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Vida & Arte
NOTÍCIA

Conheça a curiosa vida de Emily Brontë, a autora de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’

O clássico da literatura inglesa foi um dos livros mais vendidos em 2020 no Brasil. Mas pouco se sabe da mais reclusa das irmãs Brontë

Sâmya Mesquita
12:23 | 12/02/2021
Retrato de Emily Brontë, autora de 'O Morro dos Ventos Uivantes' (Foto: (Foto: Reprodução/Getty Images))
Retrato de Emily Brontë, autora de 'O Morro dos Ventos Uivantes' (Foto: (Foto: Reprodução/Getty Images))

Em 1818, na Inglaterra regencial, a Revolução Industrial engatinhava e exércitos descansavam após sucessões de conflitos na Europa. E apenas homens poderiam assinar suas obras literárias. Também foi o ano em que Emily Brontë veio ao mundo. Poetisa e autora de O Morro dos Ventos Uivantes (1847) - assinado sob o nome de Ellis Bell - a jovem inglesa de Yorkshire deixou pouquíssimos registros de seu talento; o clássico gótico, inclusive, é seu único livro. E, com ele, de vez em quando, Emily retorna aos rankings de best-sellers.

Há alguns anos, o clássico ganhou notoriedade quando a protagonista de 'Crepúsculo' - série de livros teen de Stephanie Meyer - Bella Swan disse ser esta seu livro favorito. E esta simples menção fez com que jovens adolescentes que nunca ouviram falar do clássico, mesmo os brasileiros, corressem para adquirir seu exemplar nas livrarias. Com o lançamento de 'Sol da Meia-Noite' em 2020, que conta a mesma história de 'Crepúsculo', mas com a perspectiva do vampiro Edward, um novo impulsiono às vendas de Emily pode ter sido motivado. Só no ano passado, foram mais de 46.000 cópias vendidas só no Brasil.

Capa de ‘O Morro dos Ventos Uivantes‘ ao estilo de ‘Crepúsculo’, publicada pela editora Lua de Papel. Em vermelho, os dizeres ‘O livro preferido de Bella e Edward – Crepúsculo’
Capa de ‘O Morro dos Ventos Uivantes‘ ao estilo de ‘Crepúsculo’, publicada pela editora Lua de Papel. Em vermelho, os dizeres ‘O livro preferido de Bella e Edward – Crepúsculo’ (Foto: (Foto: Reprodução/Amazon))

Mais trágico que o romance de Edward e Bella, Emily narra a história de amor entre os irmãos adotivos Catherine e Heathcliff na fazenda 'Morro dos Ventos Uivantes'. Catherine é obstinada e egoísta; Heathcliff é grosseiro e destemido. O noivado de Cathy com Edgar Linton, rival de Heathcliff, é a gota d'água para que o “mocinho” vá embora e retorne, mais tarde, rico e com sede de vingança por ter sido privado da presença de sua amada. Causando, inclusive, desconforto em leitores atuais e reconstrucionistas, que problematizam a condução desse amor.

É difícil imaginar o que teria pensado Emily ao ver tantos fãs de vampiros interessados em sua obra - afinal, o clássico vampiresco Drácula só surgiu em 1897, quarenta anos depois de O Morro dos Ventos Uivantes. Mas, mais do que uma questão cronológica, Emily é um ponto de interrogação: existem pouquíssimos registros sobre a vida da autora. Sem nunca ter se casado, a quinta filha dos seis descendentes do casal Patrick Brontë e Maria Branwell foi professora aos 20 anos, mas abandonou a profissão quando começou a ter problemas de saúde causados peor uma jornada de trabalho exaustiva de 17 horas diárias. O que se sabe sobre sua personalidade, no entanto, vem de escritos da irmã mais velha, Charlotte Brontë, autora do também aclamado clássico 'Jane Eyre', que escreveu sob o pseudônimo de Currer Bell.

