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Artistas afirmam que tiveram obra censurada em centro cultural de Fortaleza

28/05/2019 16:02:18
Registro da faixa na entrada do CCBNB, antes de ser retirada na segunda-feira, 27, sem aviso prévio.
Registro da faixa na entrada do CCBNB, antes de ser retirada na segunda-feira, 27, sem aviso prévio.(Foto: Divulgação)

Registro da faixa na entrada do CCBNB, antes de ser retirada na segunda-feira, 27, sem aviso prévio
Registro da faixa na entrada do CCBNB, antes de ser retirada na segunda-feira, 27, sem aviso prévio (Foto: Divulgação)

Atualizada às 16h18min
Dois artistas de Fortaleza acusam o Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) de homofobia e censura de obra. O projeto "O que pode um casamento (gay)?", que aborda homofobia e afetividade LGBTQI, entrou em cartaz no último sábado, dia 25, como parte da programação do 70º Salão de Abril, um dos mais tradicionais eventos de arte realizados no Estado. Junto a outras obras, a exposição coletiva está prevista para permanecer até o dia 30 de junho no espaço, localizado no Centro de Fortaleza.

Em abril, a curadoria do evento selecionou 30 obras para serem exibidas em cinco espaços da Cidade, entre eles, o CCBNB. A instalação-performance é assinada pelos artistas Eduardo Bruno e Waldírio Castro. Em conversa com o Vida&Arte, Eduardo narra que um dos itens da instalação foi questionado pelo Banco. Se trata de uma faixa que deveria ficar exposta na entrada do espaço e continha a frase: “Em terra de homofóbicos casamento gay é arte”.

"Pediram para retirar a faixa, alegando que ela só poderia ficar no dia da abertura. Então, expliquei que a faixa fazia parte da instalação e deveria ficar na área externa do Centro Cultural até o dia 30 de junho, conforme fomos autorizados”, afirma. “Nos falaram, ainda, que o ‘o Banco não pode vincular a marca a esse tipo de frase’”, diz o artista.

De acordo com o artista, uma servidora teria sugerido retirar a faixa - já no dia da abertura - e marcar uma reunião para esta terça-feira, 28, em que os artistas e a gerência da instituição poderiam entrar em um acordo. “Falei que a obra não deveria sair antes da reunião, porque isso seria censura. Estávamos autorizados a estar ali, então, esse acordo foi feito”, justifica. Com isso, de acordo com Eduardo, ficou decidido que a faixa permaneceria exposta até a reunião com a gerência, nesta terça-feira, às 10 horas.

Elementos internos da Instalação, no CCBNB.
Elementos internos da Instalação, no CCBNB. (Foto: Divulgação)

A faixa, no entanto, foi retirada na última segunda-feira, 27, antes da reunião acordada e sem aviso prévio aos artistas. “Por volta de 12h30min de ontem (dia 27), passamos em frente ao CCBNB e vimos que a faixa não estava mais lá”, relata Eduardo, que desabafa ter se sentido censurado com a atitude. “Romperam nosso direito de expressão e não fizemos nada de forma ilegal. Passamos por curadoria, fomos selecionados. A faixa não incita violência, não tem palavra de baixo calão. A homofobia é tão forte que, mesmo numa obra pensada para falar principalmente sobre afeto, ela chega nesta instância”, afirma. Após a retirada da faixa, Eduardo diz que não houve mais diálogo por parte da instituição. 

Na manhã desta terça-feira, os artistas retiraram a instalação por completo.
Na manhã desta terça-feira, os artistas retiraram a instalação por completo. (Foto: Divulgação)

O casal foi ao CCBNB na manhã desta terça-feira, 28, para retirar o restante da instalação. “Sendo uma obra que discute homofobia, relacionamento homossexual e liberdade de expressão, não há lógica permanecer no espaço com nosso trabalho”, explica. 

Por meio de nota, o Centro Cultural defende que não interferiu na obra dos artistas. "A obra em questão faz parte do 70° Salão de Abril, organizado pela Prefeitura de Fortaleza e pelo Instituto Iracema, para o qual o Centro Cultural Banco do Nordeste cedeu espaço para algumas exposições. As obras foram selecionadas por uma curadoria contratada pelo Instituto Iracema. O Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza não interferiu na exposição do artista, somente discordou da instalação da faixa na entrada do equipamento, afixada próximo à logomarca do centro cultural, descaracterizando a fachada do prédio e comprometendo sua identidade visual". 

A Prefeitura de Fortaleza, também por meio de nota, lamenta o ocorrido e informa que já autorizou a realocação das obras para outro espaço que faz parte do Salão de Abril. “A Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) lamenta o corrido e já autorizou à curadoria do Salão de Abril a disponibilizar aos artistas a possibilidade de exposição em outro espaço que recebe a mostra do Salão de Abril em 2019. São eles: o Minimuseu Firmeza, a Galeria Sem Título Arte, o Centro Cultural Casa do Barão de Camocim e o Espaço Cegás de Cultura", diz. De acordo com a pasta, uma reunião realizada nesta terça-feira definiu que a obra será realocada no Centro Cultural Casa do Barão de Camocim, também no Centro de Fortaleza. 

O presidente do Instituto Iracema, Davi Gomes, também realizador do Salão, reitera: “A Prefeitura de Fortaleza e o Instituto são contra qualquer tipo de censura, liberdade de expressão, de gênero e artística. Eles foram selecionados e mereciam a exposição. A obra não fere nenhum princípio”, disse.

Redação O POVO Online