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Carnaval
CRÔNICA

Um Carnaval para Marielle

No Carnaval de rua de Fortaleza, encontrei música, chuva e Marielle Franco

Placa transitou entre blocos de rua da Capital. Na foto, no Luxo da Aldeia, no Benfica (Foto: Marília Camelo/ Especial para O POVO)
Placa transitou entre blocos de rua da Capital. Na foto, no Luxo da Aldeia, no Benfica (Foto: Marília Camelo/ Especial para O POVO)

O Carnaval cria elos. É elo de gente com gente, gente com a rua, gente com música. Tudo se conecta numa mesma energia de sorrisos, danças, glitters e confetes. Neste 2019 em que elos são mais do que necessários para que a gente siga existindo - e resistindo - o Carnaval de rua de Fortaleza carregou um elo que arrepiou.

Podia ser sob a chuva da Gentilândia ou nas areias do Iracema Bode Beat, lá estavam elas. Não eram fantasias. Eram gritos silenciosos. Lembranças. E era só olhar pra cima e enxergar: placas azuis e o dizer "Rua Marielle Franco". Sinalizações transformadas em ato. Marielle presente.

Elas se multiplicavam nas mãos dos foliões. Corriam blocos inteiros. Faziam a rua estar em toda multidão. Local indefinido, mas definido. No chão e nos palcos. Até a Ponte Velha virou Marielle. Ela estava aqui. Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro há 356 dias. Quase um ano. E ninguém sabe ainda quem matou, quem mandou matar.

Mas há muitos que sabem o que Marielle significa. Inclusive os autores das placas que percorreram a Cidade durante os dias de Carnaval.

A ideia surgiu em um grupo de amigos. Mais ou menos 15 pessoas que, mesmo quando se espalhavam pelos blocos, se encontravam em Marielle. “Pra gente a Marielle é um símbolo da resistência. E a gente tá muito indignado com tudo que tá acontecendo no País, com a situação de que nada sobre o caso dela foi feito”, justificou a psicóloga Isabel Dalla Barba, uma das integrantes do grupo.

No domingo de Carnaval, ela era o amarelo do arco-íris criado pelos amigos para ser fantasia-protesto naquele dia. Em cada corpo, sobre a cor, um adesivo e uma frase: "Eles passarão, eu passarinho", "Meu senso crítico não é TPM" e "Tire seu racismo do caminho" eram algumas delas. "A gente entende que o Carnaval também é uma forma de protestar em relação às coisas que a gente acredita, em prol de uma sociedade melhor", compartilhava Isabel.

Isabel (de amarelo) e parte do grupo que produziu e levou para o Carnaval de Fortaleza as placas da Rua Marielle Franco
Isabel (de amarelo) e parte do grupo que produziu e levou para o Carnaval de Fortaleza as placas da Rua Marielle Franco (Foto: Mariana Lazari/O POVO)

Isabel me lembrou que a placa da Rua Marielle Franco é um ícone. Primeiro, quando foi criada no Rio de Janeiro, era homenagem. Na sequência, foi depredada com discurso de ódio travestido em "proteção do patrimônio público". Mas renasceu. Foi recomposta. E se multiplicou. Deixou o Rio, chegou ao Ceará, ao Carnaval. Apenas uma placa não dava conta da presença de Marielle.

E a reação diante da placa? Isabel contou ter sido “maravilhosa” - Marielle é elo entre aqueles que estão do lado certo da história, afinal. “Tem milhões de pessoas pedindo pra tirar foto com a placa, pra tirar foto com a gente”. É porque Marielle é elo.

Durante o Luxo da Aldeia no sábado de Carnaval, por exemplo, enquanto Belchior surgia na voz do bloco como o sujeito de sorte que canta que ano passado morreu, mas este ano não morre, mulheres se abraçaram e brindaram. “Marielle! Presente!”. As lágrimas acompanharam o encontro. A chuva testemunhou.

A resistência permanece e fortalece.

Ninguém vai soltar a mão de ninguém. Vamos, inclusive, brincar muitos Carnavais de mãos dadas.

Porque mataram Marielle. Mas ela brotou e se tornou floresta.

Mariana Lazari