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"Not For Broadcast": sinta o que acontece por trás das câmeras de telejornais

Com boa trama e mecânicas interessantes, "Not For Broadcast" surpreende e leva o jogador a se questionar sobre o processo da produção jornalística. Título está disponível para PC, em acesso antecipado

Leonardo Maia
21:37 | 10/06/2021
O cenário apresentado ao jogador é um painel para controlar aquilo que é transmitido para a televisão (Foto: Divulgação/Not For Broadcast)
O cenário apresentado ao jogador é um painel para controlar aquilo que é transmitido para a televisão (Foto: Divulgação/Not For Broadcast)

Com o surgimento datado do século XV, a imprensa tem sido uma presença constante em inúmeras sociedades e, em muitos casos, exerce um papel decisivo em situações-chave para o futuro de uma nação. Nos últimos anos, porém, o setor tem enfrentado vários ataques, especialmente com a ascensão de ondas de desinformação, popularizadas como fake news.

Afinal, para que servem os jornalistas e o jornalismo? Como esses profissionais são capazes de contribuir (ou atrapalhar) para o debate e influenciar a sociedade? Qual a relevância de uma imprensa livre e independente? Essas são algumas das perguntas que o jogo “Not for Broadcast”, disponível para PC desde o início de 2020, tenta responder.

Na história, o jogador assume o papel de operador de televisão de uma das maiores emissoras dos Estados Unidos — a National Nightly News — e é responsável por controlar o que vai ao ar em cada edição do telejornal. Alternar entre as múltiplas câmeras durante uma entrevista é um exemplo de como não tornar o conteúdo maçante e, sobretudo, garantir a audiência.

A primeira sensação que o jogo nos passa é a adrenalina. E nesse ponto entra um dos maiores desafios do jornalismo e do campo da comunicação: falar para muitos. Uma característica marcante da televisão, especialmente em programas ao vivo, é que as palavras e imagens não voltam. Uma vez no ar, o conteúdo atinge milhões de pessoas, com as mais distintas formas de recepção.

Em “Not for Broadcast”, a frustração de escolhas erradas pode vir tanto da reação dos telespectadores como da diretoria da emissora. Deixar de censurar um palavrão ou não vetar uma parte do conteúdo que contrarie os interesses da emissora (ainda vamos chegar nessa parte) pode acabar com a chefia ou o público irritado.

Com o decorrer das transmissões, temos um pouco da sensação do estresse que profissionais dessa área enfrentam diariamente, especialmente aqueles que são responsáveis por “levar o jornal ao ar”, como se diz no jargão jornalístico. Essa é uma parte da indústria que não tem rosto e acontece fora dos olhos do telespectador, embora seja de suma importância, como evidencia a trama.

Nem pense em ignorar a história do jogo

Ainda que as mecânicas do jogo já valessem a experiência do título, o enredo que se desenvolve a partir do que é transmitido pela televisão é outro ponto alto do game. Em resumo, o jogo transcorre a partir da eleição de um governo radical autoritário e com atitudes políticas bastante questionáveis — para dizer o mínimo. Embora represente uma caricatura do poder, algumas cenas podem acabar lembrando governantes reais.

Uma das primeiras medidas da nova gestão, logo no início do jogo, é a chamada Lei de Bens e Riquezas, que revogou os passaportes das pessoas mais ricas do país. “Quer ir embora como você ficou ameaçando antes da eleição? Tudo bem. Mas, primeiro, vocês vão pagar. Ah, se vão pagar”, disse Peter Clement, um dos líderes do novo governo, em discurso logo após o resultado do pleito.

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Uma parte interessante do jogo surge dessa interação com a política. Em algumas entrevistas e outros trechos do telejornal, a direção da emissora impõe que o jogador censure determinadas partes que contrariem o interesse governamental, a quem claramente apoia. Contudo, é possível desobedecer às ordens e arcar com as consequências.

Nesse ponto, surge o questionamento de até onde vai a liberdade de imprensa. Seria ela ilimitada? Jornais e jornalistas podem fazer o que quiserem e como quiserem? E a resposta, claro, é negativa. Precisamos lembrar que a transmissão e análise de informações em veículos de massa exige, sobretudo, responsabilidade e compromisso com a sociedade. E isso falta em muitas empresas de comunicação do Brasil e do mundo, infelizmente.

