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Morre Brandão, grande poeta e letrista da música cearense

Antônio José Soares Brandão, o Brandão, poeta, compositor, arquiteto e artista plástico, deixa extenso legado para a música brasileira

Luiza Ester
20:47 | 03/05/2021
Brandão em 2018, em foto cedida por Mona Gadelha (esquerda) e Brandão no making of do filme
Brandão em 2018, em foto cedida por Mona Gadelha (esquerda) e Brandão no making of do filme "Cauim", de Ednardo (Foto: Maira Sales/Cauim - Ednardo)

Morreu Brandão, um dos grandes letristas da música cearense, na noite do último domingo, 2, por uma pneumonia que evoluiu para uma septicemia. Poeta, compositor, arquiteto, artista plástico, esse piauiense que fez-se encanto no Ceará deixa a sua poesia viva na interpretação de artistas Brasil afora.

Da geração da efervescência cultural das décadas de 1960 e 1970, em Fortaleza, Brandão iniciou essa trajetória ainda na faculdade de Arquitetura, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele quem criou a capa do I Festival de Música Aqui (1968) e a capa do álbum Massafeira Livre (1979), do movimento cultural homônimo. Sua poesia foi interpretada por artistas como Nara Leão, Ednardo, Mona Gadelha, Fagner, Mimi Rocha e muitos outros.

Mais do que nunca, Antônio José Soares Brandão lembra: “Quando não mais houver poesia / na triste canção da mesa de um bar / É preciso entender que perdida / pela vida uma estrada caminha / E que uma cidade sozinha / não comporta a procura da vida / É preciso sair pelo mundo”. Tais versos são de “Além do Cansaço”, parceria de Brandão com Petrúcio Maia.

As incertezas de uma pandemia impediram a poesia das canções entoadas nas mesas dos bares. Não há possibilidade de se encontrar, tão pouco aglomerar. Brandão já havia dito que uma cidade, sozinha, não dá conta da vida, mas sair por aí também não seria possível agora. De alguma forma, ele decidiu caminhar por estradas invisíveis. Certamente, em busca da poesia.

Brandão se vai, mas seu legado permanece vivo para a compreensão da arte neste País. Ao mesmo tempo, “De qualquer jeito é cedo/ De qualquer jeito há medo/ De qualquer jeito/ A força vem do braço/ Ou da palavra sai/ Corre”, como na canção “Alazão” — parceria com Ednardo.

Para o cantor e compositor Ednardo, as letras de Brandão “são, na verdade, poesias que por si só existem”. Parceiros de longa data, os dois realizaram diversas músicas juntos, como “Alazão”, “É Cara de Pau”, “Duas Velas”, “Vaila”, “Classificaram”, “Boi Mandingueiro” e muitas outras. Brandão também fez as artes gráficas do disco “Cauim” (1978) e do já citado “Massafeira Livre”. E Ednardo editou o primeiro livro de poesias de Brandão, “Todas As Noites”, pela sua editora.

ANTÔNIO JOSÉ SOARES BRANDÃO - O NOSSO QUERIDO POETA BRANDÃO NOS DEIXOU, ESTAMOS SEM SUA PRESENÇA FÍSICA MAS SEUS VERSOS ESTÃO ETERNIZADOS NA VOZ DE MUITOS ARTISTAS E NA MEMÓRIA DAS PESSOAS QUE ADMIRAM SUA ARTE.

Publicado por Ednardo Sousa em Segunda-feira, 3 de maio de 2021

 

“Estou abalado emocionalmente pelo falecimento do parceiro Brandão… Sua importância para a Música Brasileira é imensa. Outros colegas de música também realizaram parcerias com ele, em reconhecimento ao seu intenso brilho poético. Estou muito triste e gostaria de agradecer a este imenso artista e parceiro”, diz Ednardo, que cita: “Os olhos umedecem/ E as bocas não emudecem/ Porque as ânimas poéticas agradecem/ Valeu Brandão”.

Mona Gadelha, cantora, compositora, jornalista e produtora cultural, lembra que Brandão “é um dos maiores letristas da música brasileira”. Entre as “obras-primas”, a artista destaca “Alazão”, “Frio da Serra”, “Além do Cansaço”, “Beco dos Baleiros” e “Pé dos Sonhos”. No álbum “Praia Lírica - um tributo à canção cearense dos anos 70”, Mona gravou “La Condessa”, canção de Brandão em parceria com Ricardo Bezerra e Ribamar.

“Foi uma alegria reencontrar com ele, pelo menos um pouco. Fazer uma foto, contar da minha grande admiração”, conta. Daí, nasceu o show “Brandão 70 anos” (2018), com Mimi Rocha e Marcus Vinnie, no Cantinho do Frango. A apresentação, inclusive, contou com a presença de Ednardo. Mona lembra com carinho de quando Brandão foi assistir ao show “Maraponga 40 anos”, no Cineteatro São Luiz, produzido por ela, Ricardo Bezerra e Maira Sales. Uma revisita ao LP “Maraponga”, gravado em 1978.

Brandão em 2018, no camarim do show "Maraponga 40 anos", com Mona Gadelha
Brandão em 2018, no camarim do show "Maraponga 40 anos", com Mona Gadelha (Foto: Maira Sales)

Segundo Mimi Rocha, guitarrista, produtor musical e arranjador, as obras mais emblemáticas da produção do piauiense são as parcerias com Fagner, Petrúcio Maia, Ednardo e Chico Pio. “Estamos todos abalados com a partida de Soares Brandão. Fica essa saudade grande desse cronista. Sua obra é vasta e merece pesquisa. A gente deve reverenciar a obra dele, deixar que as novas gerações conheçam, porque é uma obra atemporal”, exalta.

