés de destruí-los.