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"Pifeiro dos deuses", Mestre Raimundo Aniceto tem legado celebrado por artistas e autoridades

Na música, na performance ou no cinema, o Mestre Raimundo Aniceto - que faleceu na noite de ontem, 15, aos 86 anos - deixa importantes marcas para a cultura cearense

João Gabriel Tréz
14:49 | 16/10/2020
Mestre Raimundo Aniceto na Feira do Crato em foto de março de 2006. Lá, não deixava de vender goma e farinha (Foto: Lia de Paula em 3/3/2006)
Mestre Raimundo Aniceto na Feira do Crato em foto de março de 2006. Lá, não deixava de vender goma e farinha (Foto: Lia de Paula em 3/3/2006)

“Parece que tudo foi dito sobre os Irmãos Aniceto. Não foi”, atesta o jornalista, professor e pesquisador Gilmar de Carvalho em entrevista ao O POVO. A afirmação precisa vem no contexto do falecimento do Mestre Raimundo Aniceto, integrante remanescente da segunda formação da banda cabaçal Irmãos Aniceto. Após alguns dias internado no Hospital São Camilo, no Crato, ele morreu na noite da quinta-feira, 15. Há cinco anos, o artista vinha sofrendo com consequências de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Leia mais | Páginas Azuis com Mestre Raimundo Aniceto em 2006

Mestre Raimundo deixa grandezas sem medida para a cultura do Estado. Os Irmãos Aniceto, aponta Gilmar, “formam um grupo ímpar demais para caber nas gavetinhas dos pesquisadores. São muito mais que uma banda cabaçal, ainda que seja uma das mais competentes que estão tocando por aí. Eles dançam e não é uma dança qualquer”. O grupo tradicional traz consigo história centenária que remonta ao período em que o povo indígena Kariri vivia no território onde hoje é a região do Cariri cearense.

As origens da banda são difíceis de precisar, mas centram-se na figura do pai de Mestre Raimundo, Zé Aniceto, ainda que a arte tenha sido passada para ele, por sua vez, pelo próprio pai. “A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto é uma manifestação cultural totalmente contemporânea, mas que se constrói sobre a memória ancestral da família Aniceto, reinventando essa memória na atualidade”, dá conta o professor Pablo Assumpção, autor dos livros "Anicete, quando os índios dançam" (UFC) e "Irmãos Aniceto" (Edições Demócrito Rocha).

“Mestre Raimundo, que era agricultor e artista como seu pai, seu tio e seus irmãos, tinha muita clareza sobre esse vínculo entre passado, presente e futuro que confere valor a qualquer tradição cultural verdadeira. Ele falava sobre esse vínculo com doçura e orgulho”, lembra Pablo. Secretário da Cultura do Ceará, Fabiano Piúba define Mestre Raimundo como um “griô brasileiro”. “Mestre Raimundo Aniceto vem do tronco velho dos Kariri. Herdeiro de tradição secular, Mestre Raimundo é um grande griô brasileiro das artes e dos saberes das bandas cabaçais do Sertão do Cariri cearense e nordestino”, afirma o gestor.

Irmãos Aniceto tocaram em diferentes palcos ao longo da carreira. Na foto, os mestres Raimundo e Antônio Aniceto em um ensaio no Theatro José de Alencar para apresentação com a Orquestra Eleazar de Carvalho
Irmãos Aniceto tocaram em diferentes palcos ao longo da carreira. Na foto, os mestres Raimundo e Antônio Aniceto em um ensaio no Theatro José de Alencar para apresentação com a Orquestra Eleazar de Carvalho (Foto: Fco Fontenele em 27/2/2008)

O título de “Mestre” que o artista recebe não é somente por justa reverência: em 2004, ele foi reconhecido enquanto Mestre da Cultura pela Secult. Em agosto de 2019, outro reconhecimento: o Museu Casa de Mestre Raimundo Aniceto, iniciativa do projeto de museus orgânicos empreendida pela Fundação Casa Grande e pelo Serviço Social do Comércio do Ceará (Sesc/CE), foi inaugurado na intenção de preservar patrimônios materiais e imateriais do Mestre e dos Aniceto.

