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Fundação Palmares retira obras do acervo e cita "dominação marxista" e sexualização infantil

Entre os autores presentes no acervo e que são alvos da exclusão estão Karl Marx, Simone de Beauvoir e Carlos Marighella

13:38 | 18/06/2021
Sérgio Camargo é presidente da Fundação Cultural Palmares. Ele se envolve com frequência em polêmicas racistas e já disse que o movimento negro é uma "escória maldita" (Foto: Reprodução/Twitter)
Sérgio Camargo é presidente da Fundação Cultural Palmares. Ele se envolve com frequência em polêmicas racistas e já disse que o movimento negro é uma "escória maldita" (Foto: Reprodução/Twitter)

“Infelizmente, no lugar de grandiosidade, temos um acervo defasado e brutalmente parcial”. A declaração de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares, apresenta um relatório lançado na última sexta-feira, 11, que alega que mais da metade das obras do acervo da instituição são “de temática alheia ao escopo do órgão”. Além disso, muitos títulos apontariam para uma “dominação marxista” da instituição. Assim, a atual administração deseja retirá-las.

Intitulado “Retrato do Acervo: A Doutrinação Marxista na Fundação Cultural Palmares 1988-2019”, o documento possui 74 páginas e afirma que o órgão conta com 9.565 obras em seu acervo, sendo, na visão dos responsáveis pelo relatório, 4.400 (46%) de “temática negra” e 5.165 (54%) de “temática alheia à negra”. Entre os autores presentes no acervo e que são alvos da exclusão, estão Karl Marx, Simone de Beauvoir, Lênin, Max Weber, Celso Furtado, Carlos Marighella e Marco Antônio Villa.

Ainda em seu texto de apresentação, Sérgio Camargo diz que a instituição “abriga, protege e louva um conjunto de obras pautadas pela revolução sexual, pela sexualização de crianças, pela bandidolatria e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilha”.

O relatório foi desenvolvido por uma equipe comandada por Marco Frenette, coordenador-geral do Centro Nacional de Informação e Referência de Cultura Negra (CNIRC). Para ele, a fundação “não cumpria sua missão institucional” e “foi durante três décadas um braço da militância revolucionária”.

Nesse sentido, os avaliadores do acervo consideraram que obras (incluindo livros, folhetos, folders e catálogos) “alheias à missão institucional” têm temas como “sexualização de crianças”, “pornografia e erotismo”, “ideologia de gênero”, “manuais de guerrilha”, “bandidolatria” e “bizarrias”. Na análise da administração atual, apenas 478 (5%) apresentam “cunho pedagógico, educacional e cultural dentro da missão institucional”.

Como exemplos do que chama de “clássicos da delinquência”, os responsáveis pelo documento citam “Bandidos”, de Eric Hobsbawm, cuja “frase central do livro é ‘Banditismo é liberdade’”, e "Ciranda dos Libertinos", de Marquês de Sade, que, na avaliação do relatório, apresenta textos com “todas as perversões sexuais possíveis, envolvendo sangue, fezes, mutilações e sadismo e masoquismo".

Segundo o documento, “não houve julgamentos subjetivos na triagem”, e a separação do que permanecerá no acervo da Palmares do que será descartado “obedeceu ao que determina o regimento interno”. Os “livros inadequados” serão doados para instituições públicas e/ou privadas.

O relatório é encerrado com uma "lista de 300 títulos comprobatórios do desvio da missão institucional”.


Críticas além das temáticas


O relatório não critica apenas as temáticas das obras do acervo da Fundação Palmares. Ele também se manifesta de forma crítica à quantidade de edições anteriores à reforma ortográfica de 2009: "Hoje, quem desejar ler na Palmares, por exemplo, 'Papéis avulsos', de Machado de Assis, encontrará uma edição de 1938, a qual prestará um desserviço ao estudante brasileiro, pois ele aprenderá a escrever 'chronica' em vez de crônica; 'Hespanha' em vez de Espanha; e 'annos' em vez de anos ".

Além disso, critica a escolha de Oliveira Silveira para nomear a biblioteca da instituição. Silveira foi poeta e militante do Movimento Negro de Porto Alegre. “A escolha desse militante negro para nomear ações da Palmares – a exemplo do prêmio literário da Fundação – e seu próprio acervo, indica claramente a predominância de uma mentalidade voltada para a manutenção de um gueto marxista”.

O poeta também foi um dos líderes da campanha pelo reconhecimento do dia 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, data em que Camargo já se posicionou contra. Em seu texto de apresentação, o presidente também promete a construção de um Centro de Estudos Negros (CEN), com conteúdos que visem a promoção da cultura negra “sem vitimismos, militâncias e segregações”.

Entre suas constatações finais, o relatório afirmou que o acervo da Fundação Palmares “é a reprodução de uma mentalidade revolucionária e alheia à realidade do negro, usando-o como massa de manobra” e até que possui “obras bizarras sobre os mais diversos temas, tais como discos voadores, viagens astrais e lobisomens”.

A Fundação Cultural Palmares foi criada em 1988 e é vinculada ao Ministério da Cidadania. A instituição busca “promover e preservar valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. a instituição foi fundada em 1988 para promover e preservar valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.

Reações à retirada de obras

O relatório lançado na última sexta-feira trouxe muitas manifestações negativas à sua proposta. Diante dessa publicação, o deputado federal Marcelo Freixo (PSB) entrou com uma ação contra Sérgio Camargo pedindo "a suspensão de exclusão de qualquer patrimônio da Fundação Cultural Palmares, especialmente os livros elencados no relatório e o retorno à Fundação, caso já tenham sido excluídos”.

Além disso, o grupo Coalizão Negra Por Direitos, que reúne aproximadamente 200 instituições ligadas ao movimento negro, ingressou com ação civil pública de manifestação contra a retirada das obras do acervo da Fundação Palmares.

“A ação pretende defender a preservação do patrimônio cultural, social e histórico da população negra e da história de luta do movimento negro brasileiro, além do direito à memória coletiva a fim de assegurar e preservar o direito de continuidade da história”, se posicionou a Coalizão Negra Por Direitos. O grupo acrescenta:

“Reiteradas vezes, Sérgio Camargo já desqualificou a luta do movimento negro e minimiza os reflexos do racismo na vida do povo negro no Brasil, reforçando o discurso do Governo Federal de que as denúncias e lutas contra o racismo representam “vitimismo”. A tentativa de eliminar obras e arquivos de importantes corresponde à forte tendência que o atual presidente da instituição tem de deslegitimar a importância da resistência da luta popular do movimento negro no país”.

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