Tiradentes 2026: filme 'Politiktok' observa a eleição de 2022 a partir do TikTok

Filme de Álvaro Andrade Alves acompanha os últimos dias da eleição de 2022 a partir de lives, edits e disputas de narrativa. Obra usa vídeos do TikTok para revelar a polarização política e o excesso de imagens no período eleitoral

11:40 | Jan. 30, 2026

Por: Carolina Passos
Filme de Álvaro Andrade Alves acompanha os últimos dias da eleição de 2022 a partir de lives, edits e disputas de narrativa (foto: Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação)

Exibido na terça-feira, 27, na Mostra Aurora da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Politiktok”, de Álvaro Andrade Alves, propõe um mergulho direto no ambiente digital que atravessou os últimos dias das eleições presidenciais brasileiras de 2022.

O documentário se constrói a partir de conteúdos do TikTok — plataforma que, à época, reunia cerca de 80 milhões de usuários ativos no Brasil — e adota a própria lógica da rede como dispositivo narrativo.

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O filme começa sem preâmbulos. A tela se comporta como uma timeline em rolagem contínua, apresentando vídeos de hip-hop, cenas da periferia, conteúdos religiosos e performances típicas da plataforma.

Em meio a esse mosaico social, surgem rapidamente Lula e Bolsonaro, figuras centrais da disputa eleitoral, apresentados por meio de recortes de vídeos, montagens, lives e até vozes geradas por inteligência artificial — recurso amplamente utilizado na rede naquele período.

"Politiktok" acompanha a polarização política

Opiniões, declarações inflamadas, fake, discursos conspiratórios e defesas apaixonadas se alternam com conteúdos de humor, ASMR, trends e transmissões ao vivo, compondo um retrato fragmentado de um país em tensão.

A política surge misturada ao entretenimento, sem hierarquias claras, refletindo o modo como o debate público passou a circular no ambiente digital.

Essa experiência de excesso e sobreposição aproxima o espectador da vivência cotidiana do usuário da plataforma.

O filme não busca organizar os acontecimentos de forma didática ou cronológica, mas reproduz o fluxo contínuo e disperso do TikTok, evidenciando como o embate eleitoral se deu também — e sobretudo — no campo simbólico das imagens.

Na quarta-feira, 28, o documentário foi tema de um bate-papo com o diretor, que detalhou o processo de criação e as escolhas éticas e formais do projeto.

Durante a conversa, um dos pontos que ganhou destaque foi o questionamento sobre a natureza do filme:”Politiktok” é um filme sobre política ou um filme político? A pergunta permaneceu em aberto, atravessando o debate e refletindo a própria ambiguidade da obra.

No diálogo com o público, surgiu também um paralelo com Revolting, documentário de Rubens Rewald e Thales Abras, lançado em 2017, que reunia vídeos do YouTube de pessoas pedindo intervenção militar e entoando discursos anticomunistas no período pré-eleitoral de 2018.

Se naquele filme o recorte se concentrava de forma mais direta em figuras da extrema direita, "Politiktok" aparece como um retrato posterior, em outro contexto e outra plataforma, buscando capturar um ambiente mais difuso e contraditório, marcado pela convivência, nem sempre equilibrada, entre diferentes posições políticas.

Álvaro Andrade Alves explicou que o filme levou de três a quatro anos para ser concluído e que, inicialmente, a ideia não era realizar um documentário sobre eleições.

TikTok enquanto fenômeno cultural

A política, segundo ele, acabou se impondo naturalmente à medida que o contexto brasileiro se tornava cada vez mais atravessado pelo debate eleitoral nas redes.

O diretor também destacou que o filme não parte da intenção de criar uma montagem “equilibrada” ou de promover um embate direto entre campos opostos.

A escolha foi evitar o bate-boca típico das lives, que, segundo ele, pouco produz em termos de reflexão, optando por posicionar os discursos dentro de uma arena mais ampla, guiada pela força das imagens e das performances.

Embora reconheça que o filme tem um posicionamento político evidente, ele afirmou que a obra não explicita esse viés a cada corte, deixando espaço para múltiplas leituras.

Outro aspecto abordado foi a presença do ASMR e de conteúdos ligados ao trabalho precarizado nas lives da plataforma. Para o diretor, essas transmissões revelam uma dimensão importante do TikTok como espaço de sobrevivência econômica, onde discursos sobre mérito, esforço individual e “vencer na vida” se cruzam com o debate político, especialmente entre apoiadores menos radicalizados do bolsonarismo.

Ao transpor a experiência da navegação individual para a escala da sala de cinema, Politiktok provoca também uma reflexão sobre o tempo e o desgaste coletivo.

Se, no celular, duas horas passam quase sem perceber, na tela grande essa duração se torna sensorialmente mais evidente, levando o público a confrontar sua própria relação com o consumo incessante de imagens.

Sem oferecer respostas fechadas, o documentário se consolida como um registro do clima político de 2022 a partir da própria matéria-prima que ajudou a moldá-lo.

Mais do que explicar aquele momento, "Politiktok" convida o espectador a atravessá-lo novamente, imerso no fluxo caótico que marcou a disputa eleitoral brasileira nas redes sociais.