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Salão de Abril Sequestrado: Um pouco de oxigênio

A pesquisadora, curadora e uma das diretoras da Sem Título Arte, Jacqueline Medeiros, faz uma reflexão sobre o Salão de Abril organizado por artistas, à revelia da Prefeitura de Fortaleza - a edição sequestrada

16:50 | 03/10/2017
Obra que integra a exposição Salão de Abril Sequestrado, que envolve 158 artistas, oito espaços culturais autônomos e quatro galerias (Foto: divulgação)
O que fazer quando não há diálogo com o Estado? Ocupar? Ignorar? Ir às ruas? Qual é a melhor maneira de comunicação do artista? ARTE! O momento exige criatividade, uma resposta poética e potente como um objeto artístico. Assim entrei no que ainda não sabia o que seria, como um artista que começa seu processo de criação. No início, um pequeno grupo de artistas, curadores, pesquisadores e a Sem Título Arte. Como uma pedrinha jogada no lago, uma onda foi se formando, contaminando em camadas um número maior de participantes, de perto e de longe, ao vivo e nas redes. O tempo urgia. 
Muitas dúvidas pairavam nas reuniões do agora Fórum das Artes Visuais de Fortaleza, mas havia a certeza de que o 68º Salão de Abril iria acontecer, com ou sem a participação da Secretaria de Cultura do Município de Fortaleza. O desafio de realizar um salão, que deve ser planejado com meses de antecedência, sem recursos para os artistas e demais profissionais, foi aceito. Praticamente em trinta dias fizemos e lançamos a convocatória para os artistas. Cumprimos todos os prazos acordados para divulgação dos selecionados e aberturas. Quase duzentos artistas inscritos! Comecei então a ter a dimensão do que estava participando. 
 
A adesão dos artistas demonstra que existe um espaço que precisa ser ocupado, não no formato que vinha sendo feito o Salão de Abril sob o comando da Secultfor, mas abrangendo a produção local no sentido amplo. Quão desamparada estão as artes visuais no campo das políticas públicas de cultura no âmbito municipal!
 
Na etapa de curadoria que envolvia a seleção dos artistas, ficou muito claro que se tratava de uma demanda latente e um posicionamento político, portanto, decidimos incluir a todos, exceto aqueles não se enquadravam no único critério da convocatória de ser fortalezense ou ter relação direta com a cidade. Que curadoria é essa que não escolhe as obras da exposição? O trabalho de curadoria que julga e determina o que deve entrar no circuito da arte também está posto em discussão aqui. O que propomos foi uma curadoria educativa para os espaços e para os artistas.
 
Muitas são as lições que seguem para além do Sequestrado. Um convite para 21 espaços de arte, ateliês de artistas e galerias resultou em uma rede com treze deles envolvidos no esgarçamento de suas próprias programações. Curadores locais escolhidos nas reuniões do Fórum se debruçaram sobre espaços e propostas dos artistas para reduzir ao mínimo as diferenças de infraestrutura de cada lugar, buscando a melhor forma de abrigar todas as obras.
 
O que temos é um processo coletivo, impensável para artistas visuais comumente denominados de "individualistas", comprovando que este termo não passa de uma desculpa para os que não acreditam na união de esforços, o que não quer dizer necessariamente união de ideias.
 
O nosso trabalho colaborativo, de articulação e de pensamento coletivo, mudou toda a lógica de decisão do agora ultrapassado Salão de Abril. Nada será como antes. O maior legado do Sequestrado é, para mim, a concretização de uma rede jamais imaginada e acontecida nos últimos vinte anos entre espaços, artistas, curadores, pesquisadores e profissionais de artes visuais. Um pouco de oxigênio nestes tempos nebulosos. 
 
Por Jacqueline de Medeiros, especial para O POVO
Pesquisadora, curadora e uma das diretoras da Sem Título Arte