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Quem é Amanda Gorman, a poeta que declamou na posse de Biden

00:05 | 22/01/2021
Autora de 22 anos atraiu atenção mundial ao se tornar a mais jovem poeta a participar de uma posse presidencial nos Estados Unidos. Sua história de vida reflete a de tantas outras compatriotas.Quando chega o dia, nos perguntamos: onde podemos encontrar luz nesta sombra sem fim? A perda que carregamos, um mar que devemos navegar Enfrentamos o ventre da besta Aprendemos que silêncio nem sempre é paz Essas são as linhas de abertura do poema The hill we climb ("A colina que escalamos", em tradução literal), de Amanda Gorman, declamado nesta quarta-feira (20/01) pela própria autora durante a cerimônia de posse do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. O poema e sua apresentação a catapultaram para o centro das atenções globais, e obras da poeta atingiram o topo das paradas apenas um dia depois, como a própria Gorman observou em um tuíte. O poema foi difícil de escrever, revelou a autora em entrevista à emissora CNN. A obra reflete os anos tumultuosos que se seguiram à eleição do ex-presidente Donald Trump, bem como os protestos do movimento negro Black Lives Matter e os acontecimentos das últimas semanas. Em entrevista ao jornal New York Times, Gorman detalhou a dificuldade que teve em terminar o poema, uma tarefa que pensou ser "provavelmente uma das coisas mais importantes que farei na minha carreira". Ela ainda estava escrevendo-o quando, em 6 de janeiro, apoiadores de Trump invadiram o prédio do Capitólio, em Washington. Cura pós-crise Foi nesta noite do ataque ao Congresso que Gorman decidiu se sentar para concluir seu poema, acrescentando então versos sobre os últimos acontecimentos no país. Vimos uma força que destruiria nossa nação em vez de compartilhá-la Destruiria nosso país se isso significasse atrasar a democracia E esse esforço quase teve sucesso "O que eu realmente desejo com o poema é ser capaz de usar minhas palavras de uma forma em que nosso país ainda possa se unir e se curar", disse Gorman ao New York Times, acrescentando que tentou achar uma maneira de não negligenciar as duras verdades que o país enfrentou ultimamente. Aos 22 anos, Gorman é a poeta mais jovem a se apresentar em uma cerimônia de posse presidencial, uma honra compartilhada com outros poetas como Robert Frost e Maya Angelou. Frost declamou na posse do presidente John F. Kennedy, enquanto Angelou leu seu poema On the pulse of morning na cerimônia de Bill Clinton, em 1993. "Uma menina negra magricela" Graduada pela Universidade de Harvard, Gorman foi criada em Los Angeles pela mãe, que é professora e tem sido sua grande inspiração. A poeta mencionou a genitora em seu poema da posse com os seguintes versos, que expressam de maneira pungente a luta dos racialmente desprivilegiados, bem como a ascensão ao poder da vice-presidente Kamala Harris, a primeira mulher negra no cargo: Nós, os sucessores de um país e de uma época Onde uma menina negra magricela descendente de escravos e criada por uma mãe solteira Pode sonhar em ser presidente Apenas para se descobrir recitando para um Gorman se envolveu com a escrita criativa ainda jovem, a princípio para superar um problema de fala (o próprio presidente Joe Biden disse que tem lutado contra a gagueira). Aos 14 anos, ela se juntou a uma organização sem fins lucrativos chamada WriteGirl, que promove a criatividade e a autoexpressão para empoderar jovens garotas. Fundada em 2001, a premiada organização oferece um programa de mentoria, publica antologias, promove oficinas de poesia e assina um blog, certificando o apelo da poesia entre os jovens. Em 2013, a WriteGirl foi homenageada pela então primeira-dama, Michelle Obama, com o Prêmio do Programa Nacional de Artes e Humanidades para a Juventude. Em 20 de janeiro de 2021, a entidade organizou uma festa online para exibição da posse, convidando seus