Em homenagem a Brandão, Mimi realizou dois shows. Além da apresentação com Mona Gadelha, a outra foi realizada no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), com produção de Márcio Caetano e João Wilson.

Fagner conheceu Brandão ainda durante a faculdade de Arquitetura, junto com personalidades como Fausto Nilo, Belchior e Augusto Pontes. “Ele é uma figura extraordinária. Foi um dos grandes parceiros que eu tive”, considera. O cantor e compositor lembra da alegria, do jeito divertido e da risada explosiva de Brandão. Mesmo piauiense, ele diz que o poeta poderia ser considerado símbolo da “molecagem cearense”.

“É uma perda difícil de ser digerida, ainda mais nesse momento de tantas perdas. Esse mundo de cabeça para baixo (em referência à pandemia da Covid-19)”, lamenta Fagner. Das canções, destaca “Dois Querer” (gravada com Zé Ramalho) e “Um Real de Amor” (com participação de Zeca Baleiro), também gravada por Zeca Pagodinho.

Para o cantor e compositor Chico Pio, além de um amigo e vizinho, se foi alguém que lhe passava “muita coisa boa”. Alguém que conhecia a morte a vida, gostava da noite e tinha certeza do dizer. “Ele era um poeta de primeira linha. Eu não tenho como classificar o Brandão sem dizer que ele estava na coluna dorsal dos maiores letristas do Ceará, do Brasil e do mundo”, reverencia.

Chico conta que Brandão era bastante reservado e gostava de ficar com o cachorro na calçada. “Vai deixar muita saudade, ele é um grande amigo”, acrescenta. A última parceria juntos foi “Na Subida da Montanha”. “A gente tomava nossas cachacinhas, mas sabia voltar para casa. Nas palavras de Brandão, ‘cada vez o sonho fica mais comprido, mais torcido, mais pesado de lá pra lá’”, recita.

O cantor e compositor Rogério Soares, que também esteve no movimento Massafeira, acredita que a música brasileira perde, realmente, um grande poeta. Já o universo, brilha com mais uma estrela. “Dono de uma poesia primorosa e de um jeito simples e fala mansa, Brandão deixa músicas memoráveis, pérolas da música popular brasileira”, enaltece.

O DJ Alan Morais, apaixonado por vinil, também cantor e compositor, diz que Brandão “está entranhado com a imagem da qualidade da música cearense”. Para ele, o letrista era um poeta maldito (comparando com o piauiense Torquato Neto). “Ele era quem tinha as letras de músicas mais poéticas e revolucionárias”, destaca. Segundo ele, que se diz fã, Brandão é para a música cearense um nome tão importante quanto, por exemplo, Fagner e Belchior.

Diante de tudo, é preciso saber que “No quintal por trás de casa/ Tem um pé de sonho/ Que não para de florar”, como na canção “Pé de Sonhos”, interpretada tanto por Fagner quanto por Nara Leão. Talvez, Brandão queria lembrar, mesmo, que a vida é sempre essa eterna procura.

Ao O POVO, sua filha, Joana Brandão, compartilha um tanto dessa poesia hereditária:

"Meu Pai

Gostava de ter seus segredos
Como eu.
Os soltava ao longo de anos e anos
Nunca completamente.
Música muito antiga
Do tempo em que tinha nascido.
Disse uma vez que morou em São Paulo, em Brasília e ia ao Rio de Janeiro.
Disse que Gonzaguinha
Tinha cheiro de cravo-da-índia.

E disse: "uma vez encontrei o João do Vale aqui em Fortaleza
E saímos de bar em bar, bebendo cachaça e falando de tudo".
Falava
Que Tom Zé tinha uma escola de música onde se lia na plaquinha:
"Sofistibalacobaco:
Muito som e pouco papo".
Contava as anedotas e haicais do Jayme Ovalle cearense, seu amigo
O inoxidável Augusto Pontes:
"A união se faz à força".

Algumas das maiores vozes do país cantaram músicas de meu pai.
Nara Leão gravou uma composição sua.
Meu pai
Sempre foi um homem oculto.
Disse minha tia que ganhou um campeonato de Matemática
E levou o prêmio para casa escondido dentro da camisa, para que
Ninguém soubesse.
Fez canções com cavalos, mulheres bonitas
E ilustrações para capas de discos e festivais de música.

Fez um livro de poesias
Entre elas algumas curiosíssimas
Em uma língua indecifrável
E aparentemente, com gramática própria.
Meu pai era um mundo.
Conversávamos
Sobre violões, arte e enciclopédias.
Assistíamos a todo tipo de filme juntos.
Uma vez lhe perguntei:
"Não há nada que não interesse ao senhor"?
Ele, pela primeira vez na vida, tardou uns vinte segundos
Pausado, pensando
Para responder simplesmente:
"Não".

Meu pai, um nativo do signo de peixes
Voltou para o mar das emoções onde nasceu
Na noite passada.
Roubei uma rosa branca de uma coroa de flores
E a aconcheguei entre suas mãos como último gesto

De meu mais profundo sentimento".