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Rodolfo Teófilo e a saga contra a peste

Embates entre a ciência e a política diante de quadros epidêmicos não são de hoje. Voltamos no tempo para recontar a luta de Rodolfo Teófilo contra a varíola no Ceará

Ivig Freitas
14/04/2020 18:58:24
Rodolpho Teófilo, médico sanitarista e escritor cearense.
Rodolpho Teófilo, médico sanitarista e escritor cearense. (Foto: Carlus Campos)

Cientista, farmacêutico e também sanitarista, Rodolfo Teófilo tem seu nome inscrito em um importante episódio da saúde pública do Estado. Ao desenvolver a sua vacina de combate à varíola, peste que assolou o Ceará no fim do século XIX, o farmacêutico deu início a uma batalha pessoal marcada pela escassez de recursos, a oposição do governo e a resistência da população. Testemunha de uma das piores epidemias que o Ceará viveu, Rodolfo Teófilo - também escritor - fez da palavra a arma de sua crítica contra as duras consequências da seca e da fome, as péssimas condições de higiene nos bairros de Fortaleza e sobretudo as armadilhas políticas de seu tempo.

Marcada pelo envolvimento no combate à varíola e outras epidemias como a febre amarela e a cólera, a vida de Teófilo como sanitarista é considerada por alguns historiadores como uma constante militância contra os abusos do poder das oligarquias locais. "A principal dificuldade enfrentada no projeto de vacinação de Teófilo foi protagonizada pelo poder público. Nogueira Acioly, que foi governador do Ceará durante 20 anos, fazia intensa oposição à campanha de Rodolfo. Não por duvidar da eficácia da vacina e da validade de seus conhecimentos científicos, mas apenas por enxergar pretensões políticas na atuação de Teófilo", conta Gleudson Passos, professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará.

A trajetória de Rodolfo à luz da atualidade, de acordo com Gleudson, reflete as tensões entre os conflitos políticos e as medidas tomadas diante dos problemas de saúde pública. "Embora exista muito mais difusão da cultura científica através das universidades e escolas, por exemplo, existem muitas pessoas que se sentem autorizadas a falar no lugar de infectologistas e médicos simplesmente porque estão tendo prejuízos econômicos e financeiros diante de um problema de saúde pública. O enfrentamento de hoje ao coronavírus recorda o celeiro de disputas ideológicas e eleitorais em que se transformou a luta contra a varíola no Ceará, no tempo de Teófilo", analisa.

Como escritor, Rodolfo, assim como número significativo de autores da época, se inseriu no debate de ideias motivado pelo avanço do cientificismo em todo o mundo. "Eles denunciavam, por exemplo, a concentração de pessoas em espaços não urbanizados, como os subúrbios de Fortaleza onde as epidemias se espalharam rapidamente", descreve Gleudson. Por meio de artigos nos jornais locais ou nos livros que escrevia, Teófilo comunicava aos leitores não só os dados estatísticos sobre a vacinação, mas criticava também as péssimas condições de higiene das periferias da Capital.

Além da falta de recursos, o sanitarista que percorria, praticamente sozinho, diversos bairros de Fortaleza para distribuir a vacina, enfrentou o receio da população diante da descoberta científica contra a varíola. Nesse contexto, criou a Liga Cearense Contra a Varíola, que se estendeu desde o final do século XIX até a primeira década do século XX. O grupo era composto de voluntários, todos eles moradores do subúrbio da Cidade. "Uma importante contribuição de Rodolfo para cultura científica no Ceará é a sua atitude diante da resistência da população à vacina. Ele percebeu que, embora não fosse um homem muito espiritualista, os agentes de saúde precisavam conhecer o mundo dessas camadas sociais, o seu universo mítico, o seu imaginário religioso", comenta Gleudson Passos.

Aproveitando-se da crendice popular, Rodolfo inventava histórias curiosas protagonizadas pelo herói Santo Jenner, nome do criador da vacina contra a varíola, o inglês Edward Jenner. "Antes de vacinar, ele costumava fazer o sinal da cruz no braço, dizia que um anjo estava comunicando que aquela pessoa precisava ser vacinada", narra o historiador. Para chegar até elas, como escreve Ednilo Gomes, escritor cearense, o farmacêutico "montava uma burra e saía, tal qual um Dom Quixote nordestino, e buscava populares para inocular-lhes a vacina salvadora".

Em 1904, Teófilo escreveu Varíola e vacinação no Ceará em que narra detalhadamente o desenrolar dos primeiros anos de sua campanha de vacinação (1901-1904). Esta obra relembra a trajetória da varíola nas terras cearenses, na qual ele dedica longas páginas à epidemia de 1878 (a maior da história da humanidade, segundo o autor) e ao Dia dos Mil Mortos, considerado o pior dia da epidemia da varíola no Ceará. "Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. A peste invadiu tudo, desde a palhoça dos retirantes até o palácio do presidente da província", escreveu o farmacêutico-escritor sobre o que testemunhou nesse dia.