As três irmãs Brontë, retratadas por Patrick Brontë. Da esquerda para a direita: Anne, Emily e Charlotte.
As três irmãs Brontë, retratadas por Patrick Brontë. Da esquerda para a direita: Anne, Emily e Charlotte. (Foto: (Foto: Reprodução/Patrick Branwell Brontë/Getty Images))

Segundo a irmã mais velha, Emily era excêntrica, reclusa, introvertida, não muito ligada a amores românticos e preferia a companhia de seu cachorro à das pessoas. “Embora seus sentimentos pelos que a cercavam fossem benevolentes, relações com eles ela nunca devolve, nem, com exceções, como experimentou”, escreveu Charlotte em prólogo para a edição de O Morro dos Ventos Uivantes de 1850. Duzentos anos de dúvidas solidificaram a imagem da jovem de Yorkshire como uma “esquisitona”, embora a biografia escrita por Claire O'Callaghan busque reabilitar essa reputação. Segundo a pesquisadora em 'Emily Brontë Reappraised' (em tradução livre: 'Emily Brontë Reavaliada'), Emily poderia ser tímida e reservada, mas não merecia o retrato que lhe é atribuído.

“Essas imagens 'fundadoras', baseadas em opiniões alheias, foram ampliadas, retrabalhadas, dramatizadas e amplificadas ao ponto de se tornarem míticas até hoje”, disse Claire ao jornal britânico The Guardian. Emily foi aplicada a partir de diversos ângulos, geralmente negativos: ora era “uma solteirona séria, antiquada e odiosa que vagava pelas charnecas de Yorkshire sozinha com seu cachorro”, ora “uma garota-mulher dolorosamente tímida e socialmente desajeitada que ficava sempre doente que saía de casa ”.

“Ela adotou a estratégia de apelar para a piedade apresentando suas irmãs como um pouco esquisitas e estranhas, pessoas que não sabiam realmente o que estavam fazendo”, disse O'Callaghan em entrevista.

Há ainda a ideia de que ela era “teimosa e desafiadora que voluntariamente contém diversos males físicos e mentais”, ou “uma alma etérea frágil demais para uma falha no mundo real”. Claire argumenta que os mitos perpetuam uma ideia de que ela era “estranha” de forma hostil e estigmatizante, a ponto de enterrarem a verdadeira Emily por debaixo de um tapete de opiniões incertas.

É daí que vem oa alcunha de “a mais estranha das três estranhas irmãs Brontë”, cunhado pela poeta Ted Hughes em referência às bruxas shakespearianas da peça Macbeth, que profetizavam destinos dos personagens principais do enredo. O trio era formado por Charlotte, Emily e a caçula Anne Brontë, dona de um dos primeiros livros feministas da história, 'A Senhora de Wildfell Hall'. Mas talvez as irmãs tenham feito algum tipo de profecia: apesar das problemáticas atuais, em suas obras, as protagonistas femininas aspiram por uma independência impraticável para a época. É de Jane Eyre, inclusive, a célebre frase “Se teve asas e liberdade, voaria mais alto que as nuvens”.

O pai das meninas era um pastor protestante que conseguiu sair da pobreza graças a uma patente inteligência e habilidade para escrever. Com a morte precoce da esposa - que pode explicar um pouco da história de abandono dos filhos Earnshaw, no livro -, o pai Brontë só dedicou atenção e recursos à educação do filho homem, deixando como garotas sob a responsabilidade de um internato de caridade em Cowan Bridge. Lá elas sofriam castigos, alimentavam-se mal e não dormiam, devido ao frio. Apesar de serem negligenciadas pelo pai, as jovens sempre foram incentivadas por ele a ler e escrever, algo raro para a época. Emily escreveu sua obra-prima aos 28 anos de idade, ao que se sabe, virgem e sem nenhum grande romance que a pudesse ter inspirado - a não ser pelos que lia.

 Capa de edição popular de 'O Morro dos Ventos Uivantes', da editora Principis
Capa de edição popular de 'O Morro dos Ventos Uivantes', da editora Principis (Foto: (Foto: Reprodução/Amazon))

Um olhar psicanalista, talvez anacrônico, diria que Emily projetou em Cathy o que gostaria de ter feito na vida real, desde a liberdade para dar respostas tidas como insolentes à necessidade sofrida de viver um amor tragicamente intenso. Vítima de um estado de saúde fragilizado por uma constipação grave, tuberculose e relutância em aceitar ajuda médica, não teve tempo de viver esse amor. Morreu em 1848, aos 30 anos, idade que já a consideraria uma "solteirona", para os padrões da época. Em vida, Emily viu 'O Morro dos Ventos Uivantes' vender apenas duas cópias. Mal imaginava ela que sua única obra entraria se tornaria um clássico da literatura inglesa - e se seria o livro de cabeceira de uma garota apaixonada por um vampiro que brilha.