Análise: problemas substanciais abrilhantam a quarta temporada de Bridgerton
Nova temporada da série de sucesso da Netflix ganhou os quatro primeiros episódios nesta quinta-feira, 29. Segunda parte será lançada no dia 26 de fevereiro
05:01 | Jan. 29, 2026
As portas da Casa Bridgerton estão oficialmente abertas. É com um belo Baile de Máscaras que a Netflix deu início à quarta temporada da série de sucesso da Shondaland, lançada nesta quinta-feira, 29.
Desta vez, ao dar play para assistir a primeira parte do amor florescendo novamente na nobre família de Mayfair, não são apenas os salões luxuosos que se abrem ao público, mas também as escadas laterais e os andares de baixo, onde os criados edificam, à perfeição, tudo o que já conhecemos desse universo.
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A história, inspirada no terceiro livro da saga de Julia Quinn, "Um Perfeito Cavalheiro", finalmente coloca os holofotes sobre Benedict Bridgerton (Luke Thompson), o segundo filho de Violet e Edmund.
Apesar dos casamentos bem-sucedidos de seus irmãos e irmãs, o artista panssexual não parece interessado em seguir o mesmo destino, até conhecer, no baile de máscaras organizado por sua mãe, uma dama com quem compartilha inquietações, desejos e dores.
O que Benedict não sabe é que suas realidades são profundamente distintas. Enquanto ele é um nobre, filho de um visconde, ela é Sophie Baek (Yerin Ha), filha bastarda de um conde que, após a morte do pai, foi relegada à condição de criada pela madrasta Araminta (Katie Leung).
As semelhanças com o conto da Cinderela são propositais, mas não se sustentam além da superfície diante de uma protagonista forte e totalmente dona de si — em muitos mais sentidos que o público espera, inclusive. Ainda que o ponto de partida dialogue com clássico romance, Bridgerton rapidamente desloca a narrativa para um terreno mais profundo e menos confortável.
À medida que a série se ramifica, os casais das temporadas anteriores são deixados propositalmente fora de foco, abrindo espaço para novas histórias. Nesse contexto, a relação entre Sophie e Benedict amplia o escopo da produção ao introduzir, de forma mais direta, discussões sobre diferenças de classes e um amor considerado inaceitável no período regencial.
Nos quatro primeiros episódios aos quais o Vida & Arte teve acesso, a trajetória do casal — conhecido entre os fãs como “Benophie” — se constrói em um constante vaivém entre fantasia e realidade. No primeiro capítulo, a idealização típica do universo Bridgerton: um nobre libertino, mas cavalheiro, e uma jovem que, pela primeira vez, adentra um baile da alta sociedade.
No segundo episódio, a realidade se impõe, revelando feridas do passado e limitações impostas pelo presente. O terceiro flerta novamente com a fantasia de uma vida possível afastados da sociedade, apenas para, no quarto, confrontar os protagonistas com aquilo que a série insiste em não suavizar: o amor entre uma criada e um nobre em uma sociedade — e sob o olhar interessado de uma rainha — que não admite exceções em espaço algum.
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Não por acaso, os três primeiros episódios carregam títulos que fazem referência a obras de arte clássicas: "A Valsa", "Tempo Trespassado" e "O Campo ao Lado da Outra Estrada". A escolha dialoga diretamente com Benedict, um protagonista que observa o mundo a partir de um olhar artístico, dividido entre idealização e frustração. Assim como as pinturas evocadas nos capítulos, a temporada alterna entre o belo, o simbólico e o incômodo — sugerindo que, desta vez, Bridgerton está menos interessado apenas em encantar e mais disposto a tensionar sua própria fantasia.
Com esses zigue-zagues — subidas e descidas nos degraus que separam ricos e pobres —, a série consegue criar conflitos substanciais e emocionalmente críveis para seus protagonistas, apoiando-se com segurança no material original de Julia Quinn. A química e ótima atuação entre Luke Thompson e Yerin Ha, aliada a cenas inéditas em relação ao livro, potencializam uma história que já parte de uma das tropes mais queridas do público: o amor impossível. Aqui, porém, o impossível não é apenas romântico, mas estrutural.
Nem todas as tramas paralelas podem alcançar o mesmo nível de interesse do telespectador. O desenvolvimento por vezes arrastado e constrangedor de outros relacionamentos — como o de Francesca e John, marcado por uma busca confusa por autoconhecimento da mocinha —, ou o de Violet e Marcus, que soa mais juvenil do que esperado — pode causar estranhamento.
Ainda assim, a segunda história dialoga com outro tema pouco explorado pela série até então: o estigma enfrentado por viúvos que ousam desejar novamente em uma sociedade que os empurra para a solidão, e por isso podem gerar identificação.
Outras histórias servem ainda como apostas de médio prazo — como os movimentos envolvendo a Rainha Charlotte, a Penélope como Lady Whistledown e Lady Danbury, que ajudam a ampliar o tabuleiro da série e podem render desdobramentos mais interessantes adiante.
A diferença, em relação a temporadas anteriores, é que esses desvios de foco não parecem roubar tempo dos protagonistas. Há, na quarta temporada, um equilíbrio mais consciente entre os arcos narrativos, os momentos familiares e o desenvolvimento íntimo do casal central que tem tudo para se tornar o favorito ao público pelo que oferece ao início ao fim dos quatro episódios.
Mesmo tramas que inicialmente soam menos promissoras — como a chamada “Guerra pelas Criadas”, mencionada por Lady Whistledown — encontrarão uma justificativa dentro da lógica do universo apresentado, especialmente para quem conhece o livro e sabe o que ocorrerá nos quatro últimos episódios.
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A cautela, claro, pode ser precisa. Bridgerton já demonstrou em temporadas passadas que nem sempre sustenta com a mesma força os conflitos que propõe no início. Embora o livro de Julia Quinn indique desdobramentos densos e dramáticos, a adaptação audiovisual já fez escolhas que suavizaram ou desviaram temas potencialmente mais espinhosos. O mérito desses primeiros episódios está menos em prometer e mais em, de fato, estabelecer bases sólidas — algo que a série pecou anteriormente e precisará honrar nos quatro capítulos finais que serão publicados no dia 26 de fevereiro.
Com esses elementos, a quarta temporada de "Bridgerton" se inicia com o brilho esperado após os dois anos de hiato desde o último lançamento. Se conseguir manter o equilíbrio entre fantasia, crítica social e desenvolvimento emocional apresentado até aqui na mão de dois ótimos protagonistas, a série pode entregar uma de suas fases mais maduras.
O desafio, como sempre, não está em encantar no baile de abertura, mas em sustentar a dança até o último acorde.
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