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Morre cineasta Maurice Capovilla, aos 85 anos

O diretor, roteirista e professor Maurice Capovilla faleceu neste sábado, 29 de maio. A causa da morte não foi divulgada
18:41 | Mai. 29, 2021
Autor Clara Menezes
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Tipo Notícia

O ator, roteirista e professor Maurice Capovilla (1936 - 2021) morreu neste sábado, 29 de maio, aos 85 anos. A causa da morte não foi divulgada. De acordo com informações da Agência Brasil, ele sofria de Alzheimer há cinco anos e estava acamado.

Também chamado pelo apelido “Capô”, o cineasta ficou conhecido por suas obras audiovisuais que denunciavam a realidade do povo brasileiro, inserido em um sistema econômico e social desigual. Em sua carreira, ganhou vários prêmios.

Sua trajetória na profissão começou com a produção de curtas-metragens, no início da década de 1960. O primeiro foi “União” (1962), que revelava a importância dos sindicatos na defesa dos direitos trabalhistas. Nos anos seguintes, produz “Meninos do Tietê” (1963) e “Subterrâneos do Futebol" (1964).

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'Bebel, Garota Propaganda' (1968) é um dos longas-metragens de Maurice Capovilla
'Bebel, Garota Propaganda' (1968) é um dos longas-metragens de Maurice Capovilla (Foto: Reprodução/ IMDB)

Sua estreia com um longa-metragem aconteceu por meio de “Bebel, Garota Propaganda” (1967). Ele foi o responsável por escrever, dirigir e produzir a obra. A história, baseada no romance "Bebel que a Cidade Comeu", de Ignácio Loyola Brandão, acompanha uma garota pobre que é contratada para comerciais de sabonete.

A jovem obteve um breve sucesso, mas logo resolvem substituí-la por outra pessoa. Ela já tinha desenvolvido sonhos para um futuro de sucesso, entretanto, precisa lidar com a banalização do mercado.

'O Profeta da Fome' (1970), de Maurice Capovilla, faz críticas à ditadura militar
'O Profeta da Fome' (1970), de Maurice Capovilla, faz críticas à ditadura militar (Foto: Reprodução/ Itaú Cultural)

Temática semelhante reverbera em suas próximas produções. Em 1970, dirigiu o “Profeta da Fome”, que participou de premiações nacionais e internacionais. Na narrativa, ele não se preocupa com o realismo estético e dialoga com o cinema marginal, movimento que se propagou pelo país no fim dos anos 1960.

Em suas redes sociais, em janeiro do ano passado, ele falou sobre a produção: “O filme na verdade é uma sátira para ridicularizar o regime militar da época. Depois de duas semanas na tela, foi confiscado, mas consegui viajar para Berlim, no Festival da Berlinale”.

Após isso, dirige “O Jogo da Vida” (1977), sobre a vida de três pessoas marginais. Também trabalha na Rede Globo como diretor da série "Globo Shell" (1971) e do "Globo Repórter", entre 1972 e 1975. Ainda divulga o longa “Harmada” (2003), adaptação do romance homônimo de João Gilberto Noll.

“O Capô não era só uma referência como cineasta. Para mim, ele foi uma bússola no pensamento crítico. Um homem generoso, criativo e absolutamente voltado para projetos inclusivos”, comenta Mónica Trigo, gestora cultural do segmento audiovisual. “O cinema brasileiro, hoje, fica órfão”, completa.

Maurice Capovilla também atuou no Ceará, quando integrou o projeto de implantação do Instituto Dragão do Mar e Indústria Audiovisual do Ceará, escola fundada na década de 1990. “Uma nova geração de cineastas e artistas talentosos foi formada no Instituto. Capô esteve conosco com sua generosidade, talento e dedicação”, afirma Bete Jaguaribe, diretora do Porto Iracema das Artes e coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza (Unifor).

“A Escola Porto Iracema das Artes é uma herdeira da experiência do Instituto Dragão do Mar, carregando, portanto, um tanto da paixão que Capô nos ensinou a viver sobre os processos artísticos”, complementa.

Maurice Capovilla também deixou um legado no Ceará
Maurice Capovilla também deixou um legado no Ceará (Foto: Reprodução/ Facebook)

“Maurice Capovilla fez parte de uma geração de artistas cineastas que amava o Brasil. A paixão dele era a gente brasileira, que o colocou na sua obra como personagem central. Capô foi um artista que, junto com Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, entre outros, nos ensinou a amar o cinema brasileiro”, diz Bete Jaguaribe.

Para ela, a morte de Capô, além da tristeza, traz uma simbologia maior: "Nesse dia de luta contra o genocídio programado que ocorre no Brasil. Ele estaria nas ruas, junto com os brasileiros que querem se encontrar novamente com o país. Salve Capô!"

Nas redes sociais, Marilia Alvim, viúva de Maurice Capovilla, homenageia: “Hoje Capô foi dançar no infinito.”

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