“Não resta dúvida que ele desempenhou seu papel de mestre muito bem, inspirando esse valor na geração mais jovem, que com certeza hoje vai cantar e dançar lá no Crato como forma de celebrar sua vida, sua doçura e seu orgulho”, acredita Pablo. Cantor, compositor e músico, Calé Alencar - que já teve parcerias com os Aniceto - resume o artista como “Mestre menino, mestre mais iluminado, futuro e nosso passado, um sopro no mêi do mundo”. "Salve, meu mestre, seu Raimundo Aniceto, que seja de luz a vida, a morte e a ressurreição. Após 3 dias você vira uma taboca, quando for no tempo certo, nas ondas do mais sagrado, feito winu cariri, tu aparece encarnado, pelas mãos de uma criança, tocando pife outra vez", poetiza Calé.

Os Aniceto fizeram apresentações do Cariri à Europa. A jornalista Eleuda de Carvalho, que trabalhou durante 10 anos no O POVO, encontrou com os irmãos em diferentes ocasiões. Antes mesmo do contato profissional, porém, encontrou a banda no palco do Theatro José de Alencar. "A primeira vez que vi a banda cabaçal dos Irmãos Aniceto nem me dei conta do que tinha visto. Foi ainda no final dos anos 1970, eu com 19 anos, no Movimento Massafeira, organizado pelo Ednardo", remonta. Duas décadas depois, trabalhando na Rádio Universitária, pôde ver outra apresentação do grupo, essa no Crato, junto de Hermeto Pascoal.

Ao longo dos anos como repórter do O POVO, os encontros se deram por várias momentos, da Feira do Crato a apresentações. Um deles é um destaque na memória da jornalista. "Foi no primeiro encontro Mestres do Mundo, já no século XXI. Os Mestres se apresentavam e também realizavam oficinas dos seus saberes. Numa tarde muito quente, estavam os Irmãos Aniceto ensinando a sua performance, seu bailado. Um grupo de dançarinos muito jovens de algumas cidades do interior ficavam naquela ânsia de aprender com os velhos Aniceto", descreve Eleuda. "Embora eles tivessem a juventude, a elasticidade e até um conhecimento mais formal da dança, ninguém conseguiu reproduzir a arte sutil dos pés do Mestre Raimundo e do Mestre Antônio. Era uma leveza como se aquilo fosse super fácil de fazer. Aquilo é uma vida inteira pra fazer lindo daquele jeito", ressalta.

Além da música e das performances, os Aniceto também figuraram em produções audiovisuais de diferentes épocas do cinema brasileiro. Uma das parcerias mais frutíferas foi com o cineasta Rosemberg Cariry: “Pífanos e Zabumbas” - curta documental gravado em 1988 mas ainda inacabado -, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1985) e “Siriará” (2008), por exemplo. Além destes, os Aniceto também fazem aparição em “Dona Ciça do Barro Cru” (1979), de Jefferson Albuquerque Jr., e são um dos focos de “Zabumba” (1974), de Zelito Viana.

Mestre Raimundo Aniceto no filme "Siri-ará", de Rosemberg Cariry
Mestre Raimundo Aniceto no filme "Siri-ará", de Rosemberg Cariry (Foto: Cláudio Lima / divulgação )

O cineasta travou distintos encontros profissionais com o grupo e Mestre Raimundo, seja em festivais ou produção de discos. "A música/dança dos Aniceto, pela beleza e profundidade, rompe a camisa de força do regional e insere-se em um contexto de universalidade e de contemporaneidade. Encontramos, assim, esse grupo trabalhando com a genialidade de Hermeto Paschoal, com o free jazz internacional de Ivo Perelman, com a renovação musical/nordestina do Quinteto Violado", avalia Rosemberg.

"Com ele se vai o último dos Aniceto da formação inicial da Banda. São 200 anos de música e de encantamento. A morte do Mestre Raimundo, encerra uma fase gloriosa. Foi-se embora um gigante, leve como uma pluma de passarinho. Que Deus o tenha, agora, em companhia do pai e dos seus iluminados irmãos. Que a festa no céu seja intensa", celebra o diretor.

Além de superarem noções fechadas dos tempos passados, Mestre Raimundo e os Aniceto torcem, também, noções de futuro. "São músicos e xamãs de rituais cujo sentido não deciframos de todo. Raimundo Aniceto foi um pifeiro dos deuses. Tinha uma liderança forte sobre o grupo. Mas não abria mão de sua
banca de vender farinha e goma da Feira do Crato. Esta a diferença: a síntese entre natureza e cultura. Eles se perdem em relação ao tempo do grupo. Somam as idades e a gente vê que dançaram desde sempre, nunca pararam, e vão dançar até quando estivermos aqui, neste planeta ameaçado", acredita Gilmar.