Cheia de reviravoltas e momentos de tensão, recheados de ironia e bom humor, a trama ainda é influenciada por escolhas do jogador — formato popularizado por jogos recentes, como "Life is Strange" e "The Walking Dead" — e pode mudar conforme as atitudes tomadas ao longo do enredo. Vale lembrar que a história não está fechada, e um capítulo final deve encerrar a produção, ainda que sem previsão para o lançamento.

Apesar de não possuir áudio em português brasileiro, o jogo conta com legendas nesse idioma, o que pode facilitar a compreensão do enredo. A tradução e localização do jogo é muito boa, trazendo inclusive expressões idiomáticas comuns por aqui. Ainda assim, fica o lamento de não haver a dublagem em português, mas isso pode ser resolvido em uma próxima atualização (fica a torcida!).

Mecânicas repetitivas e cansativas acabam reduzindo a imersão

Logo no começo do título, somos introduzidos ao conceito das interferências. Em certo momento da transmissão, o sinal da emissora é afetado, e precisamos parar de controlar o sinal das câmeras que vai ao ar para lidar com esse problema. No início, isso parece algo trivial, facilmente solucionado.

No decorrer do jogo, porém, os constantes problemas com a transmissão e outras bizarrices que surgem — como um urso de pelúcia que te ataca — acabam por irritar o jogador de forma injustificada e tirar o foco daquilo que realmente importa: o controle das câmeras e o desenrolar da trama.

No dia 3 de junho, no entanto, a desenvolvedora lançou uma atualização que pretende resolver parte desse problema. Em uma nova modalidade, chamada de “modo história”, os jogadores podem aproveitar o enredo do jogo e as demais mecânicas sem se preocupar com o estresse dos problemas já citados. Apesar de interessante, a mudança não é ideal, já que o problema continuará em outros níveis de jogo.

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Outro ponto que o jogo peca é em trazer, de forma exagerada, a história da trama de forma escrita. Entre as transmissões dos telejornais, temos que ler vários blocos de texto e fazer escolhas sobre o que acontece na vida pessoal do personagem. É curioso saber como as suas escolhas no trabalho interferem na vida dos seus familiares, mas o jogo passa do ponto nessa dosagem e torna esses trechos maçantes.

É fácil se envolver com "Not For Broadcast"

Mesmo que tenha falhas, "Not For Broadcast" é uma daquelas produções que por muitas vezes fica escondida em meio a tantos jogos da atualidade, mas que vale toda a atenção de qualquer jogador. Ainda mais para aqueles que têm curiosidade sobre o mundo da comunicação e os desafios de comandar um telejornal ao vivo.

Para isso, a ambientação do jogo é impecável. Com alguns minutos de jogatina, é possível esquecer que se está em casa e se transportar para o estúdio da National Nightly News, com vários botões, luzes e múltiplas telas onde transcorre cada entrevista ou trecho do noticiário.

Novidade para alguns, "Not For Broadcast" é um jogo que está em “acesso antecipado". Ele não está totalmente pronto, mas os desenvolvedores já o deixam disponível, até para que os jogadores contribuam para a construção coletiva do título, com críticas e sugestões sobre a experiência. Para testar, ainda é possível baixar uma demonstração gratuita.

Serviço

"Not For Broadcast"

Quanto: R$ 31,81 (com 33% de desconto até a próxima segunda-feira, 14)

Onde: Na Steam, exclusivamente para PC, por meio deste link

Classificação indicativa: 14 anos (linguagem imprópria e nudez)

Requisitos Mínimos:

SO: Windows 10
Processador: 2.7Ghz ou superior
Memória: 8 GB de RAM
Placa de vídeo: 4gb VRAM
DirectX: Versão 11
Armazenamento: 22 GB de espaço disponível
Placa de som: Integrada

Assista ao trailer do jogo:

*Essa resenha usou informações do artigo “Um passeio pela História da imprensa: o espaço público dos grunhidos ao ciberespaço”, publicado pela autora Patrícia Bandeira de Melo na revista Comunicação e Informação. Clique para acessar a íntegra.