voluntários, ex-alunos e atuais participantes a assistirem à performance de Gorman. "A WriteGirl tem sido fundamental em minha vida. Graças ao apoio deles, pude perseguir meus sonhos como escritora", diz Gorman no site da organização. O site EducationWeek apontou que, entre 2012 e 2017, a proporção de consumidores de poesia na faixa de 18 a 24 anos mais que dobrou, "colocando os jovens adultos acima de todos os outros grupos etários" quando se trata de leitura de poesia nos EUA. Vale destacar que Amanda Gorman era adolescente e ia para a escola nessa mesma época. Os dados se referem a uma pesquisa do National Endowment for the Arts (Fundo Nacional para as Artes), agência governamental americana. "Suspeito que as mídias sociais tiveram uma influência nisso, bem como outras atividades e esforços robustos de divulgação", afirmou Amy Stolls, diretora de Literatura do National Endowment for the Arts, ao blog Art Works em 2018. "A poesia está se tornando viral [...]. De repente, a poesia de redes sociais está por toda parte: no Instagram, no Facebook, no Twitter e cada vez mais na mídia impressa", escreveu a revista PublishersWeekly naquele mesmo ano. Já a poeta americana Jane Hirshfield afirmou ao New York Times: "Quando a poesia está estagnada, isso significa que os tempos estão OK. Quando os tempos estão difíceis, é exatamente quando a poesia é necessária." Fascinada por mudanças políticas Aos 16 anos, Gorman se tornou a primeira ganhadora do prêmio Youth Poet Laureate de Los Angeles e, aos 19, foi a primeira a receber o National Youth Poet Laureate, o mesmo prêmio em nível nacional. Em entrevista ao site Today.com sobre sua nomeação, ela disse ser fascinada por mudanças sociais e políticas. Ela sentia que "devia escrever, devia falar, porque muitas pessoas têm sido mantidas afastadas dessa oportunidade." Gorman chegou até mesmo a expressar seu desejo de concorrer à presidência americana um dia, conforme a ex-secretária de Estado e ex-senadora Hillary Clinton revellou no Twitter após a cerimônia de posse na quarta-feira. Os trabalhos de Gorman incluem a coleção de poesia The one for whom food is not enough, e dois livros, Change sings, para crianças, e The hill we climb. Um traje simbólico Gorman tem um grande número de seguidores nas redes sociais: são mais de um milhão de seguidores no Twitter e mais de 2,2 milhões no Instagram, onde ela posta fotos de seus próximos livros, frases motivacionais e reflexões sobre eventos e incidentes, como as eleições presidenciais e a morte do ator Chadwick Boseman. Vídeos de suas apresentações reúnem centenas de milhares de cliques. Seu canal no YouTube já tem mais de 213 mil assinantes. Sua mais recente performance na posse de Biden, que atraiu muita atenção, também deu o que falar devido às roupas que ela escolheu usar na cerimônia. Segundo a poeta, o casaco Prada de um amarelo brilhante remete às inclinações feministas da estilista Miuccia Prada. Mas a ideia em si foi inspirada na nova primeira-dama, Jill Biden, que viu Gorman pela primeira vez em um vídeo se apresentando na Biblioteca do Congresso em 2017 e a procurou. Na ocasião, a primeira-dama elogiou a poeta por seu modelito amarelo. Já os brincos de argola, segundo Gorman, foram escolhidos pela apresentadora de talk show Oprah Winfrey, que também havia enviado luvas e um casaco Chanel a Maya Angelou quando esta se apresentou na posse de Bill Clinton. O anel de Gorman, por sua vez, simboliza um pássaro enjaulado como um tributo ao famoso livro de Angelou I know why the caged bird sings ("Eu sei por que o pássaro enjaulado canta"). Em declarações para a revista de moda Vogue, Gorman disse que estava "tecendo seu próprio tipo de simbolismo" na escolha do traje. "É muito especial e importante para mim entregar essas pepitas de informação e sentimentalismo enquanto recito o poema", afirmou a jovem poeta. Autor: Manasi Gopalakrishnan
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